Antonio Carlos Rodrigues de Moraes (*), "O Ensino da História e as Percepções do Tempo"
[Palestra ministrada no dia 27/5/2000 no Educador 2000 -- Congresso Internacional de Educação]
Os avanços da tecnologias da comunicação estão provocando importantes mudanças na
percepção do tempo. A distância entre o tempo e sua percepção vai se encurtando, com
tendência à anulação. Os canais noticiosos gabam-se de operar "em tempo
real" e a internet elimina as distâncias espacio-temporais. Diante desse processo de
superação da seqüência pela simultaneidade, é oportuno questionar se ainda há lugar
para a História e quais seriam as conseqüências de sua possível descaracterização.
O Educador 2000 foi com muita felicidade organizado em torno dos objetivos básicos da educação ser, conviver e fazer e, após essa discussão, culmina hoje com várias reflexões sobre os "meios".
Há aqui, rapidamente desenhada, uma opção metodológica que me agrada. De fato, temos de discutir claramente onde queremos chegar e, a partir daí, discutir as novas tecnologias e não o inverso, ou seja, estabelecer nossos objetivos, consideradas as possibilidades novas abertas pelas tecnologias aplicadas à educação. Não podemos abandonar à lógica do mercado a responsabilidade pela fixação dos objetivos e isso vale tanto para a velha tecnologia do livro didático , quanto para os recursos da informática mas, ao contrário, com a consciência clara dos objetivos discernir os meios tecnológicos oferecidos pelo mercado. Creio que uma grande deficiência nossa, como educadores formais, é a circunscrição dos objetivos de nosso trabalho às fórmulas feitas repetidas ano a ano na formulação de nossos planejamentos e o desconhecimento do próprio alvo de nossas preocupações o aluno, essa pessoa que já adentra a sala de aula em intenso processo de educação informal. E aí, sem conhecer direito esse aluno e sem clareza a respeito de onde queremos chegar, perseguimos avidamente métodos e técnicas novas que se tornam rapidamente obsoletas, sem resolver nossos problemas.
Quero discutir, nesta feliz oportunidade de estarmos juntos, os pre-requisitos que a educação informal traz para a formal, principalmente os criados pelas tecnologias da comunicação. E, dentro dessa imensa floresta, vou me deter numa pequena clareira: o ensino da História.
Uma das minhas grandes preocupações no ensino da História é a carência da consciência do tempo e o desprezo pelo passado que dominam a consciência da maioria de nossos alunos. Preocupação muito bem colocada por Eric Hobsbawm:
"A destruição do passado ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio." (1)
O que significa essa "destruição do passado"? Trata-se, conforme o texto citado, da desvinculação de "nossa experiência pessoal à das gerações passadas". Em destaque, portanto, não o tempo objetivo, mas a nossa vivência do tempo. Objetivamente, o tempo continua a existir como sempre existiu, no cerne mesmo das coisas tanto as pessoas quanto os impérios, quanto o próprio universo, existem no tempo, no sentido de que nada se dá à existência de uma só vez para sempre. Ser é ser no tempo. Poderíamos discutir a objetividade do tempo com os físicos e os filósofos, por tempo indeterminado. Mas não quero, por ora, ocupar o nosso tempo com isso. Preocupam-me aqui as formas de percepção do tempo que, ao contrário do que chamei de tempo objetivo, variam bastante, conforme a diversidades dos tempos históricos, lugares e culturas. Creio não precisar gastar muitas palavras para convencê-los de que a nossa percepção do tempo, hoje, é muito diferente da de cinqüenta anos atrás, ou da do século passado, ou da do homem medieval. Isso salta de qualquer leitura que fazemos de documentos primários ou da obra de qualquer historiador.
Proponho, para ocuparmos esse nosso tempo de reflexão, quatro questões, a meu ver básicas para entendermos o fenômeno atual do esquecimento do passado:
O que significa esquecer o passado?
Creio que qualquer professor de História sabe como é difícil conseguir o interesse dos alunos pelo que aconteceu no passado que remonte a seu presente imediato. Quando se começa a falar de Grécia, Roma, feudalismo europeu, etc., ou mesmo do Brasil da década de 50, a primeira reação é de desapontamento. Certa vez, li um depoimento de um aluno meu à coordenadora pedagógica, onde afirmava que o professor de História era uma pessoa "muito legal", mas pena que falava de coisas muito antigas. Daqueles que conseguimos o interesse, na maior parte das vezes o foi à força de estratégias que apelam à sua curiosidade. Seu interesse por História não vai além da curiosidade de saber "como era naquele tempo", e seu conhecimento equipara-se a muitos outros, sobre os quais se interessa nas várias matérias que estuda. Ou seja, muito interessante, mas, nada a ver comigo.
