José Luiz Zanella, "Dilemas de um Professor em Sala de Aula na Busca de um 'Ensino Reflexivo'"
[Palestra ministrada no dia 25/5/2000 no Educador 2000 -- Congresso Internacional de Educação
]
I. Introdução
Nas últimas décadas a pesquisa em educação tem se voltado consideravelmente com as problemáticas de ensino-aprendizagem no ambiente de sala de aula. Não se trata evidentemente de tomar a sala de aula como um espaço isolado de que-fazeres pedagógicos. Ao contrário, busca-se investigar as problemáticas de ensino a partir do contexto que lhe deram origem, de modo que o particular (sala de aula) e o geral (sociedade) se entrecruzam, produzem-se, reproduzem-se e se transformam.
Neste sentido, para o professor que está em sala de aula, sobretudo do ensino fundamental e médio, e tem uma filosofia de trabalho de ouvir e respeitar as falas dos alunos num ambiente de liberdade de expressão, de pensamento e de encaminhamentos democráticos, depara-se, a cada dia, com situações novas, complexas, incertas e até imprevisíveis no ambiente de sala de aula. O ser professor torna-se um desafio permanente. Como superar estas situações inusitadas no momento da aula e fazer delas um objeto de estudo? De que forma interpretar e resolver estas situações à luz das ciências da educação? Por exemplo, como ensinar o dialogo reflexivo em sala de aula numa perspectiva democrática, coletiva e livre?
É nesse contexto de imprevissibilidade do ensino em sala de aula que apresento um breve relato de minha prática de ensino reflexivo desenvolvida junto a duas turmas de alunos do ensino médio durante o ano de 1999. Trata-se de uma apresentação preliminar, vez que somos iniciantes nesta modalidade de "pesquisa-ação". Queremos de forma geral apenas mostrar os avanços e limites que tivemos na tentativa de sermos professores reflexivos.
Relato, neste texto, algumas considerações sobre as dificuldades que tenho enfrentado no exercício da profissão professor no tocante a metodologias de ensino participativas. Na busca de solução para estas dificuldades, encontrei na metodologia do "ensino reflexivo" uma alternativa de superação que, depois de algumas leituras também mostrou-se limitada no sentido de concepção de mundo. Faremos uma breve apresentação de alguns pontos que consideramos relevantes sobre o "ensino reflexivo", no sentido de situarmos em que bases e em que condições desenvolvemos nosso trabalho em sala de aula. Em seguida, apresento em linhas gerais, indicativos de alguns pontos de referência de "nossa" filosofia da educação para, no restante do texto, expor o desenvolvimento das aulas a partir das falas dos alunos e das intervenções que realizamos como professor.
Enfim, busco neste texto construir um olhar sobre o meu trabalho de professor a partir das falas dos alunos. Tenho nestas falas dos alunos o "espelho" de minhas ações e procuro apresentá-las como às vivenciei em sala de aula.
II. A minha problemática do ensino
Iniciei no magistério no início da década de 90 como professor municipal de alfabetização de adultos por um período de dois anos. Formado em Filosofia e leitor de algumas das principais obras de Paulo Freire, ao alfabetizar os adultos, tivemos dificuldades de desenvolver a metodologia freireana. Os problemas práticos do ensino desafiavam-me de tal modo que tinha muita dificuldade de fazer uma reflexão que se tornasse de fato uma "práxis" de ensino. Conclui, na época, que de certo modo tinha me apropriado de uma visão de mundo "crítica", mas que no cotidiano da sala de aula sucumbia com a rotina e as formas tradicionais de ensino.
