Novas Tendências para o Uso das Tecnologias da Informação na Educação
Maria Candida Moraes (*)
Brasilia, DF.
Fevereiro/98
Introdução
O papel relevante que as novas tecnologias da informação e da comunicação poderão desempenhar no sistema educacional depende de vários fatores. Além de uma infra-estrutura adequada de comunicação, de modelos sistêmicos bem planejados e projetos teoricamente bem formulados, o sucesso de qualquer empreendimento nesta área depende, fundamentalmente, de investimentos significativos que deverão ser feitos na formação de recursos humanos, de decisões políticas apropriadas e oportunas, amparadas por forte desejo e capacidade de realização.
Entretanto, para que possamos combinar esses elementos num modelo de planejamento sistêmico, adequado e exequível, é necessário uma melhor compreensão das diferentes realidades educacionais, da gravidade dos problemas que afetam a educação e suas relações de interdependência com os outros subsistemas, da compreenção dos novos cenários mundiais que estão sendo desenhados e redesenhados pelo processo de globalização. Nesses cenários estão incluídas as novas tendências que vêm afetando a economia, a política, o meio-ambiente, as maneiras de viver e conviver, as formas como as sociedades se organizam, levando-nos a perceber o quanto a área educacional está dissociada do mundo e da vida, o que vem exigindo significativas modificações nos processos de ensino-aprendizagem e nos papéis até então desenpenhados pelas escolas.
O equacionamento adequado da problemática educacional envolvendo a utilização das tecnologias requer, ainda a transposição para a área educacional de princípios, noções, critérios, conceitos e valores decorrentes do novo paradigma científico que coloca em xeque o atual modelo de construção do conhecimento fundamentado em teorias de ensino-aprendizagem apoiadas num movimento intelectual que já está ultrapassado, embora ele ainda continue existindo e persistindo nas políticas governamentais e nas práticas pedagógicas da grande maioria de nossas escolas.
O atual modelo científico decorrente da nova Cosmologia explicada pela Teoria da Relatividade e pela Física Quântica apresenta uma série de implicações importantes nos processos de construção do saber, na maneira como pensamos e compreendemos o mundo e, consequentemente, nas formas de produção, de gestão e de disseminação do conhecimento e das informações. A combinação desses fatores requer a preparação de uma nova agenda educacional, na qual planejadores e executores de projetos educacionais precisam estar mais atentos para que os aspectos finalísticos da educação realmente sejam alcançados.
Dessa forma, para que possamos justificar a necessidade de maior dinamização dos processos de informatização da educação e compreender melhor o papel que as novas tecnologias poderão desempenhar no contexto educacional, precisamos entender com sensibilidade e clareza quais são os traços de universalidade existentes no mundo contemporâneo caracterizadores dos novos cenários mundiais, quais as mudanças que estão ocorrendo na economia, nas organizações e nos serviços, bem como quais são as transformações nos sistemas de produção de conhecimento e de transmissão de informações. Isto porque, sob o nosso ponto de vista, para educar para a Era da Informação ou para a Sociedade do Conhecimento é necessário extrapolar as questões da didática, dos métodos de ensino, dos conteúdos curriculares, para poder encontrar caminhos mais adequados e congruentes com o momento histórico em que estamos vivendo. Todos esses aspectos implicam o repensar da escola, dos processos de ensino-aprendizagem e o redimensionamento do papel que o professor deverá desempenhar na formação do futuro cidadão ou da cidadã do ano 2000.
Novos Cenários Mundiais
Na realidade, estamos vivendo num mundo absolutamente paradoxal dividido em blocos aparentemente estanques de países em situações opostas de bem-estar. Essa polarização entre ricos e pobres pode ser observada claramente num Relatório do Banco Mundial de 1992, citado por Dowbor, que nos informa que em 1990 éramos 5,3 bilhões de habitantes, para um PIB mundial de 22 trilhões de dólares, significando 4200 dólares por habitantes por ano, o que, seria suficiente para manter uma certa dignidade de vida para todos os cidadãos e cidadãs deste planeta. Entretanto, 16 trilhões desses recursos, ou seja, 72 %, ficavam com 800 milhões de habitantes dos países do Norte, representando 15% da população mundial. De acordo com esse autor, temos 3 bilhões de pessoas com um renda média de 350 dólares por ano por pessoa. O cidadão do Norte dispõe, em média, 60 vêzes mais recursos do que 3 bilhões de pobres do planeta.
A Declaração aprovada na Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada em Jomtiem, na Tailândia, em 1990, informa a existência de mais de 100 milhões de crianças que não tem acesso à escola primária, enquanto que o Informe Mundial de Educação da UNESCO referente ao ano de 1993, além de corroborar os dados acima, esclarece que ainda continua existindo uma grande defasagem, em termos de conhecimento, entre os países do Norte e do Sul, especialmente no que se refere à capacidade de assimilar e aplicar a ciência e a tecnologia voltadas para o desenvolvimento em geral. Segundo esse Relatório, os países do Norte ainda dispõem de um maior acervo de informações científicas e melhores condições de realizarem suas próprias aspirações de desenvolvimento, bem como de intervir no processo de interdependência mundial. Representa um mundo desenvolvido onde o volume de informações aumenta vertiginosamente a cada dia, onde a inteligência, a criatividade e o uso intensivo de tecnologia são os fatores tipificadores. Alavancados pelas novas tecnologias, países saíram da obscuridade e encontraram um espaço no primeiro plano mundial num tempo relativamente curto.
Por outro lado, temos a vasta maioria dos países do terceiro mundo, onde a fome, a miséria, a ignorância, a violência, a pobreza, o analfabetismo e a degradação do meio-ambiente se apresentam como os maiores desafios a serem enfrentados e superados. Ao mesmo tempo, os países se engajam numa acirrada guerra tecnológica, industrial, econômica e financeira cada vez mais acentuada e assustadora.
O Informe Mundial de Educação-1993, publicado pela UNESCO, informa que há regiões, como a Ásia Meridional, onde mais da metade da população acima de 15 anos é analfabeta. Esse mesmo documento também mostra que continua existindo uma grande defasagem no nível de conhecimento entre os países do Norte e do Sul, especialmente no que se refere à capacidade para assimilar e aplicar a ciência e a tecnologia voltadas para o desenvolvimento em geral. Os países do Norte ainda dispõem de um maior acervo de informações científicas e melhores condições de realizarem suas próprias aspirações de desenvolvimento, bem como de intervir no processo de interdependência mundial. Para construir a capacitação científica e tecnológica é preciso de mão de obra instruída e capacitada, com possibilidades de atualização constante de conhecimento durante toda a vida produtiva.
No Brasil, apesar das taxas de matrículas terem aumentado significativamente de 67,1% para 96,2 %, sugerindo que o Brasil alcançou o padrão mundial de ensino fundamental, lamentavelmente esses dados não refletem que o mesmo esteja ocorrendo em todas as regiões brasileiras. De acordo com Relatório Nacional do Brasil/MEC/96, a taxa de matrícula passou de 55 % em 1970 para apenas 75% em 1995, mostrando, assim, o tamanho do caminho a ser percorrido e a necessidade de concentração de esforços naquela região. Segundo este Relatório o principal fator responsável pelas baixas taxas de matrículas na região Nordeste é a pobreza, pois apenas 75% das crianças provenientes de famílias pobres estão matriculadas nas escolas.
Embora os dados, de um modo geral, tenham apresentado significativas melhorias em termos de promoção, repetência e evasão, eles ainda estão longe de serem aceitáveis. Em relação à promoção, houve, na última década, uma tendência ascendente que subiu de 55% em 1984, para 62% em 1992, acompanhada de uma queda razoável nas taxas de repetência e evasão, atingindo em 1992, as taxas de 33% e 5% em 1992, de acordo com o mesmo Relatório.
Essas informações mostram que a repetência continua sendo ainda um dos principais problemas do quadro educacional brasileiro, pois o nosso aluno passa em média 5 anos na escola antes de se evadir, levando cerca de 11,2 anos para concluir a 8ª série. De acordo com esses dados, podemos inferir que a nossa sociedade valoriza a educação como instrumento de equalização de oportunidades sociais, como requisito fundamental de integração social e inserção no mundo do trabalho. Entretanto, a grande maioria da população brasileira desiste muito cedo da escola em função do desistímulo causado pela constante repetência e a necessidade prematura de ingressar no mercado informal de trabalho, na luta pela sua sobrevivência. Em termos gerais, na primeira série temos 51% dos alunos promovidos e 44% de alunos repetentes, o que gera um outro problema grave relacionado à distorção idade/série em todas as séries do ensino fundamental, onde mais de 63 % dos alunos do ensino fundamental tem idade superior à sua faixa etária correspondente. A evasão, por sua vez, continua ocorrendo, principalmente, nas séries terminais, ou seja, na 4ª e 8ª séries, quando os alunos são considerados " velhos" em função da acentuada repetência.
O citado Relatório é pródigo em informações capazes de elucidar o triste retrato da situação educacional brasileira. Em relação ao desempenho nas disciplinas de matemática e português o resultado é também desastroso. Hoje sabemos que o aproveitamento nestas disciplinas é condição fundamental para sobrevivência aos novos cenários mundiais que requerem maior agilidade de raciocínio mental e formal, capacidade de comunicação e expressão, cujas habilidades cognitivas só são desenvolvidas a contento na infância e na adolescência.