Não estou afirmando que esse tipo de conhecimento não é importante. Não há coisa mais instigante, para o professor, do que uma curiosidade insaciável. O que afirmo é que isso não basta para o aprendizado da História. Não dá para aprender História, sem descobrir o que o passado tem a ver conosco. Assim como em Geografia, ninguém consegue estudar o espaço sem levar em conta o seu lugar como referência, em História a referência é o presente. Não o presente contínuo referido por Hobsbawm, o presente alienado do que se foi, mas o presente marcado, carregado com todo o peso acumulado por séculos de história.
Passado é dimensão fundamental desse presente. É a nossa identidade. Ninguém consegue apresentar-se como pessoa e nem como sociedade sem a consciência do seu passado. Uma lembrança desconsiderada, um monumento ou documento destruído na memória social significam, não simplesmente uma solução de um problema prático, ou o desapontamento de um sentimento "demodé", mas, sobretudo, uma redução de saber sobre o que somos. E quem não faz questão de saber quem é, está pronto para assumir uma identidade que não é sua. Por isso os negros fizeram questão de usar toda a criatividade para conservar a sua cultura: para jamais perder a memória (e portanto a identidade) de ser livre. Analisando, em História, o que normalmente nossa cultura faz questão de guardar em em sua memória e o que se tenta deletar, somos instigados a questionar sobre como queremos nos apresentar, ou querem que nos apresentemos: por exemplo, o que significa fazer questão de guardar até o pijama furado de Getúlio Vargas e submergir Canudos em um açude?
Além da perda de identidade, a alienação do tempo pode levar-nos a um subjetivismo, a um "emsimesmamento" que nos preserva do confronto com a realidade e, sobretudo, da necessidade de mudança. Convencemo-nos de que as coisas "sempre foram assim", de que "isso faz parte da própria natureza do homem", de que é da "própria lei da vida". E, portanto, pouco há que se fazer, além do cuidado que cada um deve ter com sua própria vida. Nossa omissão esconde-se na naturalização do histórico, protegidos do tempo, assim como nos preocupamos em proteger o nosso espaço, o nosso lar, de tudo o que acontece "lá fora". O reverso da medalha chamada insegurança não seria essa auto demissão da cidadania? A realidade torna-se cada vez mais assustadora, justamente por causa da generalização dessa atitude egocêntrica e alienada.. Aqui faz muito sentido (embora não sei se ele tenha pensado nisso) o julgamento de E. Hobsbawm: realmente, as pessoas, em geral, fazem questão de esquecer e o historiador é aquele que faz questão de lembrar.
Por que esquecemos o passado?
Conscientes da importância do assunto, não só para nossas formulações teóricas mas igualmente para nossas praticas pedagógicas e políticas, temos de investigar as causas da destruição dos vínculos que ligam o nosso presente ao passado. Vou propor algumas pistas de reflexão mais genéricas e, depois, pensar um pouco sobre a possibilidade de influência do uso dos meios modernos de comunicação.
Uma possível razão é o trauma: quando o passado nos causa desconforto. Muito fácil de ser observado em nossa história pessoal, existe também esse mecanismo de defesa no nível das culturas. A ideologia do "Destino Manifesto" que até hoje é um fator de muito peso na construção da cultura norte-americana, de "self-made man", totalmente voltado para o futuro, sem respeitar qualquer tipo de fronteira, em que o passado tem muita pouca monta, talvez se nutra desse trauma: os pais peregrinos vieram para a América para construir um país novo, passando uma borracha na memória das perseguições políticas e religiosas na Inglaterra do século XVII.
Um outro tipo de trauma que pode levar à tentativa de destruição do passado, está ligado à construção de nossa identidade, quando fazemos questão de esquecer qualquer fato que possa obnubilar a nossa imagem brilhante, benevolamente construída em nossas consciências. O filme clássico alemão "Cidade sem passado", dirigido por Michael Verhoven coloca bem esse mecanismo. Quem foi nazista deseja que o passado continue intocado, pelo menos depois que o nazismo foi derrotado e quase universalmente condenado por seus horrores. A nossa lei da Anistia, além de permitir a volta à cena política de muitos banidos durante a ditadura militar, serve também a esse propósito de esquecimento do passado. É muito reveladora essa dubiedade: as vítimas precisam remexer no passado, para que suas vidas possam ser reconstruídas, enquanto os algozes fazem de tudo para que o passado permaneça intocado e possam, assim, terminar em paz os seus dias. Estão normalmente dispostos a pagar a intocabilidade do passado, com o seu próprio esquecimento pela História.