Ao ingressar no ensino fundamental, médio e depois superior verifiquei que não conseguia estabelecer um vínculo orgânico e de práxis entre o que pensava e o que realmente fazia. Isto não significava que o meu jeito de ensinar fosse totalmente expositivo, metafísico, autoritário, espontaneísta e tecnicista. O fato é que apesar de meus esforços para que os alunos participassem, acabava sendo determinante a "ditadura dos conteúdos" sem um consistente reflexão sobre o mundo dos alunos no sentido de construção de conhecimentos. A questão de como relacionar os conhecimentos dos alunos ( senso comum, bom senso ) com os conhecimentos escolares (ciências, filosofia, cultura, saberes) num processo reflexivo a partir dos alunos, permanecia em aberto e se constituía em um problema que me angustiava. Esta angústia era decorrente de termos como princípio o fato de acreditarmos que todos os alunos podem e são capazes de aprender. Pois, "todo homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um filósofo, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção de mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui assim para manter ou para modificar uma concepção de mundo, isto é, para promover novas maneiras de pensar". (Gramsci, 1991: 7 e 8). Se os alunos não aprendem, pensava, é possível que o problema esteja na minha metodologia de ensino. Sendo assim, a responsabilidade recai sobre o professor que não soube mobilizar aqueles alunos para o estudo. Esta auto-cobrança fez com que retornássemos aos estudos acadêmicos.
Foi assim que em 1995 iniciei o Mestrado em Educação área de concentração, metodologias de ensino, o qual conclui em 1999. No mestrado estudei, em linhas gerais, o movimento chamado de "professor pesquisador" ou de "ensino reflexivo". Constatei que as minhas dúvidas sobre as problemáticas de ensino em sala de aula eram pertinentes, vez que pesquisadores de outros países a décadas estudavam como os professores ensinavam e resolviam seus problemas entre si. A seguir, apresento algumas considerações de caráter introdutório e, portanto, circunscrito aos limites deste texto, sobre este movimento do "professor pesquisador" que denominarei de "ensino reflexivo".
III. Breves considerações sobre o "ensino reflexivo"
O movimento do ensino reflexivo teve início na Inglaterra na década de 60 e nos EUA nos anos 80. Apesar das diferenças de ensino reflexivo entre estes países, ressaltamos que este movimento tem em comum a crítica à racionalidade técnica. Entende-se por "racionalidade técnica" um conjunto de conhecimentos considerados como de certo modo verdadeiros sobre as ciências da educação e do como ensinar, adquiridos nas universidades, que os professores aplicariam na prática sem se preocuparem com o contexto, mas apenas atendo-se aos objetivos previamente estabelecidos. A crítica a esta concepção de ensino é feita por autores como Schon (1995), Zeichner(1993), Elliott(1990), Nóvoa(1992), dentre outros. Esta crítica se fundamenta sobretudo em Aristóteles, Dewey e Habermas.
A partir da década de 60, na Inglaterra, os professores nos colégios começaram a refletir de forma organizada e coletiva sobre as problemáticas de ensino por eles vivenciadas em sala de aula. Alguns anos depois, professores universitários participam destes estudos dando início a uma sistematização com o envolvimento direto dos professores. É da reflexão sobre a prática de ensino nas escolas que emerge toda uma crítica ao paradigma da racionalidade técnica e nasce daí a concepção do "professor pesquisador".
A racionalidade técnica é substituída pela racionalidade prática. Pois, "na prática não existem problemas, mas sim situações problemáticas, que se apresentam freqüentemente como casos únicos que não se enquadram nas categorias genéricas, identificadas pela técnica e pela teoria existentes (Gomes, 1995: 100).
Nesta perspectiva a sala de aula é vista e compreendida como um espaço complexo, incerto e imprevisível. E, que por ser assim, exige um professor "como prático autônomo, como artista que reflete, que toma decisões e que cria durante a sua própria ação" (Gomes, 1995: 96), ou seja, um professor pesquisador.
A denominação professor pesquisador não está vincula necessariamente ao conceito de pesquisador acadêmico (rigor metodológico, sistematização...). Ser pesquisador como professor em sala de aula, é ter a determinação e coragem (opção) de construir um "olhar" crítico sobre sua própria prática, registrá-la (pesquisa-ação) e de discuti-la (reflexão) com seus colegas professores no sentido de superação e de tomadas de decisões.