Para Moraes (1997), os dados nacionais e mundiais sobre educação demonstram que os países, pelo menos parcialmente, não deram a devida prioridade à dimensão humana do desenvolvimento, deixando de oferecer uma educação básica adequada e necessária à sua população. Consequentemente, não podemos obter progressos mais permanentes em relação à paz, aos direitos humanos, ao desenvolvimento sustentável e à democracia, se o papel da educação não for reconhecido como sendo crucial.
O aspecto paradoxal é que ao mesmo tempo em que existem países que já entraram na era da informação, impulsionados pela "indústria do conhecimento", há mais de 100 milhões de crianças e adultos que não conseguem ter acesso às informações, aos conhecimentos mínimos indispensáveis para enfrentar a vida. No momento em que estamos interessados em discutir as novas tendências para o uso das tecnologias na educação atendendo aos apelos dos novos tempos, esses cenários necessitam ser visualizados sem perder a consciência das disparidades cada vez mais intensas existentes em nosso planeta e suas possíveis consequências em relação à segurança econômica, política e social dos países.
Em rápidas pinceladas, podemos afirmar que as transformações que estão ocorrendo no mundo, em rítmo bastante acelerado, trazem consigo novas formas de trabalho, novas maneiras de viver e de conviver e estão influenciando a economia, a política, as formas como as sociedades se organizam, o que vem exigindo respostas mais ágeis, flexíveis e mecanismos cada vez mais interativos e participativos. É um mundo cada vez mais interdependente condicionado pelos avanços técnico-científicos impulsionados pela indústria eletrônica e pelo desenvolvimento das telecomunicações. Há uma interconectividade cada vez maior na sociedade atual e que está sendo multiplicada de forma sem precedentes na história da humanidade, em função da crescente a internacionalização da produção, da globalização das finanças, do "dinheiro virtual", da mudança internacional do trabalho, dos movimentos migratórios do sul para o norte e da competição ambiental. Consequentemente, temos uma mobilidade acelerada e perigosa do capital, a multinacionalização das empresas, a fragmentação das diversas fases do processo produtivo (concepção, pesquisa, desenvolvimento, distribuição e comercialização), o que vem agravando as disparidades existentes entre os paises ricos e pobres, sendo estes ainda estrangulados por dívidas, por processos equivocados de modernização, pela miséria, a fome ea pobreza.
O mesmo processo de globalização que vem gerando novos espaços de convivência, o uso e a partilha de diferentes instrumentos, continua provocando o acirramento das diversidades, das desigualdades e das contradições em escalas nacional e mundial. É um mundo que vem se tornando grande e pequeno, homogêneo e plural, articulado e multiplicado, mediante o uso de recursos de voz, dados, imagens e textos cada vez mais interativos. Os pontos de referência multiplicam-se e se dispersam, dando a impressão que se deslocam, que flutuam nos mais diferentes espaços, dispersando centros decisórios e globalizando-se os problemas sociais, políticos, econômicos e culturais. Em decorrência, novos modelos sócio-culturais e econômicos estão surgindo em função das novas tecnologias de produção, das novas relações de trabalho e da reorganização territorial.
Os fios da teia global são as redes de computadores, as máquinas de fax, os satélites, interligando pessoas, empresas, países, centros decisórios por todo o mundo e que constituem a razão de ser do desenvolvimento capitalista atual. Já não é possível tentar controlar os fluxos de informação, conhecimento e dinheiro através de fronteiras. As tentativas neste sentido vêm mostrando-se inúteis em função das modernas tecnologias e das operações eletrônicas que se movem à velocidade da luz. Há uma nova ordem global moldada pelas telecomunicações e que vem mudando fundamentalmente o modo como as pessoas se relacionam. São as redes que emergem de baixo para cima e que, em princípio, deveriam fortalecer o indivíduo, dando-lhe poder e liberdade. Conectados por computadores, correios eletrônicos, telefones celulares, mensagens via fax, as pessoas comunicam-se umas com as outras independentes dos locais onde se encontram.
Não apenas a escrita, a leitura, a audição e a visão estão sendo cada vez mais capturadas pelos avanços das tecnologias da informação, mas também as capacidades de criação, de imaginação e de aprendizagem. Além da economia, do trabalho, das formas de funcionamento da sociedade, também as atividades cognitivas estão sendo modificadas neste final de século, fazendo com que a técnica e a tecnologia ocupem, hoje, uma posição central, em função da redistribuição do saber que anteriormente estava mais ou menos estabilizado. Há uma nova gestão social do conhecimento a partir do desenvolvimento da informática, uma mudança no seu centro de gravidade, desde o surgimento de novas técnicas de produção, de armazenamento e de processamento das informações.
Mudanças nos sistemas de produção de informações e de conhecimentos implicam diretamente em mudanças nas operações e nos negócios. Hoje, nenhuma empresa pode abrir as suas portas sem um conjunto de informações, dados, linguagem, cultura e know-how a respeito de sua área de atuação e de interesse. É o conhecimento que leva à criação de novos produtos mediante a variação de componentes e o aumento da capacidade de substituição de materiais, sistemas de transporte e de energia, permitindo maior economia de tempo, racionalizando a distribuição e criando novos espaços, o que poderá determinar a diferença entre o lucro e o prejuízo. É o conhecimento que acelera as coisas, que transforma a economia em algo instantâneo, que a faz operar em tempo real e que vem gerando um novo quadro organizacional caracterizado pela flexibilidade decorrente de mudanças rápidas nos produtos, nos métodos e nos procedimentos. Essa flexibilidade decorre da utilização de equipamentos programáveis e informatizados, das possibilidades de maior adaptação aos ajustes necessários em termos de procedimentos e variação dos indivíduos participantes.
Consequentemente, como parte dessa mesma cadeia, alterações profundas e aceleradas estão ocorrendo no mercado de trabalho. Especialistas (Beekmann,1994) afirmam que a maioria dos empregos que existirão nos próximos dez anos, ainda não existe hoje, o que não mais permite que os indivíduos possam ser formados e treinados apenas uma vez durante toda a sua vida profissional. O conhecimento especializado está tendo uma duração média de vida cada vez menor e será, possivelmente, substituído ou complementado por outro, exigindo novos e constantes aperfeiçoamentos e impondo novas qualificações em função de novas necessidades.
Entretanto, não apenas no Brasil, mas na grande maioria dos países americanos, coexistem diferentes ondas de mudanças envolvendo as sociedades, ocasionando os mais diversos tipos de conflitos inerentes a cada onda. Na realidade, coexistem, hoje, civilizações diversas, contrastantes e antagônicas, simbolizadas pela enxada, pela linha de montagem industrial e pelo computador, geradoras de um mundo multifacetado constituído de homens "sem terra", de familias "sem tetos", de mão de obra barata, convivendo com os "internautas". Estes constituem parcelas significativas da população que usufruem de novos métodos informacionais, que criam e exploram novas formas de produzir, armazenar e transmitir o saber, dando origem a novos processos de construção de conhecimentos associados a modelos mais dinâmicos e interativos.
Com a chegada dos computadores está mudando também a maneira de condução das pesquisas, de construção do conhecimento, a forma de planejar e desenvolver equipamentos, protótipos e projetos, implicando em novos métodos de produção que deixam obsoleta a maioria das linhas de montagem industriais.
Na área cognitiva, técnicas e modelos computacionais estão sendo empregados para investigar como o conhecimento é produzido e representado pela mente. No campo da Inteligência Artificial os computadores simulam os processos intelectuais, organizam e hierarquizam as informações criando, assim, novos conhecimentos. A informática e as telecomunicações vêm transformando o mundo humano ao possibilitar novas formas de pensar, trabalhar, viver e conviver no mundo atual, o que modificará significativamente as instituições escolares e inúmeras outras organizações.
O que se percebe é que as transformações organizacionais estão diminuindo o tamanho das empresas, tornando-as cada vez mais especializadas, com mudanças rápidas de suas regras e de suas estruturas internas, o que vem exigindo dos trabalhadores facilidades de adaptação para a realização de novas tarefas. Novos modelos de concorrência estão surgindo baseados em mudanças contínuas de tecnologias, requerendo produtos cada vez mais especializados, tanto nos países mais ricos como naqueles em desenvolvimento. Tudo isso exige maior empenho na busca de uma aprendizagem tecnológica mais acelerada e nos leva a acreditar que o verdadeiro segredo do sucesso dos países em desenvolvimento estará no domínio das possibilidades de crescimento do setor de informações, na informatização crescente da sociedade e na capacidade de coordenação e articulação dos processos de aprendizagem e de desenvolvimento humano associados ao manejo da tecnologia.
E, dessa forma, o que significa educar para uma sociedade em transformação? O que significa educar para uma nova organização econômica e social, para um nova distribuição do trabalho, para uma Era da Informação? Como preparar os indivíduos para responderem aos desafios das novas intrumentações técnicas, para dialogar com a vida, com o seu mundo, com a sua realidade? Como familiarizar os alunos com o uso de modelos científicos nas tarefas escolares, com recursos que colaboram para a expansão da cognição humana, para produção de conhecimentos e seu manejo de forma criativa e crítica?