Uma outra causa de repulsa ao passado, foi colocada pelo escritor israelense Amos Oz, professor de literatura hebraica da Universidade Bem Gurion(2). Situa ele o fenômeno dentro de um contexto mais amplo, que tipifica como "processo de infantilização universal", que leva as pessoas a declinarem de suas identidades próprias, para assumirem uma identidade genérica e diluída de bons consumidores. Esse processo produz a perda de disposição para o complexo e o difícil. O bom consumidor recusa tudo o que não for de fácil consumo. E a História, que tem como objeto as realidades que se fazem no tempo, e não as coisas prontas, obviamente tende a ser rejeitada, por indigesta.
Essa recusa ao que não é de fácil consumo, é perceptível facilmente em nossa prática pedagógica. Cada vez mais, os alunos querem as coisas "mastigadas". Recusam-se a ler e a pensar. Para que ler Machado de Assis, se posso ver um filme ou ler um resumo oferecido ao consumo por qualquer cursinho?
Nesse contexto, esquecer a história confunde-se com um programa de vida. Consumir é inevitável, na sociedade em que vivemos. Não é isso que está em questão, e, sim, o abandono de nossa identidade e a disposição de substituir o fazer pelo que está pronto. Consumir não é problema, o problema é deixar-se consumir, embalado pelo canto da sereia. O autor citado resume bem essa preocupação numa advertência incisiva:
"Destruir o passado é o programa de nossa era: apagar a capacidade humana de ser um animal consciente. Isso é muito sério. Não devemos lembrar, só lucrar, trabalhar demais para comprar demais. Nesse processo de erosão da memória coletiva perdemos a consciência. Vi pichado em um muro outro dia: Nascemos para comprar" (3)
As influências do uso das tecnologias modernas da comunicação na nossa percepção do
tempo
A relação entre a tecnologia e a percepção do tempo foi sobejamente analisada por vários autores, entre os quais Pierre Lévy(4). De fato, há diferenças enormes na forma como o tempo é vivenciado nas culturas orais e nas escritas e entre estas, entre as culturas pre-Gutemberg e pos-Gutemberg, pré e pós revolução da informática. Segundo Lévy, o tempo percebido é circular nas culturas orais e tende à linearidade nas culturas escritas, pela possibilidade que esta proporciona da acumulação de informações, além do tempo de vida das pessoas. Na cultura oral, afirma ele, quando morre um sábio desaparece uma biblioteca.
Acredito que o sentido de história não tenha entrado em nossa cultura a partir da escrita, mas, através da intencionalidade da concepção de tempo na cultura judaica. Os judeus, antes de terem escrita, já tinham história, porque acreditavam na identificação do tempo com um plano de salvação desde sempre concebido por Deus. Um plano nada transcendental, de cumprimento no tempo histórico. Entre eles, quando morria um sábio, não desaparecia uma biblioteca, porque o guardião do saber era todo um povo escolhido por Deus. Uma verdadeira "ecologia do conhecimento" viva, em que o saber ia sendo conservado numa constante reinterpretação dada no desenrolar de sua experiência histórica.
Em todo caso, no sentido moderno de história, realmente a biblioteca é fundamental. A fragilidade de nosso sentido de povo torna ainda mais imprescindível a investigação dos documentos. O acesso de nossa consciência pessoal à memória social, não se dá com a mesma familiaridade como nas culturas orais, mas, o passado ganhou distância e só se dá através da investigação racional. Por isso precisamos da biblioteca, seja dos manuscritos antes de Gutemberg, quanto dos livros impressos, quanto hoje da Web, para podermos reconstituir nossos vínculos sociais com o passado. Todos esses mecanismos de acumulação de informações nos permite, evidentemente, uma percepção mais ampla desses nossos vínculos, na medida em que qualquer armazenamento de dados nos possibilita estabelecer vínculos com culturas que nunca estiveram em vínculos diretos com nossa experiência imediata de vida, principalmente numa época em que o mundo ainda não era um só.
Hoje discute-se a necessidade de apelo à escrita para efetivação desse armazenamento. Michael Dertouzos, por exemplo, anotou há alguns anos, a imperfeição da comunicação via Internet, por causa da dependência, ainda, de inúmeras operações e mediações por parte do usuário (5). Na sua opinião, os computadores deverão evoluir no sentido de maior automatização, funcionamento por comandos mais simples. Na mesma linha de raciocínio, o professor Eduardo Chaves, também se refere, de forma bastante clara, à tendência de prioridade do imagético sobre a escrita, na evolução da Internet (6).