É preciso que o professor valorize criticamente seu trabalho e o conhecimento produzido ao longo deste tempo de trabalho. "O conceito de professor como prático reflexivo reconhece a riqueza da experiência que reside na prática dos bons professores. Na perspectiva de cada professor, significa que o processo de compreensão e melhoria de seu ensino deve começar pela reflexão sobre a sua própria experiência e que o tipo de saber inteiramente tirado da experiência dos outros (mesmo de outros professores) é, no melhor dos casos, pobre, e na pior, uma ilusão" (Zeichner, 1993: 17, grifos meus).
Uma das maneiras do professor realizar sua pesquisa sobre o seu trabalho tem sido a "pesquisa-ação". Elliott conceitua a pesquisa-ação como "o estudo de uma situação social com a finalidade de melhorar a qualidade da ação dentro dela mesma. A validez das teorias ou hipóteses, no geral, não dependem tanto dos textos científicos da verdade, mas da sua utilidade para ajudar as pessoas a atuarem de modo mais hábil e inteligente" (Elliott, apud Serrano, 1990: 42).
A pesquisa-ação tende a tornar-se com o tempo, na medida que o professor se habitua a absorvê-la em seu trabalho, uma forma de capacitação permanente. "O objetivo da pesquisa-ação não é simplesmente resolver um problema prático da melhor forma, mas, pelo dileamento do problema, pretende compreender e melhorar a atividade educativa. Ela está, portanto, preocupada com a mudança da situação e não só com sua interpretação. É um processo em que tanto os agentes como a situação se modificam, num processo sistemático de aprendizagem de tal modo que a ação educativa se converte em uma ação criticamente informada e comprometida" (Pereira, 1998: 163).
A metodologia do professor pesquisador terá que orientar-se pelos métodos qualitativos de pesquisa tendo em vista a necessidade de levar em conta o contexto, o qual tem uma lógica contraditória que envolvem múltiplas situações. Nesse sentido faz-se necessário que o professor apreenda a construir um "olhar" capaz de abordar com propriedade as múltiplas situações e de registrá-las para posterior estudo.
Nos EUA o movimento do esino reflexivo tem seu referencial no filósofo liberal John Dewey. Para Dewey (1953) o "pensamento reflexivo" fundamenta-se no exame ou averiguação, entre as idéias e os fatos. Significa que toda a reflexão tem como base a experiência pessoal, a qual é tomada com "perplexidade", "confusão" ou "dúvida". "Dewey definiu a ação reflexiva como sendo uma ação que implica uma consideração ativa, persistente e cuidadosa daquilo em que se acredita ou que se pratica, à luz dos motivos que justificam e das conseqüências a que conduz (...). Reflexão é uma maneira de encarar e responder aos problemas, uma maneira de ser professor (...). A reflexão implica intuição, emoção e paixão; não é, portanto, nenhum conjunto de técnicas que possa ser empacotado e ensinado aos professores" (Zeichner, 1993: 18). Portanto, para Dewey, onde há reflexão há incerteza.
A ação reflexiva, para Dewey, constitui-se em três atitudes: a) abertura de espirito - ouvir os outros, estar aberto às alternativas e admitir seus próprios erros; b) responsabilidade busca dos fins éticos e políticos das ações; c) sinceridade capacidade de indignação, adesão e entusiasmo pelo que se faz.
Schon (1992), ao retomar Dewey, desenvolve o que denominou de uma praxiologia para a reflexão. Utiliza conceitos como: "conhecimento na ação" valorização do próprio conhecimento; "reflexão na ação" diálogo reflexivo no momento da ação; "reflexão sobre a ação" retomada e reconstrução mental da reflexão na ação para análises; e "reflexão sobre a reflexão na ação" progressão continuada do profissional de forma pessoal.