Todos esses aspectos dependem de como evoluirão as relações entre o Estado e a Sociedade e os esforços que serão dispendidos para o desenvolvimento de uma sociedade mais instruída, melhor capacitada, em função da criação de novos espaços educacionais, da valorização do indivíduo, da primazia do ser individual expressa na afirmação de sua cidadania como um direito fundamental, além do incentivo à autonomia, à criatividade, à solidariedade, ao respeito à liberdade, à iniciativa, à participação e à cooperação, condições fundamentais para que os indivíduos possam sobreviver no século XXI.
Mas, que modelos de construção de conhecimentos deverão ser privilegiados?
Mudanças no Paradigma Científico
Ao lado dos novos cenários mundiais e de suas implicações educacionais, é importante destacar as alterações ocorridas no paradigma da ciência e a relação dialética existente entre o modelo científico e os enfoques epistemológicos presentes nas atividades pedagógicas. Na prática do professor encontra-se subjacente um modelo de educação fundamentado em determinadas teorias e, em decorrência, um certo modelo de escola. O paradigma da ciência que explica a nossa relação com a natureza, com a própria vida, também esclarece a maneira como aprendemos e compreendemos o mundo, e nos dá uma indicação mais precisa de como o indivíduo ensina e constrói o conhecimento.
No início deste século, Einstein descobriu, através de uma simples equação, que massa é energia, que energia possui massa e que não existe uma distinção verdadeira entre energia e matéria, fazendo com que muitos conceitos decorrentes da visão de mundo cartesiana e da mecância newtoniana fossem esfacelados. Com a derrubada da matéria, o mundo passou a ser concebido em termos de movimento, de fluxo de energia e processos de mudanças, revelando assim a natureza dinâmica e criativa da matéria. O universo passou a ser composto de espaço e energia considerados indissociáveis, o que alterou profundamente a estrutura da matéria, criando uma nova ordem material onde orgânico e inorgânico não mais se separam, a partir da compreensão do universo como totalidade indivisível em movimento fluente. É um mundo dinâmico constituído de uma grande teia de relações e de interconexões, com sérias implicações nos sistemas econômicos, políticos, tecnológicos e sociais.
Hoje, sabemos que a Teoria da Relatividade e a Física Quântica constituem as tentativas mais completas para compreender as leis do universo e explicam a nossa relação com a natureza e com a própria vida ao oferecerem uma compreensão radicalmente nova dos vários aspectos de nossa vida diária. Esclarecem também como o indíviduo constrói o conhecimento, as interações energéticas que ocorrem entre o ambiente e o pensamento e, desta forma, resgata a visão de contexto, revelando que os indíviduos são o que são dentro de determinados contextos, podendo e devendo ser compreendidos a partir de suas conexões e de suas relações com a sua realidade contextual. Isso implica em que a educação promova o respeito às diferenças, à diversidade entre os seres, às variações culturais e aos diferentes processos de desenvolvimento humano. Essas teorias explicam também outros aspectos relevantes para o desenvolvimento da educação. Dentre eles a interconectividade dos problemas educacionais, a reintegração do sujeito no processo de construção do conhecimento,sendo este algo que está sempre em processo de vir-a-ser. Ampliaram ainda a nossa compreensão ao esclarecer a existência de teorias transitórias, da criatividade presente nos processos da natureza e sua importância para a evolução da humanidade. Em contrapartida, esses aspectos requerem filosofias educacionais, modelos pedagógicos, teorias e práticas mais compatíveis com este novo modelo da ciência.
De um ser pentasensorial evoluímos para um ser humano multidimensional, não mais limitado pela percepção dos cinco sentidos, onde as intuições, as emoções e os sentimentos passaram também a integrar o processo de construção do conhecimento, permitindo uma compreensão mais clara da própria natureza humana. De uma visão de mundo fragmentada, uma coleção de coisas separadas, o mundo passou a ser compreendido como uma rede de relações, um universo relacional, em constante holomovimento, onde nada é definitivo e tudo é apenas provável. De um conhecimento visto sob uma perspectiva estática, ou seja, de um conhecimento-estado, passamos para a compreensão do conhecimento-processo, o que revolucionou a nossa compreensão a respeito do que significa desenvolvimento individual.
O novo modelo da ciência trouxe também o conceito de auto-organização inerente a todos os seres vivos. Esse conceito decorre da concepção sistêmica da vida e dos processos de realimentação e de auto-regulação existentes na natureza, onde todos os aspectos constituintes estão interligados em rede. Para Capra (1997), o padrão da vida é o conceito de uma rede capaz de auto-organizar-se. É a própria natureza que, por si mesma, produz a ordenação dos fenômenos. Para Prigogine (1996), ela é constituída por estruturas dissipadoras de energia, sistemas abertos considerados complexos organizacionais sem equilíbrio, ou quase sem equilíbrio e que funcionam à margem da estabilidade, cuja evolução explica-se pelas flutuações de energia que em determinados momentos desencadeiam espontâneamente reações que reorganizam todo o sistema num ourto nível.
O processo de auto-organização da natureza implica em autonomia ( Morin,1996) gerada a partir da interação do indivíduo com o meio-ambiente, o que não era possível no paradigma tradicional já que sujeito e objeto estavam separados por uma cortina de ferro intransponível. A autonomia decorre da capacidade de auto-organização existente na natureza, que trabalha para construir e reconstruir sua própria autonomia e nessa operação consome energia proveniente das interações com o meio-ambiente. Para que haja auto-organização é preciso a ocorrência de perturbações, desafios, problemas e turbulências, que estimulem a reação do organismo em relação ao meio-ambiente.
De uma ciência clássica que excluia o pensador de seu próprio pensar, que separava o construtor de sua própria obra, o novo paradigma revelou que essa dicotomia entre sujeito/objeto já não era possível. Com a mecânica quântica aprendemos que o ato de observação altera a natureza do objeto e que não podemos separar sujeito, objeto e o processo de observação. Assim, a ciência atual reintegrou o sujeito no processo de observação científica, a partir da compreensão de que o conhecimento do objeto depende do que ocorre dentro do sujeito, de seus processos internos. Desta forma, cada aprendiz organiza a sua própria experiência e o conhecimento é, portanto, produto de uma relação indissociável entre essas três variáveis.Consequentemente, cada indivíduo aprende de uma maneira que lhe é específica.
Essa nova percepção do mundo e da vida rejeita o princípio da separatividade estabelecido pelo paradigma tradicional capaz de dividir realidades inseparáveis, como sujeito e objeto, mente e corpo, cérebro e espírito, consciente e inconsciente, cérebro direito e esquerdo, indivíduo e seu contexto, o ser humano e o mundo da natureza. Enfatiza o estado de inter-relação e de interdependência essencial a todos os fenômenos físicos, econômicos, biológicos, sócio-culturais e, dentre eles, os psicológicos e educacionais. Tudo está relacionado, conectado e em renovação contínua. O todo é a coisa fundamental. Todas as propriedades fluem de suas relações. O universo é, portanto, relacional.
A visão quântica esclarece que todas as teorias e todos os conceitos estão interconectados, que não há conceitos em hierarquia, o que nos traz a metáfora do conhecimento construído em rede. Redes de informações que pressupõem flexibilidade, plasticidade, interatividade, adaptabilidade, integração, cooperação, parcerias, apoio mútuo e auto-organização. Representa o conhecimento como um conjunto de elementos conectados entre si, um conhecimento de natureza inter e transdisciplinar.
Há outras implicações importantes do novo pensamento científico, mas o momento atual requer maior concentração em outros aspectos para que a nossa construção teórica não fique limitada ou empobrecida em função dos objetivos pretendidos.
E quais as correspondências existentes entre os princípios, critérios e noções decorrentes da Física Quântica e as teorias do conhecimento e da aprendizagem que fundamentam as questões educacionais?
A partir deste novo referencial que explica a complexidade do universo e compreende o mundo físico como uma rede dinâmica e criativa de relações e de interações energéticas, será possível criar novos ambientes de aprendizagem, novas relações entre professor e aluno e uma nova ecologia cognitiva? Quais são as novas pautas em educação decorrentes desse novo modelo científico?
Novas Pautas em Educação
Para que possamos planejar a construção de ambientes de aprendizagem coerentes com as necessidades atuais, é preciso levar em consideração os novos cenários mundiais que sinalizam inúmeras e significativas mudanças, bem como o paradigma científico decorrente da nova cosmologia, cujos princípios influenciam também as questões epistemológicas e, consequentemente, a própria Educação. Todos esses aspectos provocam alterações nos processos de construção do saber, no modo como concebemos a escola, na maneira como pensamos, conhecemos e apreendemos o mundo. Esses princípios também nos alertam para o surgimento de um novo tipo de gestão social do conhecimento, apoiado num modelo que já não é mais lido e interpretado como um texto clássico, mas corrigido e interpretado de forma interativa. Todos esses aspectos requerem uma nova agenda educacional, mais atualizada e coerente com as novas demandas da sociedade. Não podemos mais continuar produzindo uma educação dissociada do mundo e da vida, uma escola morta, fora de sua realidade, que produz seres incompetentes, incapazes de pensar, de construir e reconstruir conhecimento, de realizar descobertas científicas, e que, na verdade, estão impossibilitados de serem contemporâneos deles mesmos.
Uma escola morta, voltada para uma educação do passado, produz indivíduos incapazes de se autoconhecerem como fonte criadora e gestora de sua própria vida, como autores de sua própria história. Incapazes de um pensar mais criativo, de analisar teorias e confrontar hipóteses, de buscar informações onde quer que elas estejam. Todos esses aspectos requerem uma nova agenda educacional.