Como futuramente não haverá certamente nada que impossibilite outros tipos de armazenamento de dados em grande quantidade, sem necessidade da escrita e como já podemos avaliar, desde já, a influência da TV sobre a visão de mundo de um grande número de pessoas, creio oportuno refletirmos um pouco sobre a influência da comunicação televisiva sobre a nossa vivência do tempo.
Quando alguém se coloca diante de um aparelho televisor, o passado desaparece. Mesmo o passado do segundo anterior à imagem que nela se dá. Qualquer congelamento de imagem ou retrocesso é defeito. Estamos o tempo todo preparados para a imagem posterior, de preferência a uma velocidade crescente. Um minuto de branco no meio de um programa, só não é mais incômodo do que um prego na poltrona. E quanto mais veloz a seqüência de imagens, mais fácil o seu consumo.
Diferentemente da velha TV, o computador permite a interatividade. Não há na comunicação, via Internet, algumas inteligências que produzem a informação e outras que a consomem. A matéria da informação é produzida por inteligências interligadas num ambiente virtual não circunscritível, muito bem definido por P. Lévy como o ciberespaço, onde se dá a ecologia do saber (7). Construindo-se no próprio ato da comunicação, o ciberespaço escapa à possibilidade se situação espacio-temporal. É mais verbo que produz seu próprio ambiente do que substantivo concreto que podemos mirar e dizer "lá está".
Na comunicação via internet, não existem ativos e nem passivos, todos os que se comunicam são ativos. As informações são produzidas na interatividade e o saber reflexo continua sendo produzido pela consciência individual a partir da parcela de dados que consegue metabolizar em sua mente. Assim como na biblioteca tradicional muitos livros guardam à maior parte das pessoas os seus segredos, na internet, a maior parte das informações produzidas são relegadas ao esquecimento pelas consciências individuais. O ciberespaço não tem centro e periferia, mas cada consciência individual não é centro no sentido da totalidade, porque, por mais abrangente que seja, seu enfoque é sempre parcial. A inteligência individual tem um tempo e um limite que a internet não consegue eliminar e nem virtualizar: o tempo e o limite do que chamei de metabolização das informações.
O processo de virtualização do espaço e tempo na formação do ciberespaço merece uma reflexão mais profunda para que possa ser entendida sua influência sobre a constituição do saber.
Há uma diferença bastante considerável da internet em relação às bibliotecas tradicionais: enquanto estas eram depositárias inertes de saberes individuais que não se intercomunicavam, a não ser na consciência do leitor, aquela produz determinados saberes na intercomunicação das informações. Funciona em rede, configurando-se como um único hipertexto. Destaco aqui o saber a respeito do espaço/tempo.
Espaço e tempo podem, a meu ver, ser considerados de duas perspectivas fundamentais: ou pelo exterior dos seres, como distância entre objetos ou fatos onde fica/há quanto tempo aconteceu ou como constituintes dos próprios seres cada ser é uma configuração parcial do espaço e é "parido" pelo tempo. Nesta última, espaço/tempo não são simples coordenadas de localização do objeto ou fato, mas dimensões que explicam o seu modo de ser. Esse ser é, em última análise, espaço que se configura multiformemente no transcurso do tempo, e o faz em conexão com outros seres. A consciência que temos de um objeto ou fato é muito diferente, se considerados isoladamente ou em conexão com outros objetos ou fatos. É por isso, creio, que o saber se constrói numa dinâmica que tende a equilibrar nossas capacidades de análise e síntese: numa análise com pouca síntese, perdemo-nos no meio da floresta e numa síntese com pouca análise, desconhecemos a imensa variedade das espécies e cedemos à tendência de preencher claros cada vez maiores com nossa imaginação. Obviamente, esse equilíbrio não é perfeito, pois nosso trabalho de síntese é sempre feito por saltos: tal como o colibri, sugamos o néctar saltando de uma flor para outra.
Na constituição do ciberespaço, acontece uma destruição do espaço/tempo em sua perspectiva de distância. Não é que o salto se tornou maior. Simplesmente não existem mais saltos, que foram superados pela simultaneidade. O espaço-tempo como distância esfuma-se no virtual.