Destas formas de reflexão, destaco a reflexão na ação, assim entendida por Schon: "Existe, primeiramente, um momento de surpresa: um professor reflexivo permite-se ser surpreendido pelo que o aluno faz. Num segundo momento, reflete sobre esse fato, ou seja, pensa sobre aquilo que o aluno disse ou fez e, simultaneamente, procura compreender a razão por que foi surpreendido. Depois, num terceiro momento, reformula o problema suscitado pela situação; talvez o aluno não seja de aprendizagem lenta, mas, pelo contrário, seja exímio no cumprimento das instruções. Num quarto momento, efetua uma experiência para testar a sua hipótese; por exemplo, coloca uma nova questão ou estabelece uma nova tarefa para testar a hipótese que formulou sobre o modo de pensar do aluno. Este processo de reflexão na ação não exige palavras" (1992:83).
Schon em suas pesquisas não levou em conta o contexto. Em continuidade às pesquisas de Schon, Zeichner (1993) busca situar a reflexão no âmbito da prática social, de um ponto de vista também não marxista. Zeichner procura compreender a "maneira como os professores aprendem a ensinar e do modo de ajudar os professores a aprender a ensinar" (1993: 14). Defende que os estudos sobre o como ensinar é de prioridade dos professores, pois são eles que convivem com tal problemática permanentemente em sala de aula e, que por esta razão, o professor já possui de certa forma "teorias" as quais são tão importantes como as teorias acadêmicas sobre o como ensinar.
Zeichner aborda o ensino reflexivo a partir de três categorias básicas: 1ª ) O professor reflexivo olha para a sua própria prática "reflexão para dentro - e ao mesmo tempo para as condições sociais em que sua prática está situada "reflexão para fora"; 2ª) A prática reflexiva deve ser "democrática e emancipatória", levando em consideração as decisões do professor sobre situações de desigualdades e injustiças no interior da sala de aula; 3ª) Reflexão compromissada com a prática social. É o processo coletivo de reflexão em "comunidades de aprendizagem" num ambiente de solidariedade, crítica, auto-crítica e fortalecimento pessoal para as mudanças institucionais e sociais.
Geraldi, Messias e Guerra (1998) destacam as "cinco características chaves" do professor (a) reflexivo segundo o pensamento de Zeichner e Liston:
"- examinam, esboçam hipóteses e tentam resolver dilemas envolvidos em suas práticas de aula;
- estão abertos a respeito das questões e assumem os valores que levam/carregam para seu ensino;
- estão atentos para o contexto institucional e cultural no qual ensinam;
- tomam parte do desenvolvimento cultural e se envolvem afetivamente para a sua mudança;
- assumem a responsabilidade por seu desenvolvimento profissional;
- procuram trabalhar em grupo, pois é nesse espaço que vão se fortalecer para desenvolver seus trabalhos" (252 e 253).
Tendo como base estes apontamentos e de algumas outras leituras sobre o ensino reflexivo, assumimos o desafio de sermos de fato um professor reflexivo em sala de aula. Este desafio teria que ser durante o ano todo e nas mesmas condições de trabalho dos outros professores mesma carga horária e de estrutura de funcionamento do colégio.
Retomei minhas atividades de professor da rede estadual em fevereiro de 1999 com as seguintes condições de trabalho: No colégio: 20 horas semanais, distribuídas entre o período da manhã e tarde. Disciplinas no período da tarde: História, 8ª D (duas aulas), 1º C (duas aulas) e 1º D (duas aulas). Disciplinas no período da manhã: História , 1º A (duas aulas), 1º B (duas aulas), 2º A (duas aulas), 2º B (duas aulas) e 2º C (duas aulas). Psicologia, 1º A (duas aulas) e 1º B (duas aulas). As aulas eram de duração de 45 minutos. Os alunos não possuíam material didático (livros, textos, etc) e nem tinham condições de adquiri-los.