Para a construção dessas novas pautas identificamos vários aspectos considerados relevantes. Dentre eles, destacamos a importância de perceber que a missão da escola mudou. Em vez de atender a uma massa amorfa de alunos, despersonalizados, é preciso focalizar o indivíduo, aquele sujeito original, singular, diferente e único, específico em seu capital genético e em toda a espécie humana. Um indivíduo dotado de inteligências múltiplas, possuidor de diferentes estilos de aprendizagem e, consequentemente, de diferentes habilidades de resolver problemas. Mas um "sujeito coletivo", inserido numa ecologia cognitiva da qual fazem parte outros humanos, cujo pensamento é influenciado pelos demais integrantes do ambiente, a partir de uma relação contínua existente entre o pensamento e o ambiente em geral, entre o indivíduo e os instrumentos da cultura, aspectos estes inseparáveis de um único processo, cuja análise em partes distintas já não faz mais sentido.
Reconhecemos a importância de focalizar o processo de aprendizagem, mais do que a instrução e a transmissão de conteúdos, lembrando que hoje é mais relevante o como você sabe do que o que e o quanto você sabe. Aprender é saber realizar. Conhecer é compreender as relações, é atribuir significado às coisas, levando em conta não apenas o atual e o explícito, mas também o passado, o possível e o implícito.
Esta nova agenda implica em aprender a aprender que traduz a capacidade de refletir, analisar e tomar consciência do que sabe, dispor-se a mudar os próprios conceitos, buscar novas informações, substituir velhas "verdades" por teorias transitórias, adquirir novos conhecimentos resultantes da rápida evolução da ciência e da tecnologia e de suas influências sobre o desenvolvimento da humanidade.
No paradigma emergente, já não é possível aceitar que o pensamento humano possa ser regido por leis de causa e efeito, determinado por este ou aquele objetivo pré-estabelecido, sem levar em consideração as variáveis envolvidas no processo. Da mesma forma, não podemos partir da existência de certezas e "verdades absolutas", da estabilidade, da previsibilidade, do controle externo e da ordem, como sendo coisas possíveis. Como então trabalhar em educação com conceitos exatos, teorias verdadeiras, disciplinas fragmentadas, objetivos definidos e comportamentos esperados? Como trabalhar uma nova visão curricular coerente com o paradigma emergente?
Um currículo desenvolvido a partir do princípio da auto-organização recursiva, da interatividade, da conexividade, da interdependência existentes entre todos os fenômenos da natureza, não pode ser compreendido e apresentado como um pacote fechado. Um currículo em aberto reconhece a ação do sujeito em interação com os outros, com o meio ambiente, com a cultura e o contexto, constituindo-se um currículo em ação, permanentemente negociado e renegociado com o que acontece nos momentos de ensino-aprendizagem, o que está de acordo com o pensamento de Paulo Freire(1992). Embora possamos partir de referenciais pré-estabelecidos como planos, objetivos mais amplos, o novo currículo não deixa de levar em consideração a ação do sujeito a medida que as ações educativas se estabelecem. É um currículo datado, histórico, situado no tempo e no espaço. É um currículo flexível, que respeita a ação concreta do aprendiz e que está sempre em processo de construção e re-construção mediante um diálogo transformador, baseado nas realidades regionais e locais. É um currículo rico em diálogos, em significados e possibilidades de interpretações. É uma construção onde tudo está inter-relacionado, gerada nos processos de reflexão e de transformação que ocorrem no ato de aprender. É um currículo indeterminado, aberto, eclético, interdisciplinar, que permite que os pensamentos conectem entre si, mostrando as interrelações existentes entre os conhecimentos que estão sendo criados.
Sob esse novo ponto de vista, a educação é vista como um diálogo aberto que se transforma mediante processos de assimilação, acomodação e equilíbrio, processos auto-organizadores que trazem consigo o movimento como uma de suas principais características. Esse movimento é fruto das interações locais traduzidas pelas relações entre educador e educando, educando e seu contexto, escola e comunidade, onde a aprendizagem ocorre mediante processos reflexivos construídos através dos diálogos que os aprendizes mantém consigo mesmo, com os outros, com a cultura e o contexto.
Dessa forma, neste novo contexto educacional, o grande desafio do professor é garantir o movimento, o fluxo de energia, a riqueza do processo. Isso significa a manutenção do diálogo permanente, de acordo com o que acontece em cada momento, propondo situações-problema, desafios, reflexões, estabelecendo conexões entre o conhecimento adquirido e o pretendido, de tal modo que as intervenções sejam adequadas ao estilo do aluno, às suas condições intelectuais e emocionais, e à situação contextual. É ele o responsável pela abertura e garantia do processo educacional, ao dirigir as transformações para que a interação professor-aluno não provoque o seu fechamento, através de uma mecanização da forma de pensar, da apresentação de verdades absolutas ou de caminhos únicos para o desenvolvimento da aprendizagem.
Propomos, ainda, como um dos ítens integrantes dessa nova agenda uma educação centrada no "indivíduo coletivo", que reconhece a importância do outro, a existência de processos coletivos de construção do saber e a relevância de se criar ambientes de aprendizagens que favoreçam o desenvolvimento do conhecimento interdisciplinar, da intuição e da criatividade, para que possamos receber o legado natural de criatividade existente no mundo e oferecer a nossa parcela de contribuição para a evolução da humanidade.
Ao lado desses aspectos, reconhecemos o indivíduo como um hólon, um todo constituído de corpo e mente, sentimento e espírito, dotado de uma dimensão social, que necessita educar-se ao longo da vida, desenvolver-se, não apenas fisicamente, mas, sobretudo, um crescimento interior, qualitativo e multidimensional. É a partir desse crescimento interior, do autoconhecimento, que o indivíduo saberá quem ele é, qual o seu mais alto potencial e as qualidades que possui. Autoconhecendo-se, ele poderá colaborar para a transformação de sua realidade, daquilo que lhe é exterior, compreendendo, inclusive, além de si mesmo, a natureza do outro, condição fundamental para criar um mundo de paz, de alegria e de felicidade. Paz consigo mesmo, com a sociedade e com a natureza, a partir de uma visão ecológica que faz a leitura do mundo em termos de relações e de integrações, que compreende os sistemas naturais inseridos numa totalidade maior, onde a natureza e o EU constituem uma unidade. Esse tipo de compreensão e leitura do mundo provocam profundas mudanças em termos de nossas percepções e valores ao compreender o ser humano como parte de uma grande teia, um ser autônomo, mas, ao mesmo tempo, integrante de totalidades maiores, um fio particular numa teia onde todos estão inseridos.
É a compreensão da existência de uma totalidade indivisível que nos traz uma nova consciência de nosso encaixamento no Cosmo, de nossa relação com a natureza, o que nos leva à compreensão de uma fraternidade e de uma solidariedade mais acentuadas, que nos sinaliza a emergência do espiritual como um dos ítens significativos desta nova agenda. O despertar dessa consciência decorre de uma nova cosmologia que oferece uma visão de um mundo unificado, integrado, yin e yang, dinâmico, holístico, não-hierarquizado, masculino e feminino, espiritual, no qual os fenômenos estão relacionados, vibrando num espaço cheio de energia e vida, onde tudo está em profunda comunhão, mostrando que matéria e espírito já não mais se separam, são partes integrantes de uma Totalidade Indivisível. Essa nova consciência alimenta uma espiritualidade que reconhece a existência de uma Última Realidade, popularmente conhecida como Deus, que habita o coração do universo e que, ao mesmo tempo, está dentro do Sagrado existente em cada um de nós. Espiritualidade como celebração da vida, que apresenta um movimento dialético entre o interior e o exterior envolvendo todos os seres. É uma espiritualidade que nos traz uma visão ecológica na qual o mundo é visto como um santuário digno de nossa reverência e de nosso reconhecimento. Reverência pela vida e por tudo que tem vida. Reconhecimento de sua importância como "locus" para a evolução de todos os seres.
Por outro lado, essa visão ecológica, também, destaca a importância do contexto e da cultura e, ao mesmo tempo, nos mostra "que somos criaturas de nossa cultura, assim como somos criaturas de nosso cérebro" (Gardner, 1994, p.37), reconhecendo os papéis que desempenham no desenvolvimento das inteligências humanas, nas estruturas mentais, na evolução das competências intelectuais e, consequentemente, nos desenvolvimentos individual e grupal.
Essa nova agenda dá origem a uma matriz educacional que vai além da escola à procura de uma escola expandida que amplia os espaços de convivência e de aprendizagem, que quebra as paredes da escola em direção à comunidade, ao mesmo tempo em que sinaliza a importância da superação das barreiras existentes entre escola e comunidade, aluno e professor, escola e escola, país e país. Reconhece a ampliação dos espaços onde trafega o conhecimento e as mudanças no saber ocasionadas pelos avanços das tecnologias da informação e suas diversas possibilidades de associações, o que vem exigindo novas formas de simbolização e de representação do conhecimento, geradoras de novos modos de conhecer, que desenvolvem muito mais a imaginação e a intuição. Esses aspectos exigem que os indivíduos sejam alfabetizados no uso de instrumentos eletrônicos e saibam produzir, utilizar, armazenar e disseminar novas formas de representação do conhecimento utilizando linguagem digital.