Considerada a enorme vantagem de acesso quase ilimitado às informações, devemos, por outro lado considerar que o mergulho no ciberespaço carrega o risco da perda da sensibilidade para a seqüência. Num átimo, as distâncias e os séculos desaparecem em nossa consciência como obstáculos à nossa sede de saber, mas, por outro lado, desaparecem também os intervalos reveladores da trama, descaraterizando os objetos e fatos como configurações e transformando o mundo real em uma coleção de seres desconexos. Isso traz conseqüências importantes para o saber geográfico e histórico.
Deixando a Geografia para os geógrafos, restrinjo as minhas considerações à História. Da análise feita por Pomian (8), depreende-se que houve uma verdadeira revolução copernicana na História, iniciada por Marx e concluída brilhantemente por Braudel (9). O núcleo básico dessa revolução foi a descentração do fato como objeto privilegiado da História, em favor do fato contextualizado, ou seja, da trama. Percebe-se, desde então, que os fatos só têm sentido para a História numa interelação com outros fatos num contexto de curta duração (conjuntura) ou longa duração (estrutura). O conceito de estrutura utilizado pelos filósofos estruturalistas numa perspectiva sincrônica, é utilizado por Braudel numa perspectiva diacrônica. Ou seja, os fatos se dão e se explicam por contextos não parados, mas entrecruzados por velocidades diversas. O que se denomina estrutura em História, é simplesmente o que demora muito para mudar.
Se a interelação dos fatos é mais significativa que os próprios, tomados isoladamente, a eliminação dos intervalos de tempo na constituição do saber histórico significa a negação da própria história. Ou, então, a reintronização do fato como objeto privilegiado. E aí, teremos de dar conta do sentido. Os positivistas deram conta produzindo uma história elitista, uma história dos heróis, tidos como tais por incorporarem um ideal de heroísmo tirado de "outras praias", para desenvolver sentimentos de civismo, com objetivos que nada tinham a ver com o interesse da investigação histórica. Se os fatos valiam por si mesmos, quais fatos tinham valor histórico? Só os produzidos pelos heróis e só aqueles cuja importância se media pela distância em relação ao que normalmente fazemos no nosso dia-a-dia, levando-nos a nós, comuns dos mortais, a nos conformarmos com nossa própria insignificância. E nós, o que faremos? Usaremos os fatos como motes para ilustrar teorias a-temporais vinculadas ao que pensamos de nós mesmos e não ao que de fato somos?
Gostaria de frisar que o que está em questão não é o uso dos recursos do computador para o estudo da História. Sua introdução em todos os campos da atividade humana é irreversível e, como disse, inegavelmente vantajosa (10). Mas ele é uma ferramenta poderosa e não o nosso mestre. Temos que conservar nossa lucidez, para poder impor-lhes nossas condições. Em menos de uma hora, posso ir de São Paulo ao Rio de Janeiro, e isso é uma grande vantagem, mas, se eu quiser estudar a flora e a fauna ainda restante na Mata Atlântica, tenho que me valer de métodos não muito diferentes dos bandeirantes que escalaram a "muralha" caminhar, escalar, abrir picadas, etc. Portanto, não podemos confundir progresso com a desaprendizagem dessa atividade realizada por nossos ancestrais, desde o tempo dos hominídeos. Temos que cuidar para não desaprender coisas essenciais, como por exemplo os sentido do tempo que, ao contrário do que aparenta, pode produzir uma visão de mundo composto de elementos em si mesmos isolados, que se juntam multiformemente ao bel-prazer de cada um que se julgue suficientemente iluminado para produzir conhecimentos que a maioria consome prontos.
Há um dono do tempo?
A evolução tecnológica, por si só, é suficiente para explicar as mudanças na percepção do tempo ou estão elas contextualizadas num leque mais amplo de circunstâncias?
Parece-me claro que, se quisermos entender um fato histórico, não podemos descontextualizá-lo e nem reduzí-lo a uma de suas variáveis. Correndo o risco de um certo simplismo, creio poder resumir a resposta à questão proposta, afirmando que, se na explicação das conjunturas, determinadas circunstâncias saltam aos olhos como prevalentes, na constituição das estruturas e dos paradigmas conseqüentes de percepção do tempo, é o conjunto de circunstâncias que concorre para produzir a trama através da qual os fatos adquirem significado. A correta recusa a admitir a necessidade dos fatos históricos não nos autoriza a desistir de sua inteligibilidade. Alguns exemplos históricos pode nos ajudar a entender como se estabelecem as conexões que dão inteligibilidade aos fatos.
