Quousque tandem abutere Catilina patientia nostra ?
(Até quando abusará Catilina de nossa paciência ?)
Wagner Gutterres
SENAC/RJ
waggut@web4u.com.br
A frase acima é a primeira do primeiro discurso do romano Cícero contra Catilina em 63 A.C., onde o famoso orador, então Cônsul Romano, atacava as pretensões golpistas de Catilina contra a ordem estabelecida no então Império Romano. A frase é usada até hoje quando se quer manifestar a desaprovação de um fato ou atitude que persiste, apesar de constituir-se em absurdo lógico ou teimosia empedernida, diante de uma realidade que não pode ser ignorada.
Atravessamos um período de grandes avanços no aperfeiçoamento de produtos, tanto hardware quanto software, no campo de informática. E mais, a informática, que na década de 60 era associada a computadores, agora está por toda a parte: nos aparelhos de comunicação (telefones, pagers, fax, etc.), nos de lazer (tv, som, videogames) e nos eletrodomésticos de um modo geral. Aliás até esses, os eletrodomésticos, tiveram sua amplitude aumentada. Hoje uma impressora acoplada a um micro pode ser considerado um aparelho de apoio nas atividades domésticas...
Pouco a pouco surgem as fusion machines onde o telefone e o aparelho de tv mandam e recebem e-mails via Internet e pode-se assistir ao programa predileto direto no micro enquanto se trabalha.
Apanhados de surpresa por esse turbilhão
tecnológico muitas vezes somos envolvidos e ficamos tentados a possuir a última
criação da indústria de facilidades, mesmo que não precisemos dela. O marketing
poderoso das indústrias procura sugerir, em alguns casos com veemência, que estaremos
definitivamente defasados da modernidade se não consumirmos os gadgets que nos enfiam
goela abaixo por todos os meios de comunicação (informatizados, é claro) que existem.
E tome lançamento de processadores que diminuem em alguns microssegundos o acesso à home
page que, não raro, estará tentando nos vender alguma coisa, convencendo-nos que
precisamos "daquilo". E tome nova versão do software que promete maravilhas de
conectividade com todos os aparelhinhos novos que ainda não estão nas pranchetas de
projeto.
Quem viveu os anos anteriores a este dilúvio de chips consegue, às vezes..., colocar-se numa posição crítica em ralação a isso tudo. E as gerações que já nasceram nesse turbilhão ? Acostumados a esse ritmo costumam envolver-se no modismo e acreditar que estarão definitivamente condenados a permanecer neste século se não souberem usar a versão nove ponto qualquer coisa de sabe-se lá o que !
Voltando ao título deste texto, "até
quando abusarão de nossa paciência" os modernos "Catilinas" cujo objetivo
único é aumentar o faturamento de suas empresas, sem a devida contrapartida em reais
utilidades e facilidades para a vida do cidadão comum ? O despertar dessa consciência é
dever de todos aqueles que cuidam da formação dos jovens de hoje, seja nos cursos
regulares, seja nos cursos especiais, como é o nosso caso, no SENAC. Não é possível (e
a grita nesse caso é mundial) que sejamos obrigados a pagar para ter, por exemplo, um
produto que se anuncia como "uma nova versão que corrige os bugs da anterior" e
que, para usá-lo tenhamos que renovar os componentes do nosso micro, ampliando-lhe os
recursos de memória, disco rígido e microprocessador.
"Qousque tandem" teremos que usar um programa "pesado" para fazermos
exatamente o que um outro, mais comedido mas igualmente eficiente, pode fazer ? Vemos, com
alívio, que surgem, volta e meia, recursos que se opõem a esse fervilhar modista.
Aparecem browsers mais simples - e rápidos - como o Ópera, por exemplo, que faz
muitíssimo bem o que geralmente se precisa para o uso da Internet ou programas gráficos
que permitem a edição de figuras e a realização de trabalhos comuns de textos com
ilustração, necessários para uma empresa que não tem como fim a produção gráfica.
Há que se alertar nossos alunos para que permaneçam atentos e que não embarquem nessa onda de falsa modernidade deixando, muitas vezes, de embasarem o seu conhecimento e adquirirem uma visão mais realista a partir desse embasamento. A sociedade carece profundamente de pessoas que pensem ! Uma visão generalista aliada a sólidos conhecimentos básicos proporcionará àqueles que as possuam melhores oportunidade num mercado de trabalho instável, agitado e "globalizado", como o que temos atualmente. É preciso aprender a fazer , sabendo o que se está fazendo, porque se está fazendo e que outras maneiras há de fazê-lo. A solução "ótima" é aquela que é a melhor possível, nas circunstâncias que se apresentam naquele momento.
Ao nos movimentarmos na cena da vida devemos
estar preparados para mudarmos de personagem e, para tal, é preciso que conheçamos um
pouco, ao menos, de todos os textos.
14/07/98