Como foi dito anteriormente, com a chegada dos computadores está mudando a maneira de condução das pesquisas, de construção do conhecimento, a natureza das organizações e dos serviços, implicando novos métodos de produção do conhecimento e, principalmente, seu manejo criativo e crítico. Tudo isso nos leva a reforçar a importância das instrumentações eletrônicas e o uso de redes telemáticas na educação, dos novos ambientes de aprendizagem informatizados que possibilitem novas estratégias de ensino-aprendizagem, como instrumentos capazes de aumentar a motivação, a concentração e a autonomia, permitindo ao aluno a manipulação de sua própria representação e a organização do conhecimento. Ambientes que levem em conta as possibilidades de cooperação e de interação entre os sistemas de inteligência natural e artificial e que ofereçam melhores condições de preparação do indivíduo para o novo mundo do trabalho, diminuindo a distância existente entre a escola e a vida, trazendo um pouco mais de vida para dentro da escola.
Finalizando o elenco de sinalizações que não se esgota em si mesmo, mas que nos ampara e encoraja para a construção de uma nova educação, identificamos como um dos grandes desafios da atualidade o oferecimento de uma educação com qualidade, mas uma qualidade com equidade, voltada para a melhoria do processo de aprendizagem, capaz de garantir equidade educacional nos diversos pontos de chegada, visando igualdade de oportunidades e de tratamentos.
Todos esses aspectos constantes das novas pautas influenciam sensivelmente a qualidade da educação e, consequentemente, a qualidade de vida no planeta. Um povo educado apresenta um grau de consciência superior, traduzido em seus comportamentos e em suas relações consigo mesmo, com os outros e com a própria natureza. É através da mudanças de valores e da construção de uma nova ética que encontraremos mais facilmente os caminhos da sobrevivência, da compaixão e da solidariedade neste mundo.
Razões Que Justificam a Dinamização do Processo de Informatização da Educação nas Américas
Considerando a gravidade da situação educacional, ecológica, econômica e social do planeta, acreditamos que todos esses aspectos caracterizadores tanto dos novos cenários mundiais quanto do novo paradigma científico associados a necessidade de desenvolvimento de novas pautas em educação, requerem uma conscientização mais profunda e o compromisso de nossos governantes traduzidos em ações integradas e emergenciais, em especial, envolvendo as áreas de educação, ciência e tecnologia e meio-ambiente. O momento atual exige a criação de alternativas capazes de mobilizarem todo o Hemisfério Americano para enfrentar o grave problema relacionado ao despreparo de nossa população diante dos desafios que já estão presentes nesta aurora do século XXI. É necessário despertar a consciência da sociedade para a gravidade dos problemas existentes no mundo e a importância da adoção de medidas enérgicas em busca de suas soluções. Precisamos recuperar o atraso provocado pela falta de visão política e de consciência por parte daqueles que nos antecederam e que, por desconhecimento, insensibilidade ou interesses próprios, retardaram o desenvolvimento educacional e, consequentemente, o desenvolvimento sócio-econômico e cultural desta Região, causando sensíveis danos às gerações presentes e futuras.
A partir de uma concepção sistêmica da evolução do mundo e da vida, do papel da educação numa visão contextual mais complexa e mais ampla, não podemos justificar a adoção das novas tecnologias da educação pensando apenas nas questões voltadas para o processo de ensino- aprendizagem, no que acontece nos ambientes escolares, nem nos sistemas de tratamento da informação. As justificativas envolvem dimensões mais amplas relacionadas à formação do cidadão e da cidadã para viverem num novo milênio, ao estabelecimento de uma nova ordem ética diferente da atual e à intensificação dos processos de produção do conhecimento, como condições essenciais para o desenvolvimento humano, no qual também está incluída a noção de desenvolvimento sustentável. Desta forma, no elenco de possibilidades existentes, podemos destacar como justificativas importantes ao processo de informatização da Educação nas Américas, os seguintes aspectos:
- A necessidade urgente e imprescindível de democratizar o acesso à informação como condição necessária ao desenvolvimento de um Estado democrático. Jamais chegaremos à uma sociedade desenvolvida se os códigos instrumentais e as operações em redes se mantiverem nas mãos de poucos iniciados. É uma questão de sobrevivência de nossa sociedade que a maioria dos indivíduos saiba operar com as novas tecnologias da informação, resolver problemas, tomar iniciativas, se comunicar, usar o computador como prótese da inteligência e prolongamento da mão, como ferramenta de produção do conhecimento, investigação, comunicação, construção, representação, verificação, análise e divulgação do conhecimento.
A importância educacional das instrumentações eletrônicas não está somente dentro da sala de aula, como instrumentos capazes de construírem o conhecimento científico nas mais diversas áreas, como ferramentas que possibilitam a introdução de modelos científicos nos ambientes escolares e a criação de um novo ambiente pedagógico marcado pela qualidade do processo educacional como garantia da qualidade do produto. Sua importância está, sobretudo, em suas aplicações fora das salas de aulas, na antecipação dos problemas do cotidiano, na preparação dos indivíduos para incorporação das mudanças, para um pensar mais criativo e científico em suas vidas, para a horizontalidade dos processos de comunicação interpessoais, para o desenvolvimento de novas parcerias e mudanças de valores.
- A necessidade de um reposicionamento da educação diante dos novos padrões de produtividade, de competitividade e de cooperação decorrentes dos avanços científicos e tecnológicos e a compreensão de que o conhecimento é a matéria prima das economias modernas. Ao lado de uma sólida formação básica, é preciso desenvolver novos hábitos intelectuais de simbolização, de formalização do conhecimento, de manejo de signos e de representações, além de preparar o indivíduo para uma nova gestão social do conhecimento, apoiado num modelo digital explorado de forma interativa, e que vem sendo requerido pelo novo cenário cibernético, informático e informacional.
- As possibilidades que estão sendo abertas para os processos de educação à distância e de educação continuada, cujos limites ainda não são plenamente conhecidos, mas que influenciarão profundamente o trabalho nas escolas, liberando o indivíduo das restrições temporais e espaciais e promovendo uma aprendizagem cooperativa, capaz de preparar o profissional para uma nova abordagem de trabalho em equipe.
- A necessidade urgente de utilizar as novas tecnologias para catalizar os processos de desenvolvimento humano. A questão fundamental, hoje, está em como a educação poderá colaborar para promover a evolução humana. Estamos vivendo numa época onde prevalece o poder do indivíduo e da sociedade sobre a força bruta, sobre a acumulação de recursos físicos e bens materiais apoiado em pseudo-valores sócio-econômicos e técnicos que já estão obsoletos. O poder atual está no acesso e no domínio de informações e na capacidade de produzir conhecimentos, o que, em última instância, indica que ele está sendo transferido para o indivíduo. Está na teia de relações representadas pelo conjunto de informações e conhecimentos que o indivíduo possui, por sua capacidade de imaginação, de intuição, de criatividade, em busca de soluções aos problemas. O poder está, portanto, nas relações inter, intra e transpessoais e que vão muito mais além da questão tecnológica e informacional, em direção ao desenvolvimento da compreensão, da busca da autoridade interior, da integração da humanidade, da responsabilidade social e planetária, envolvendo, inclusive, a cooperação entre seres viventes e não-viventes já que no mundo nada mais está separado. E o que diferencia o ser humano, segundo Teilhard de Chardin (1989) e Edgar Morin (1987), é a sua capacidade de reflexão. Isto requer a colaboração desses novos instrumentos para o desenvolvimento de uma pedagogia reflexiva.
- A importância de utilizar toda a potencialidade das novas tecnologias para a construção de uma nova ética voltada para o desenvolvimento sustentável, o que, de certa forma, está implícito na questão do desenvolvimento humano. As possibilidades do desenvolvimento sustentável dependem do grau de evolução do ser humano,do nível educacional da população, das expressões culturais, da maior ou menor capacidade de acessar informações e de produzir conhecimentos relevantes. Isso, também, pressupõe a capacidade de saber utilizar os recursos físicos e naturais por parte de cada indivíduo. Quanto maior a capacidade de reflexão indivídual, maior será sua capacidade de resolução de problemas, de conflitos,o que permitirá uma melhor compreensão da evolução do seu pensamento, da sua inteligência e da sua consciência. A consciência coletiva de um povo se expressa através de valores e de padrões de comportamentos compartilhados. Quanto maior a compreensão das relações de interdependência existentes entre o indivíduo e o seu meio-ambiente, maiores serão as possibilidades de desenvolvimento sustentável, traduzido pelas ações concretas em prol do ambiente e da melhoria da qualidade de vida individual e coletiva.
- Além de todos esses aspectos, é preciso formar os indivíduos para uma nova cidadania, para que ele possa ser capaz de participar efetivamente da vida social e política, assumindo tarefas e responsabilidades. Mas um cidadão ou cidadã que saiba se comunicar nos mais diferentes níveis, dialogar num mundo interativo e interdependente, impregnado dos instrumentos de sua cultura, utilizando-os para sua emancipação, transformação, libertação e transcendência. Acreditamos que caberá a educação desenvolver competências fundamentais no sentido de capacitá-lo para assumir o comando da própria vida, para uma participação mais direta, efetiva e responsável na vida em sociedade. Educá-lo para que seja membro de uma cultura moderna, capaz de integrar um sistema produtivo fazendo uso dos insumos e produzindo em harmonia com o seu meio natural e social. Educá-la para que seja uma consumidora consciente, capaz de tomar posse das informações produzidas no mundo e que afetam a sua vida como cidadã.