A escrita pictográfica parece ter surgido no Egito há cerca de 6.000 anos, em seu lento processo de formação de um Estado tributário, com o escopo de permitir o registro e controle do pagamento dos impostos. Após seu surgimento, outras necessidades foram surgindo e a linguagem foi se modificando para atendê-las. Assim também, a escrita alfabética surgiu com os fenícios, como sabemos, um povo especializado no comércio, para tornar mais ágil e simplificado o registro das transações. A partir daí, principalmente a partir do momento em que o alfabeto fenício foi aperfeiçoado pelos gregos, a escrita serviu para muitas outras coisas, principalmente para nos permitir o acesso a toda a riqueza da cultura clássica. Mas, não haveria talvez nada disso, se os fenícios não tivessem resolvido se libertar da estreita faixa de terra pouco fértil espremida entre o Mediterrâneo e as montanhas do Líbano.
Da mesma forma, o Renascimento, que começou a plasmar o perfil tenológico de nossa cultura, nasceu financiado pelos ricos comerciantes italianos e posteriormente de outras regiões da Europa, que queriam proclamar sua independência política e espiritual em relação à cultura medieval dominada pela Igreja. Esse é o contexto do surgimento da imprensa de Gutemberg. Não foi Gutemberg que pariu o Renascimento e sim o Renascimento que pariu, não só Gutemberg mas todas os aperfeiçoamentos científicos e tecnológicos que permitiram as viagens pelo " Mar Oceano", a partir do século XV. É claro que Gutemberg também ganha asas próprias e se lhe pode creditar, entre outras coisas, todo o sucesso da difusão da Reforma.
Há que se registrar que, nesse processo de contestação da cultura medieval ocorre também uma importante mudança paradigmática na percepção do tempo. Conforme analisou Jacques Le Goff (11), o que ele chamou de "tempo da Igreja" começou a dar lugar ao "tempo dos comerciantes". O tempo medieval era propriedade da Igreja e administrado através dos sinos. Sua divisão, feita nos mosteiros, atendia à necessidade de adequação do tempo de trabalho com o tempo de oração.
A partir da intensificação e universalização do comércio no período do Mercantilismo, as necessidades são outras: o comércio monetário e sua conseqüente necessidade de acumulação de moeda vão dar nascimento aos bancos que, pela cobrança de juros, começam a traduzir o tempo em valor econômico. Esse "tempo dos comerciantes" vai se completar com as mudanças nas relações trabalhistas a partir do século XVII e principalmente no século XVIII, quando o trabalhador passa a ser remunerado, não pelo produto que vende, mas pelo tempo de trabalho diário que dispõe na manufatura e posteriormente na fábrica. Não há mais necessidade de adequação diária entre trabalho e oração. Ao Senhor é reservado só o seu dia o Domingo. E aqui na terra, na proporção em que o artesão se torna operário, o sino vira relógio de ponto. E aí a divisão do tempo tem que ser mais precisa do que os períodos de três horas aproximadas do tempo medieval, já que tempo passa a valer dinheiro e não apenas crédito a ser descontado no tempo do purgatório.
Essa valoração econômica do tempo acaba sendo aceita pelos próprios trabalhadores: como apontou Thompson, na sua história da formação da classe operária inglesa, a reação inicial contra as jornadas longas foi posteriormente negociada com a aceitação do pagamento de horas extras. Ao invés de trabalhar menos, o trabalhador acabou aceitando "ganhar mais", sem perceber que a diferença foi sendo pouco a pouco compensada pela achatamento do seu salário. E o tempo só mudou de dono, descendo do céu para os senhores da terra.
Por ora não tão radical, a meu ver, quanto à mudança do tempo da Igreja para o tempo dos comerciantes, estamos assistindo hoje a nova mudança paradigmática na percepção do tempo, no bojo da evolução tecnológica. É, como vimos, a virtualização do tempo, a sua eliminação enquanto distância, o descarte dos referenciais fixos. Não sei se artesão vai voltar ao palco, mas creio facilmente aceitável que o velho relógio de ponto está sendo aposentado e logo vai para os museus.
Mas, há também um processo de virtualização da moeda e muitas coisas mais das nossas relações diárias. Progresso toma o sentido do encurtamento das distâncias, da eliminação das mediações. Para que? Parece-me claro que para permitir velocidade cada vez maior das transações comerciais. É sintomático que M. Dertouzos tenha chamado de Mercado de Informações (embora "mercado" não tenha, para ele, só o sentido econômico) a produção e troca de informações via internet (12). O contexto da virtualização do tempo é o processo de globalização. Antes da invenção da informática, o mundo dos negócios já se encaminhava para ser um só. As ilhas de espaço e tempo, já vêm sendo eliminadas desde o século passado.