Esta jornada de trabalho no colégio se complementava com a da Universidade. Na Universidade, como professor celetista/contratado, possuía mais 26 horas semanais assim distribuídas:
Ressalte-se que a Universidade, localizada na cidade de Francisco Beltrão, distante 50 Km de onde resido, implicava duas horas diárias de viagem entre ida e volta, feita às vezes de ônibus ou de carro próprio.
Diante dessa extensa jornada de trabalho e de condições de trabalho desfavoráveis ao estudo e reflexão, delimitei a minha proposta para ser um professor reflexivo com mais intensidade no 1º A e no 1º B da manhã nas aulas de Psicologia, no Ensino Médio (Colégio). A delimitação se impôs pela falta de tempo que tínhamos para fazer os registros das aulas. Por outro lado, a escolha de Psicologia foi estratégico, vez que a Direção do Colégio incluiu esta disciplina no currículo na tentativa de resolver a agressividade e indisciplina dos alunos.
Em linhas gerais, estas duas turmas se caracterizam por serem adolescentes com idade entre 14 a 16 anos, divididos quanto ao gênero quase que proporcionalmente em mesmo número entre meninos e meninas. Cada sala de aula tinha em torno de 40 alunos. Em relação ao trabalho dos pais, poderíamos classificar deste modo: em torno 6% micro-empresários e o restante assalariados (mecânicos, vendedores, capataz de fazenda, motoristas, viajantes, vigilantes, agricultores familiares, operários, técnicos, desempregados, aposentados...). As mães, a maioria trabalham em casa e quando fora de casa como assalariadas. Os filhos, no caso os alunos, auxiliam de alguma forma no trabalho dos pais. De modo que, em relação ao trabalho, observa-se que todos vivem de seu próprio trabalho e a maioria com renda familiar que apenas garante a sobrevivência.
IV. Nossa filosofia de educação
Além dos apontamentos sobre o ensino reflexivo anteriormente citados, fundamentamos nosso trabalho em valores do humanismo gramsciano da "auto-disciplina intelectual e autonomia moral" (cf. Manacorda, 1990: 161). Em sua concepção de escola unitária entrelaçamento entre trabalho manual e trabalho intelectual Gramsci distingue duas fases na educação das crianças. Na primeira fase, antes da puberdade, até aos 14 anos, a educação centra-se na formação da personalidade e vai desenvolver através de um ensino receptivo, dogmático e de heteronomia o hábito e disciplina necessários ao estudo. Contudo, adverte Gramsci, "a aquisição dos hábitos de disciplina e todo o estímulo exercido sobre a criança pelos adultos devem todavia ocorrer sem mortificar a espontaneidade da criança" (Manacorda, apud Gramsci, 1990: 91).
Na Segunda fase, após a crise da puberdade, a educação passa da heteronomia para a autonomia. É a fase "criativa", ou seja, da "auto-disciplina intelectual e da autonomia moral". Nesta etapa os jovens devem ser capazes de estudarem várias horas por dia de forma organizada e planejada tendo em vista seus projetos de vida sempre numa perspectiva de classe social (visão de mundo unitária e coerente).
Tendo como base estes pressupostos, entendíamos que os alunos do primeiro ano do colegial já tivessem, de certa forma, adquirido o hábito de estudo por uma opção de projeto de vida e não só por ser uma exigência dos pais, da sociedade, dos professores e da escola. Sendo assim, nosso objetivo era o de proporcionar um ambiente em sala de aula livre de todos os "vícios" tradicionais da escolarização tais como: o estudo pela nota, autoritarismo, punições, perseguições, etc. Livres destes entraves da escolarização, queríamos que os alunos pudessem dizer a sua palavra com liberdade de expressão e pensamento, sem medo e constrangimentos de punições ou advertências. Deixamos claro que os alunos poderiam se manifestar sempre da melhor forma que pudessem. Por exemplo, poderiam dizer: professor, tua aula não está com nada, foi chata, etc. Esse enfoque, tínhamos clareza, não saía do autoritarismo para cair no outro extremo do espontaneísmo.