Dominar a própria linguagem significa também saber questionar, discutir, expressar dúvidas, ser capaz de compreender a realidade da forma como ela se apresenta, participando como um ser criativo e crítico, capaz de manejar e expressar o conhecimento usando os códigos de diferentes linguagens. Numa sociedade de informações as habilidades de comunicar e negociar são condições de sobrevivência, pois o trabalho atual solicita, mais do que nunca, uma interação entre as pessoas e entre pessoas e máquinas. Requer, também, capacidade de resolver problemas, de síntese, de tomada de decisões, bem como a habilidade de gerar conhecimento novo ao longo da vida, levá-lo a aprender a aprender, a aprender a pensar.
- Na realidade, é preciso preparar o indivíduo para a viver e conviver na Era das Relações (Harman, 1996) caracterizada pela grande teia de relações e conexões decorrentes da nova cosmologia que explica a totalidade indivisível e o movimento provocado pelas interações energéticas que regem os fenômenos da natureza. Vivemos, hoje, numa Era Relacional que indica uma nova fase de evolução da humanidade caracterizada pela predominância das mais diferentes formas de comunicação, envolvendo não apenas os sistemas eco-tecnológicos, mas também os sistemas inter e intra e transpessoais, cujas explicações vêm sendo dadas pela própria Física Quântica ao esclarecer o funcionamento do pensamento individual e coletivo e sua relação com o ambiente ( Bohm, 1994).
Preparar o indivíduo para viver numa Era Relacional significa capacitá-lo para viver numa sociedade pluralista em permanente processo de transformação. Pressupõe, dentre outros aspectos, sua preparação para o uso de redes de interfaces, de onde fluem informações que permitem a construção de conhecimentos, o desenvolvimento do pensamento e a criação de novos ambientes de aprendizagem que possibilitem uma nova relação com a cognição humana, uma nova dinâmica na construção do conhecimento. Implica a adoção de um novo enfoque que leve em conta a interatividade existente entre as coisas do cérebro e os instrumentos oferecidos pela cultura (Moraes, 1997).
Entretanto, um dos grandes problemas da educação atual é que as escolas têm dificuldades para ajudar seus alunos a aprenderem a pensar e aprenderem a aprender através do estabelecimento de relações e conexões, mesmo sem utilizar as novas tecnologias informacionais. Com o surgimento desses novos instrumentos as coisas se complicam ainda mais. Isto porque temos dificuldades de questionar os arcaicos processos de construção do conhecimento, de aceitar e propor modificações nas estruturas escolares, de expandir a escola, de superar as barreiras existentes entre aluno e professor, escola e comunidade, escola e escola. Todos esses aspectos requerem a diversificação dos espaços do conhecimento, dos processos, das metodologias, pressupondo a expansão da escola em direção à comunidade, a aceleração de todos esses processos para que possamos resgatar milhares de crianças e adolescentes impedidos de se posicionarem diante da vida como seres históricos, datados e situados no tempo e no espaço, como indivíduos capazes de construírem a sua própria identidade, de crescerem e aprenderem ao longo da vida.
As Novas Tecnologias da Informação e os Aspectos Finalísticos da Educação
Diante de todo este referencial, qual é o papel das novas tecnologias da informação e da comunicação junto ao sistema educacional?
Esses instrumentos, com suas características e peculiaridades próprias, podem colaborar para promover mudanças significativas na educação. Pesquisas realizadas no Brasil por Valente ( 1993, 1996), Fagundes (1993), Santarosa et alii (1995), dentre outros, afirmam que os computadores são ferramentas capazes de promover diferentes níveis de reflexão, de aumentar a motivação, a atuação autônoma e a concentração do educando, permitindo que cada aluno descubra que pode manipular a própria representação do conhecimento e aprenda a fazê-lo. São instrumentos capazes de provocarem mudanças de atitudes diante do "erro", percebido como parte integrante do processo humano de descobrir, compreender e conhecer. Isso pressupõe a criação de novos ambientes de aprendizagem geradores de novas formas e oportunidades de aprender usando os recursos informáticos e telemáticos.
Como educadores sabemos que é possível caminhar em direção à uma mudança no paradigma educacional vigente, usando determinadas linguagens de programação que colaboram para o desenvolvimento de processos metacognitivos( Valente,1996; Fagundes, 1993, Bustamente,1992). Isso supõe mudanças nas práticas pedagógicas mediante a construção de ambientes de aprendizagem informatizados onde o computador estabelece um diálogo horizontal que permite o estabelecimento de trocas simbólicas com o sujeito. A partir das interações professor-computador-aluno é possível testar, verificar e manipular a própria representação do conhecimento e a organização do raciocínio, o que leva o aluno a pensar e a aprender a aprender.
Dessa forma, que aspectos deverão ser priorizados no desenvolvimento de programas e projetos envolvendo o uso das novas tecnologias na educação?
A) Desenvolvimento Humano
Se a ênfase do processo educacional está no indivíduo, no "sujeito coletivo", na aprendizagem, na construção do conhecimento, no desenvolvimento da compreensão, na necessidade de construção e reconstrução do homem e do mundo, então a educação, usando ou não as novas instrumentações eletrônicas, deverá estar voltada para o desenvolvimento humano como fator mais importante neste momento de transição, como argamassa principal de um processo de transformação que não significa apenas uma grande mudança, mas, sim, uma transformação radical que afetará cada um de nós e as próximas gerações. Isto porque sabemos que as nossas decisões pessoais, as nossas escolhas nossos pensamentos e ações, afetam, não apenas o comportamento de cada um, mas, também, o comportamento dos indivíduos que interagem conosco. E a curto, médio e longo prazos, nossos padrões comportamentais poderão também interferir nos ambientes em que vivemos, na evolução da espécie humana e da própria vida no planeta.
Para Teilhard de Chardin,"o desenvolvimento humano depende de nossa capacidade de reflexão, do aprimoramento das habilidades de pensar e saber, o que significaria saber que se sabe. É aquele ser que pensa, que sabe o que quer, que escolhe e decide a sua experiência diante das possibilidades que se apresentam. É o ser que constrói a sua própria identidade, a partir de sua liberdade e autonomia para tornar-se sujeito"(Moraes, 1997, p.212).
Capacidade reflexiva, para Chardin "indica o poder de consciência de se dobrar sobre si mesmo, de tomar posse de si mesmo como um objeto, dotado de sua própria consistência e de seu próprio valor: não apenas para conhecer, mas para conhecer-se, não apenas para saber, mas saber que se sabe"(1989, p.186). Reflexão significaria a tomada de consciência de seu próprio pensamento em vista de uma ação livre, cada vez mais adaptada. É meditação examinadora e comparativa, a capacidade que permite ao ser humano e somente a ele, perceber-se a si próprio como chave para a compreensão, como centro de perspectiva do Real, onde ele ocupa um lugar decisivo e estruturante desse Real, a partir de seu saber e do seu fazer, chegando assim à Ação.
De acordo com Moraes (1997), uma nova educação para a Era das Relações requer que a inteligência, a consciência e o pensamento, assim como o conhecimento, sejam vistos como estando em processo, em continuidade, e que o produto resultante de cada uma dessas atividades nunca estará completamente pronto e acabado, mas num movimento permanente de "vir a ser", assim como o movimento das marés constituído de ondas de reflexão que se desdobram em ações, e que se dobram e se concretizam em novos processos de reflexão sobre as ações desenvolvidas. É um movimento recursivo de reflexão na ação e de reflexão sobre a ação. Requer a reflexão crítica sobre a práxis histórica.
E até que ponto podemos utilizar as novas tecnologias para o desenvolvimento da capacidade de reflexão? Pesquisas desenvolvidas no Brasil e no Exterior, de acordo com Valente (1996) e Fagundes (1993), informam que as novas tecnologias poderão colaborar para a ocorrência de processos reflexivos na prática pedagógica, já que o computador é uma ferramenta que propicia o "pensar com" e o "pensar sobre o pensar". A atividade reflexiva do sujeito favorece a evolução do pensamento, o desenvolvimento das inteligências e a evolução da consciência, segundo Morin (1987).
B) Desenvolvimento Sustentável
O enfoque da aprendizagem e do conhecimento voltado para o desenvolvimento humano envolve, além da dimensão instrumental, também novos valores, noções de ética e de responsabilidades individual e coletiva. Isso implica o desenvolvimento de novos ambientes de aprendizagem informatizados capazes de reestabelecerem o equilíbrio entre a formação humana e a tecnológica, para que o indivíduo possa viver e sobreviver num mundo cada vez mais tecnológico e digital e, ao mesmo tempo, preocupado com a melhoria da qualidade de vida no planeta. Um ambiente que possibilite uma prática pedagógica reflexiva a partir da ação do sujeito sobre o objeto e da repercussão dessa ação sobre si mesmo.
Essa visão educacional mais ampla pretende que os processos de construção do conhecimento desenvolvam a compreensão das interações ecológicas existentes entre os diferentes organismos vivos, incluindo a noção importante e fundamental de desenvolvimento sustentável, considerado, hoje, valor universal. Requer que pensemos nas potencialidades das inovações tecnológicas no sentido de criar uma nova consciência que leve os indivíduos a neutralizarem os efeitos negativos da tecnologia sobre o meio ambiente, criando uma cultura em que o progresso técnico seja compatível com a preservação ambiental e a cooperação internacional.