Resta saber se esse processo de globalização acontece espontaneamente ou também tem dono. Não há necessidade de se apelar a uma inconveniente teoria conspiratória para se esclarecer essa questão: o fato de não se acreditar que alguém ou um grupo de pessoas possa conscientemente se reunir e arquitetar a trama dos fios da história a seu favor, não significa necessariamente que devamos renunciar à inteligibilidade dos fatos pelos interesses que dão forma ao tecido. Sem querer alongar-me aqui na discussão desse ponto, creio poder afirmar que esse processo abrangente por definição é contraditoriamente excludente em seu desenvolvimento prático, na medida em que, até agora, continua tentando costurar avanço tecnológico com os mecanismos clássicos de exploração do trabalho. Enquanto continuar essa apropriação setorizada da produtividade acelerada pelas novas tecnologias, o processo continuará produzindo riqueza de um lado e miséria de outro. O trabalhador, filho das 1ª e 2ª Revolução Industrial, negociava salário e horas extras enquanto o da 3ª está negociando oportunidade de trabalho. Não adianta imaginar que a solução está na mudança do lugar da execução do trabalho, no fim da linha de produção, no fim do emprego e sua substituição pelo trabalho autônomo. Enquanto não surgir um mecanismo de democratização da produtividade, não haverá verdadeira revolução e o ócio sonhado pelo Sr. De Masi continuará, para a maioria das pessoas, ou sendo postergado para depois da morte na paz dos cemitérios ou aceito compulsoriamente nesta vida, sem remuneração.
Por outra parte, se o tempo virtual da globalização tem dono, como em outras épocas, ele pode ganhar asas e servir a outros senhores. É como um filho que, muito nossos ao nascer e depois, pouco apouco, vai ganhando personalidade definida. Ninguém lhe nega uma paternidade, mas não se confunde pai e filho. A evolução das tecnologias da comunicação vai criando um domínio público que vale a pena ser irrigado com saudável anarquismo para que floresça em experiência de democracia. A internet será agente, muito mais que o rádio e a televisão, não só porque ficará acessível a cada vez maior número de pessoas, mas sobretudo por ser de mão dupla, por permitir a interatividade. Concordo com P. Lévy que a internet tem tudo para ser a grande "Ágora" do futuro, para tornar-se instrumento poderoso de cidadania. Basta que queiramos ser cidadãos, ou seja, que desatemos os nós que ainda nos confinam ao individualismo e construamos uma visão de mundo como coisa pública e não como possibilidade ilusoriamente inesgotável de apropriação individual.
Conclusão
Voltemos à nossa distinção inicial, do tempo objetivo, no qual os seres se dão à existência, das várias formas de percepção do tempo. Essa distinção está na raiz de dois usos que se faz da palavra "história": como processo e enquanto conhecimento desse processo.
Quando o reforço da idéia de simultaneidade, ou seja, da eliminação da idéia de fluxo no nível do conhecimento leva à negação ou desprezo da história enquanto processo, temos uma visão falseada da realidade. Essa negação da história, na maior parte das vezes, não é claramente expressa, imiscui-se sorrateiramente na nossa visão de mundo e na nossa metodologia de conhecimento: é o mundo visto como coisa acabada, o desprezo do passado, o desejo de uma liberdade descompromissada, a relação iconoclasta com os patrimônios culturais e reservas ambientais, em nome de um anseio de progresso, a identificação da aprendizagem com um processo de aquisição de informações prontas, sem necessidade de pensar; a preterição da leitura pelo consumo imagético e imediato.
Uma proposta pedagógica que recupere o sentido da História não passa pela rejeição das tecnologias modernas de comunicação. O uso do computador criou uma ecologia do conhecimento, fora da qual provavelmente não haverá mais aprendizagem. Não acho que alguém ganha alguma coisa, em termos de aprendizagem, pelo simples fato de desligar o televisor ou proibi-lo aos filhos. Não é deixando de fazer algo, que vamos nos educar e sim recuperando a nossa capacidade crítica que, no caso da História, significa recuperar o sentido do tempo. Isso implica, da parte de professores e alunos, uma reformulação de atitudes, tanto no ambiente da aprendizagem, quanto no das relações de poder.