Buscávamos consolidar nos alunos um comportamento (hábito) de responsabilidade (autonomia), diante dos estudos no sentido que fossem capazes de resolverem as contradições do próprio estudo e de convivência em sala de aula a partir da explicitação destas contradições na medida que estas surgissem na aula mediante a prática do diálogo reflexivo. Ou seja, queríamos que os alunos enfrentassem de frente as tensões, que na medida que elas surgissem fossem capazes de parar, avaliar, esclarecer e tirar encaminhamentos consensuais. O papel do professor consistia em insistir na reflexão, fornecendo elementos, fazendo mediações, para que eles, os alunos, refletissem de forma coletiva e democrática.
Considerávamos como meta o cultivo de valores (vivência/convivência) como o respeito, o auto-conhecimento, a abertura para o outro, a liberdade, a responsabilidade, o exercício da cidadania ativa, a solidariedade, a democracia, a busca da sabedoria e principalmente o diálogo reflexivo, crítico e auto-crítico.
Nossa postura de professor reflexivo se pautaria no que Dewey denominou de "abertura de espírito", "sinceridade" e "responsabilidade". Mas principalmente de uma visão de mundo não dogmática, pois trabalharíamos sempre com a dúvida no sentido de apontar outras possibilidades.
Enfim, nossa filosofia de trabalho se fundamentava no materialismo histórico dialético, no sentido que realizávamos as reflexões a partir das explicitações dos determinantes sociais. Desta forma, buscávamos enfocar dialéticamente os conceitos de "ensino reflexivo", já que os mesmos estavam envoltos numa concepção de mundo não marxista, para incorporamos estes conceitos de forma mais contextualizada e de práxis crítica.
O "nosso" ensino reflexivo, além das contribuições do "ensino reflexivo" de Dewey, Schon, Zeichner, Elliott, buscou fundamentar-se na "práxis reflexiva". Entendemos que a concepção da práxis marxista é mais elevada que a concepção de práxis aristotélica (fins éticos e políticos) e da prática de Dewey (pragmatismo). Assim, "a práxis é a atividade concreta pela qual os sujeitos humanos se afirmam no mundo, modificando a realidade objetiva e, para poderem alterá-la, transformando-se em si mesmos. É a ação que, para se aprofundar de maneira mais conseqüente, precisa da reflexão, do autoquestionamento, da teoria: e é a teoria que remete à ação, que enfrenta o desafio de verificar os seus acertos e desacertos, cotejando-os com a prática" (Konder: 1990,185, grifos meus). Enfocamos, deste modo, a reflexão no ensino a partir do "concreto" como síntese de múltiplas determinações, da "totalidade" como um todo que se cria e se transforma e da "dialética", reflexão a partir das contradições.
Este enforque de reflexão no ensino, para nós, se deu a partir do mundo do trabalho. Explicitando o trabalho alienado e, ao mesmo tempo, desvelando que somos uma "classe social" que vive do trabalho e como tal temos uma história de lutas no sentido de transformação das relações de trabalho da atual sociedade, buscávamos construir nos alunos uma visão de mundo coerente com seu lugar social. Assim, queríamos que os alunos fossem capazes de elaborarem "... a própria concepção de mundo de uma maneira crítica e consciente (...) escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo"(Gramsci, 1991: 12), no sentido de se construir uma sociedade mais justa, democrática e organizada.
V. As aulas
Ao iniciarmos as aulas solicitamos aos alunos que de um ponto de vista existencial e psicológico, indicassem o que mais os preocupavam para que isso fosse objeto de estudos em Psicologia. Praticamente todos os assuntos convergiram para a sexualidade.
Foi assim que no mês de março iniciamos estudando a Psicanálise. Como professor entendia que colocando alguns dos principais conceitos desta ciência, os alunos poderiam refletir com maior conhecimento de causa sobre suas angústias sexuais e comportamentos agressivos.