C) Aprendizagem e Conhecimento Visando a Criação de uma Nova Ecologia Cognitiva
A ênfase deverá estar na aprendizagem, na apropriação ativa da informação pelo indivíduo e não na transmissão da informação e nos processos de memorização. As informações que não são processadas são facilmente esquecidas. É o aprendiz que programa, que escolhe os comandos necessários, que organiza a relação entre eles, que ordena os procedimentos, que reflete sobre os seus "erros" e manipula as representações simbólicas. Ao desenvolver essas atividades, ao organizar a sua própria experiência de aprendizagem, a sua capacidade de construção e re-construção do conhecimento, é que o sujeito conquista a sua autonomia e assume o comando de sua própria vida.
O problema da aprendizagem implica o problema do conhecimento.No caso do computador, o conhecimento é construído através do diálogo com a máquina intermediado por uma linguagem de programação. Esta, por sua vez, deverá colaborar para a compreensão da gênese do conhecimento no aprendiz ao esclarecer o funcionamento de sua mente, para o aumento da possibilidade de retenção do aprendido e para o desenvolvimento da autonomia. Um ambiente de aprendizagem informatizado requer uma nova pedagogia que não poderá se contentar em ser mera transmissora de conteúdos e de informações. Requer uma nova ecologia cognitiva, traduzida em novas relações que se estabelecem na construção do conhecimento.
O que significa uma nova ecologia cognitiva ? A palavra ecologia nos indica a existência de relações, interações, diálogos entre diferentes organismos, viventes ou não viventes, indicando-nos que tudo que existe, coexiste e que nada existe fora de suas conexões, de suas relações. Ela nos traz a idéia de um dinamismo intrínseco existentes entre os seres e as coisas, envolvendo, não apenas a natureza, mas a cultura e a sociedade. A palavra cognitiva indica sua relação com a cognição, com o conhecimento. Portanto, uma nova ecologia cognitiva indica uma nova relação com a cognição, com o conhecimento, uma nova dinâmica na construção do conhecimento, novas capacidades de adaptação e de equilíbrio dinâmico nos processos de construção do saber, um novo interjogo entre sujeito e objeto, a adoção de um novo enfoque mostrando a interatividade existente entre as coisas do cérebro e os instrumentos oferecidos pela cultura.
O conceito de Ecologia Cognitiva foi apresentado por Pierre Lévy (1994), para quem a inteligência ou a cognição, seja ela individual ou social, resulta de redes complexas de interações entre atores humanos, biológicos e técnicos. O sujeito inteligente seria um micro-ator de uma ecologia cognitiva constituída de dimensões técnicas e coletivas da cognição que o engloba e o restringe. Para o autor "o pensamento se dá numa rede na qual neurônios, modelos cognitivos, sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam, transformando e traduzindo as representações" ( Lévy, 1994, p. 169).
Uma nova ecologia cognitiva proporcionada por ambientes adequadamente informatizados, onde o professor não é a única fonte de informação, pressupõe um ambiente enriquecido de códigos simbólicos, de representações por imagens, sons e movimentos, disponíveis para que os alunos possam interagir com eles, formular e testar hipóteses, estabelecer relações, produzir simulações rápidas e fáceis, construir conhecimentos que tenham correspondências com a sua forma de pensar e compreender os fenômenos e os fatos da vida. Nesses ambientes poderemos partir de problemas, atividades e projetos contextualizados e individuais, vivenciar interações sociais mais ricas e que também se constituem em novas fontes de informações.
Disto decorre a nossa preocupação para que o computador não seja programado para repetir o livro didático ou o velho ensino, que simplificam e reduzem a potencialidade desses instrumentos em função do espaço reduzido de informações que os livros dispõem, o que contrasta com a riqueza dos banco de dados, ricos em imagens, cores e sons, oferecidos pelas novas tecnologias da informação.
Além dos aspectos anteriores, o computador visto como instrumento para a criação de uma nova ecologia cognitiva, de um novo ambiente de aprendizagem, deverá também colaborar para a mobilização dos recursos internos do indivíduo - emocionais,afetivos, cognitivos, estéticos, éticos, etc., facilitando o interjogo desses recursos com os tipos de atividades a serem desenvolvidas, com os objetos do ambiente e com as interações com outras pessoas. Permite, também, mudar os limites entre o concreto e o formal, constituindo-se num instrumento de aceleração da aprendizagem ao facilitar a compreensão de conceitos difíceis de serem visualizados sem essas ferramentas.
A presença adequada do computador na escola-pública poderá representar um enriquecimento para aprendizagem do aluno e o atendimento às suas necessidades, independente de sua situação sócio-econômica e isto é o que faz justiça social, ou seja, o oferecimento de ambientes ricos em materiais de aprendizagem capazes de estimular o envolvimento e maior compromisso com a educação que lhe está sendo oferecida.
D) Redução das Desigualdades Sociais
Uma educação básica de boa qualidade continua sendo a condição mais relevante para a evolução social. É um requisito mínimo de decência social. Tanto no Brasil como em qualquer parte do mundo as condições educacionais da população tem sérias implicações nas taxas de produtividade, no desenvolvimento econômico, na melhoria das condições de vida, na construção de uma cidadania mais participativa.
Para tanto, a educação, usando ou não computador, deverá estar voltada para a diminuição da seletividade dos sistemas educacionais, oferecendo uma sólida educação básica universalizada, melhoria na qualidade do ensino e diminuição das taxas de repetência e evasão, condição fundamental para a redução das desigualdades sociais ocasionadas pelas elevadas taxas de repetência, de evasão e analfabetismo, associadas às dificuldades de aprendizagens nas áreas de ciências, matemática e português. A baixa qualidade do ensino básico tem sido reforçadora das desigualdades sociais em qualquer parte do mundo. No Brasil, a repetência continua sendo o maior vilão responsável pelo fracasso escolar. Depois de várias repetências, o aluno, desanimado e desestimulado, abandona a escola. E até que ponto o uso dessas novas ferramentas poderão contribuir para o encaminhamento de soluções a esses problemas?
Pesquisas desenvolvidas no Brasil e no Exterior (Carraher,1996; Carraher & Schliemann, 1992; Valentini, 1995; Spauding & Lake,1992; Santarosa, 1995; dentre outros) informam que escolas que utilizam computadores no processo de ensino-aprendizagem apresentam melhorias nas condições de estruturação do pensamento do aluno com dificuldades de aprendizagem, compreensão e retenção. Colaboram, também, para melhor aprendizagem de conceitos matemáticos já que o computador pode constituir-se num bom gerenciador de atividades intelectuais, desenvolver a compreensão de conceitos matemáticos, promover o contexto simbólico capaz de desenvolver o raciocínio sobre idéias matemáticas abstratas, além de tornar a criança mais consciente dos componentes superiores do processo de escrita.
E) Educação Baseada Na Prática Pedagógica Reflexiva
Uma educação compreendida como um processo transformacional e dialógico, fundamentado nos processos interativos que representam as transações locais, traduzidas pelas relações entre educador e educando, educando e seu contexto, escola e comunidade, implica o desenvolvimento da aprendizagem baseada em processos de reflexão na ação e reflexão sobre a ação, que podem ser representados pelo ciclo: descrição-execução-reflexão-depuração. Hoje, sabemos que os recursos informáticos e telemáticos podem facilitar a ocorrência desse ciclo e gerar novos ambientes de aprendizagem, envolvendo mentes humanas, redes de armazenamento, transformação, produção e disseminação de informações e conhecimentos(Valente, 1994).
Ao programar computadores, temos um sujeito que, com os seus recursos cognitivos, afetivos, emocionais, estéticos e éticos, dialoga com a máquina usando uma linguagem artificial. Nessa interação ocorre uma sinergia onde ambos se interpenetram, a partir da exploração, da testagem e das transformações das várias formas de organização simbólica. Programar significa representar simbolicamente os passos necessários à solução de determinado problema e envolve, segundo Almeida (1996), a criação de estratégias que fazem a ligação entre os conhecimentos adquiridos e os pretendidos. Pressupõe, também, a aplicação dessas estratégias na descrição de ações que envolvem a solução de determinado problema, ao mesmo tempo em que envolve a execução do problema e a análise do resultado obtido. Isso requer processos reflexivos para compreensão das estratégias adotadas, dos "erros" cometidos, o que permite ao indivíduo depurar todo o processo de construção do conhecimento, desenvolver novas estratégias e promover alterações no produto realizado até chegar à sua formalização.
F) Inovação e Criatividade
O cerne do novo paradigma científico decorrente da visão quântica são os processos criativos que ocorrem no mundo fenomênico. A criatividade é uma característica inerente à natureza humana, embora reconheçamos que a educação atual venha inibindo esses processos. Uma educação voltada para a produção de novas idéias e novos conhecimentos requer a ocorrência de processos intuitivos e criativos. A criatividade e a capacidade de inovação evidenciam o potencial do indivíduo para mudar, para crescer e aprender ao longo da vida. As capacidades de criar e inovar permitem organizar e reorganizar experiências ao longo da vida, recombinando-as para constituírem um novo repertório existencial do indivíduo. A ampliação de oportunidades de ocorrência de processos criativos e inovadores facilita a compreensão das mudanças, tando no nível individual quanto coletivo.