Em primeiro lugar, uma atitude metodológica de aprender a ler "pelo avesso" para se tomar consciência de como as coisas são feitas e de como as informações são produzidas: aprender não é consumir uma determinada quantidade de informações prontas, mas acompanhar a sua produção. É, de alguma forma, refazer e continuar fazendo. Em suma, é recuperar o fluxo temporal, pensar. A nossa capacidade de leitura, ou seja, de impor o nosso tempo na compreensão do mundo tem que ser recuperada. É preciso desreificar os nossos projetos pedagógicos: muito mais do que pelo volume de informações que o aluno consegue "salvar" em sua memória, o sucesso de um processo de aprendizagem deve ser medido pela capacidade que o aluno consegue desenvolver, de lidar com elas. O saber não se mede em bits, mas por nossa capacidade de resolver novos problemas e de responder a antigas e novas questões que nos inquietam e nos desafiam. E esse "lidar com elas" não significa simplesmente saber utilizá-las para resolver determinados problemas, mas encarar cada uma como problema, vale dizer, jamais renunciar aos "por quês", a questão mais importante em qualquer processo de aprendizagem consciente.
Por último, uma atitude ético-política, no sentido de considerar o mundo em que vivemos, não como um jardim definitiva e atemporalmente plantado para nosso deleite ou vale de lágrimas a que fomos um dia abandonados, mas uma realidade aberta, que se faz no tempo, plasmado unicamente por nossas ações e omissões. Recuperar o sentido do tempo é reconhecer a nossa responsabilidade histórica: nossos alunos têm de ser constantemente convidados a serem nossos parceiros na construção, do conhecimento e do mundo. Não acredito na possibilidade de educar para a cidadania, se a educação não acontecer no exercício da cidadania.
Antonio Carlos Rodrigues de Moraes
Acromo@cps.sol.com.br
Notas:
(*) Professor de História da EE Prof. Coriolano Monteiro e EMEF Dr. Edson Luís Chaves, Campinas/SP
1. Hobsbawm, E., Era dos Extremos (2ª edição), trad. De Marcos Santarrita, Cia. Das Letras, São Paulo, 1998, pg. 13.
2. Amos Oz, entrevista à Folha de São Paulo em 26/12/99.
3. Amos Oz, entrev. citada.
4. Lévy, P., As Tecnologias da Inteligência, trad. de Carlos Irineu da Costa, Ed. 34, São Paulo, 1998, pgs. 87 e segtes.
5. Dertouzos, Michael L., O que será: Como o Novo Mundo da Informação Transformará nossas Vidas, trad. de Celso Nogueira, Cia. das Letras, São Paulo, 1998, pgs. 119 e segtes. "Com certeza não precisamos de computadores que nos obriguem a forçar a mente para ler textos com mensagens. O telégrafo conseguiu a mesma coisa, há mais de um século! No entanto, é exatamente isso que acontece com 95% das atividades nas redes de computadores atuais, apesar dos nomes modernos, como e-mail, newsgroups, bulletin boards e browsers!" (pg.119)
6. Chaves, Eduardo O. C., Tecnologia e Educação: o Futuro da Escola na Sociedade da Informação, Mindware Edit., 1998, Campinas/SP.
7. Lévy, P., op. cit., pg. 137.
8. Pomian, K., A História das Estruturas, in Le Goff, J., A História Nova, trad. de Eduardo Brandão, Martins Fontes Ed., São Paulo, 1990, pgs. 112 e segtes.
9. Le Goff, J., A História Nova, in op. cit., pgs. 52 e segtes.
10. Uma boa análise sobre a influência do computador nos mais variados campos da atividade humana está na obra citada do Prof. Eduardo Chaves, pgs. 7 e segtes.
11. Ariès, Ph., A História das Mentalidades, in Le Goff, op. cit., pgs. 164 e segtes.
12. Dertouzos, M., op. cit. Pg. 30.
BIBLIOGRAFIA
Le Goff, J., A História Nova, trad. de Eduardo Brandão, Martins Fontes, São Paulo, 1990.
Dertouzos, Michael L., O que será: Como o novo mundo da informação transformará nossas vidas, trad. de Celso Nogueira, Cia. das Letras, São Paulo, 1998.
Chaves, Eduardo O.C., Tecnologia e Educação: O futuro da escola na sociedade da informação, Mindware Ed., 1998, Campinas/SP.
Hobsbawm, E., Era dos Extremos: O breve século XX, (2ª ed.), trad. de Marcos Santarrita, Cia. das Letras, São Paulo, 1998.
Lévy, P., As Tecnologias da Inteligência: O futuro do pensamento na era da informática, trad. de Carlos Irineu da Costa, Ed. 34, São Paulo, 1998.
_______, Educação e Cybercultura, in Cybercultura
_______, A Emergência do Cyberspace e as mutações culturais, palestra realizada no Festival Usina de Arte e Cultura, promovido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, outubro de 1994
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