A metodologia, neste mês, foi de certa forma "tradicional". O professor chegava em sala de aula e apresentava os conceitos escrevendo-os no quadro ou ditando aos alunos, já que estes não tinham condições de adquirir um texto. A aula era praticamente expositiva. Iniciava-se por uma revisão breve da aula anterior e através de um "diálogo dirigido" apresentava-se os novos conceitos.
Por que essa metodologia se o objetivo era um ensino reflexivo? Na verdade, após alguns dias, numa auto-avaliação, chegamos a conclusão que a rotina e a própria tradição do ensino escolar ainda eram determinantes em nosso trabalho. Quando nos demos conta, percebemos então a dificuldade que tínhamos de relacionar de forma orgânica o "conhecimento" problematizado dos alunos com os conceitos da Psicanálise. Verificamos que estávamos fazendo uma relação de justaposição, de encaixe, bem aos moldes da "racionalidade técnica". A teoria (conceitos) era tomada como uma verdade a ser aplicada na prática (no caso, nos alunos). Enfim, era o "pacote" de conhecimentos a serem repassados aos alunos para que eles dessem conta de desempacotar.
A reação dos alunos foi imediata. Como eram livres para se manifestarem, diziam que não compreendiam nossas explicações sobre aqueles conceitos de "id", "ego", "superego", etc. Por mais que nos esforçássemos, inclusive com o desenho de gráficos e de outros recursos, não conseguíamos encontrar uma linguagem mais acessível que chegasse aos alunos. Muitos alunos reagiram desinteressando-se das aulas, formaram-se grupos que faziam outras atividades e muitas conversas paralelas. Muitos escreviam bilhetes que eram deixados discretamente na mesa do professor dizendo que a aula era chata e que não os interessava.
Diante desse desinteresse dos alunos e de suas reivindicações, realizamos enquanto professor uma avaliação das aulas e optamos por retomar os temas específicos sobre sexualidade apontados pelos alunos no início das aulas.
Mudamos a metodologia. De início apresentávamos uma ou duas questões para problematizar o assunto, procurando resgatar ao máximo possível as falas dos alunos, que eram interpretadas e explicadas pelo professor. Completávamos as reflexões com algumas leituras, geralmente de livros da Martha Suplecy ou de algum outro livro ou revista que os próprios alunos traziam.
Neste processo de aula reflexiva e coletiva a confusão, em muitos momentos, tornara-se generalizada e quase impossível de ser controlada. A falação era tanta que tínhamos muita dificuldade de sermos ouvidos pelos alunos. Muitos queriam falar ao mesmo tempo e o faziam de forma dogmática, exaltada e instintiva. O ambiente se tornou impróprio ao diálogo: desrespeito, gritos, acusações, indiferença com a aula pois esta era entendida como matação e bagunça e pouco caso ou seriedade com as reflexões. Chegou ao ponto dos conflitos passarem do plano verbal para o da agressão física. Um fato marcante foi a briga a socos e pontapés entre dois alunos em sala de aula com o incentivo e desafio da turma. No momento da briga os alunos insistiram que chamássemos a direção, mas com muita calma contornamos a situação e procuramos fazer daquele conflito uma reflexão. Porém, diante da gravidade do ocorrido, no intervalo, chamei os dois alunos e os levei até a sala da direção para evitar um confronto maior com conseqüências imprevisíveis. Foi constrangedor termos que ir até a sala da direção. Lá foi lavrada a ocorrência nº 24/99, ditada pelo diretor e escrita pelo vice-diretor.
"Aos vinte e quatro dias do mês de março do ano de mil novecentos e noventa e nove, compareceu o professor José Luiz Zanella, com os alunos Ednélson e Robson do 1º B. Na aula de Psicologia, onde discutiam o assunto sexualidade, o aluno Ednelson em sua colocação ofendeu as alunas da sala referindo-se que as mesmas por saírem acompanhadas seriam meninas de "vida fácil", prontamente o aluno Robson colocou que o Ednelson foi visto em companhia de dois homens, da mesma maneira incriminado suspeita sobre a masculinidade do mesmo. O que ocasionou um desequilíbrio e posteriormente violenta agressão física ao aluno Robson que não esboçou nenhuma reação. Data a gravidade do fato, o aluno Ednelson foi suspenso pelo período de 3 (três) dias. O aluno Robson fica advertido e na reincidência serão aplicadas as normas contidas no regimento escolar" (assinam o professor, os dois alunos e o diretor).