G) Autonomia, Cooperação e Criticidade
Na realidade, um mundo em permanente evolução requer que o indivíduo aprenda a conviver com as incertezas, com os desafios, com a transitoriedade, com o incerto, com o imprevisto e com o novo. Como preparar o indivíduo para viver na mudança e não querer apenas controlá-la? Isso requer ambientes de aprendizagem que desenvolvam a autonomia, a cooperacão, a criticidade, além de muita criatividade e capacidade inovadora.
Autonomia pressupõe uma metodologia do aprender a aprender, do aprender a pensar, a partir das construções do sujeito que descobre por si mesmo, que inventa sem ajuda de terceiros, que se auto-organiza, reestrutura, reequilibra suas atividades, incorporando o novo em suas estruturas mentais, auto-organizando suas atividades motoras, verbais e mentais.
Para tanto, o aprendiz necessita aprender a pesquisar, a dominar as diferentes formas de acesso às informações, a desenvolver capacidade crítica de avaliar, de reunir e organizar informações mais relevantes. Criticidade implica em ter condição de análise, de síntese, de reflexão, de isenção e de reconhecimento de seus próprios saberes.
Pesquisas realizadas no Brasil, em 1991 e 1992, pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, durante a gestão do professor Paulo Freire, indicaram que as escolas que utilizavam o computador nas atividades curriculares apresentaram melhorias nas condições de estruturação do pensamento do aluno com dificuldades de aprendizagem, de compreensão e retenção, bem como um melhor desempenho na comunicação entre alunos e professores,e maior interação nas aulas e estimulação da fala, da audição e da linguagem. Os alunos tornaram-se mais assíduos, ativos, participantes, independentes, entusiasmados, interagindo melhor em grupo, promovendo, inclusive, maior envolvimento da comunidade escolar.
H) Educação Continuada
Uma sociedade instruída pressupõe capacidade de aprendizagem contínua. Já estamos vivendo numa sociedade que requer segundas e terceiras profissões. Portanto, a evolução do conhecimento, da técnica e da tecnologia pressupõe que as pessoas voltem às escolas, que as instituições empregadoras proporcionem educação aos seus membros e que os indivíduos tenham acesso às informações onde quer que elas estejam.
A formação continuada supõe a autonomia do indivíduo na construção e reconstrução do conhecimento e na responsabilidade sobre suas aplicações. Requer capacidade de reflexão, de interação social e a necessidade de buscar as informações que lhes faltam.
Barros (1995), ao desenvolver um Sistema de Apoio à Aprendizagem Cooperativa Distribuída - ARCOO, informa que a tecnologia em rede possibilitou a formulação de novas estratégias de formação continuada de adultos - aprendizagem cooperativa em ambientes distribuídos, onde a aprendizagem individual decorre das interações entre os pares. Com o desenvolvimento desse sistema de hipermídia cooperativo foi possível desenvolver encontros virtuais que possibilitaram a construção coletiva de soluções através de espaços que favorecem a criatividade, a resolução de conflitos através de negociações, planejamento, execução e avaliação de tarefas coletivas. Para a autora, este sistema permitiu a comunicação com agentes geradores de conhecimento constextualizado, aprendizagem nos ambientes de trabalho, rapidez no acesso à informação e usufruto do trabalho em equipe.
I) Qualidade com Equidade
A qualidade e a quantidade de recursos humanos bem formados é que definem o rítmo e a natureza das transformações econômicas e sociais. O que qualifica o uso desses intrumentos na educação é a possibilidade de melhorar a interação professor-aluno-computador possibilitando a melhoria do processo de aprendizagem. Esta vem sendo a principal justificativa para a utilização dos recursos informáticos na educação. Mas de que qualidade educativa estamos falando?
Em qualidade com equidade, que garanta a qualidade do processo de aprendizagem nos vários pontos de chegada visando a igualdade de oportunidades e de tratamentos. Significa trabalhar necessidades desiguais ao longo do processo, assegurando o acesso às informações e a produção do conhecimento, e a satisfação das necessidades básicas dos indivíduos mediante processos coletivos e cooperativos de aprendizagem em ambientes informatizados.
Estamos, também, falando numa qualidade capaz de proporcionar aos alunos o domínio dos códigos culturais básicos, o desenvolvimento de sua capacidade de dialogar num mundo interativo e interdependente usando os instrumentos de sua cultura. Essa qualidade implica o desenvolvimento de competências fundamentais para que o indivíduo assuma o comando de sua própria vida, para que seja membro de uma cultura moderna visando uma participação mais direta e efetiva na vida em sociedade. O aperfeiçoamento da qualidade do processo educacional supõe o domínio da própria linguagem, de seus códigos simbólicos, o seu manejo criativo e crítico, a capacidade de solucionar problemas, de sintetizar, de tomar decisões, bem como habilidades para gerar conhecimento novo e seguir aprendendo.
J) Desenvolvimento Científico e Tecnológico
A revolução da ciência e da tecnologia requer que os indivíduos aprendam melhor e de forma continuada. Assim, o seu foco principal passa a ser a gestão pedagógica, o processo de aprendizagem, oferecendo, ao mesmo tempo, a instrumentação técnica necessária capaz de colaborar neste sentido. Uma política voltada para o desenvolvimento da aprendizagem, da construção de conhecimentos mais de acordo com os novos tempos, implica uma nova sinergia entre dois eixos fundamentais: o epistemológico e o tecnológico, onde um colabora com o outro.
Para Fagundes (1993), alfabetizar em tecnologia é ajudar o sujeito a aprender a usar, descrever, refletir e explicar o funcionamento desses objetos. É pesquisar e transformar objetos informáticos e desenvolver novos sistemas com esses objetos. É usar a tecnologia para comprender o funcionamento da mecânica, da química, da matemática, da biologia, da escrita, e não mais a história do computador, rudimento de lógica simbólica, sistemas numéricos binários e elementos de BASIC.
Portanto, educar para o progresso e a expansão do conhecimento é o que caracteriza a competição entre diferentes realidades produtivas, requerendo, além do desenvolvimento das competências cognitivas, maior intuição, criatividade e agilidade de raciocínio, associado ao manejo da tecnologia e maior conhecimento técnico. Essa interação poderá ocorrer mediante adequada articulação entre educação, ciência e tecnologia voltada para a produção do conhecimento, o que poderá facilitar a emancipação individual e coletiva, a eliminação da pobreza e a redução de desigualdades sociais. É um desenvolvimento técnico e, sobretudo, humano, onde as tecnologias são recursos que colaboram para a instrumentação do indivíduo e, ao mesmo tempo, para sua humanização ao favorecer a ocorrência de processos reflexivos, de interações interpessoais e a compreensão das diferenças culturais.
K) Educação para Uma Cidadania Global
Educar para a cidadania global significa formar seres capazes de conviverem, de se comunicarem e dialogarem num mundo interativo e interdependente utilizando os instrumentos da cultura. É preparar o indivíduo para ser contemporâneo de si mesmo, membro de uma cultura moderna, planetária e, ao mesmo tempo, comunitária próxima. Isso exige sua preparação técnica para comunicação à longa distância, requer também o desenvolvimento de uma consciência de fraternidade, de solidariedade e a compreensão de que nossa evolução é individual e, ao mesmo tempo, coletiva.
Educar para uma cidadania global requer a compreensão da multiculturalidade, o reconhecimento da interdependência com o meio ambiente e a criação de espaços para consensos entre diferentes segmentos da sociedade. É procurar desenvolver a compreensão de que o indivíduo é parte de um todo, um microcosmo dentro de um macrocosmo, parte integrante de uma comunidade, sociedade, nação e planeta.
Ao acessar a Internet e participar de network local ou mundial, como parte integrante de um sistema de informações e de conhecimentos globais, o indivíduo poderá vivenciar e compreender melhor essas dimensões. Isso pressupõe uma nova filosofia de vida, uma nova visão de futuro, que o faça compreender a globalidade na qual todos estamos inseridos. Requer também uma nova ética, uma nova consciência individual, social e planetária, um sentimento de compaixão universal centrado no equilíbrio da comunidade terrestre.
Educar para uma cidadania global é desenvolver a compreensão de que é impossível querer desacelerar o mundo e, sim, procurar adaptar a forma de educar às mudanças rápidas e aceleradas presentes em nossas vidas. É ter uma atitude interna de abertura e não de fechamento, uma atitude de questionamento crítico e, ao mesmo tempo, de aceitação daquilo que julgar relevante. Envolve a compreensão dos impactos sociais e políticos decorrentes dos fenômenos demográficos e a aquisição de valores compatíveis com a vida numa sociedade planetária, onde prevalece a tolerância, o respeito, a compaixão, a cooperação e a solidariedade. É preparar os indivíduos para vivenciarem uma nova ética entre os povos, capaz de melhorar a convivência neste mundo.
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(*) Maria Cândida Moraes é Doutora em Educação e Professora de Pós-Graduação em Educação da PUC/SP. Autora e coordenadora do Programa Nacional de Informática na Educação/MEC/BR PRONINFE, 1987 a 1992. Cordenadora Geral de Projetos do PROINFO/SEED/MEC/BR, até set/97. Autora do livro "O Paradigma Educacional Emergente", Editora Papirus, set/97.
NOTA DO COORDENADOR: Há um outro excelente artigo da Profa. Maria Cândida na seção "História".