Ficamos perplexos diante desse fato. Saber que estes alunos se agrediram por causa de nossa metodologia de ensino era algo confuso para nós. Com dez anos de magistério era a primeira vez que isto acontecia. Sentimo-nos, de certo modo, fracassados. Quase todos os professores que tem problemas com os alunos resolvem estes problemas na sala da direção (espécie de delegacia para mediação de conflitos). Nós que tínhamos concluímos o mestrado em educação e queríamos de certo modo marcar a diferença na escola, acabávamos de cair no mesmo lugar. Parecia que todos os nossos estudos sobre o ensino reflexivo não faziam diferença, ao contrário, criavam mais problemas, dificuldades e confusões. Refletimos: seria tudo isso uma conseqüência "natural" do ensino reflexivo? Ou, não estaríamos ainda suficientemente preparados enquanto professor para tal empreendimento?
Ainda confuso e sem ter bem claro o que fazer, na semana seguinte realizamos uma avaliação escrita ("espécie de prova") com questões reflexivas sobre os conceitos de Psicanálise estudados e na última questão solicitamos aos alunos que avaliassem seus comportamentos à luz daqueles conceitos. As respostas nos surpreenderam. Vejamos algumas:
-"O comportamento da sala é muito tumultuado. Com aquele trabalho que o senhor está fazendo, que ocorre a briga, as pessoas estão dizendo o que pensam e muitas não concordam, então, começam a discutir" (Caroline).
-"Os alunos estão revelando o que pensavam sem Ter medo das conseqüências. E alguns acabam chegando ao baixo nível.
O que está faltando em nossa sala é todos pensarem, não só em si, mas nos outros também, e acima de tudo está faltando respeito" (Silvane).
-"O professor tenta impor autoridade na sala mas os alunos mandam nele, ele não consegue dar aula.
Existe nessa sala grupinhos que conversam todas as aulas, não prestam atenção e se acham os máximos. Se acham demais, um quer ser mais que o outro" (Daniele).
-"Eu preciso melhorar muito, desculpe professor José Luiz" (Leila).
-"Existem pessoas na sala de aula que são muito esquentados, por qualquer coisa que se fala a pessoa já queima, por isso não dá para por nada em debate, porque acontecem brigas e muitas discussões de desentendimentos entre a turma (Jeferson).
-"Nós alunos não sabemos o que é ser bom! Os alunos são bagunceiros demais da conta, se aproveitam de sua dignidade, de sua bondade, eles se aproveitam do professor na fiusa que com professor é bom demais.
Os alunos nunca tiveram espaço dentro da sala de aula para ficar a vontade, agora que eles tem esse poder, não sabem aproveitar nada, nem um sequer o respeito com colega que isso é o mais comum" (Olair).
-"Existem vários grupos de alunos que pensam coisas diferentes mas não sabem expressar esses pensamentos, provocando várias reações criticas como agressões por palavrões, chegando ao ponto de agressões físicas.
Fora as aulas de Psicologia, o comportamento é bom sem brigas e todo mundo é amigo sem preocupações e nenhum tipo de agressão" (Leonardo).
-"O comportamento da turma não é correto, e isso acontece em função da separação de grupos, onde cada um tem idéias diferentes e também uns não aceitam as idéias dos outros" (Querem).
-"O comportamento de uns está passando dos limites, pelo meu ver, o professor está oportunidade prá se expor suas idéias, mas estão se desrespeitando a idéia dos colegas e até mesmo do professor" (Genirson).
-"Estamos na hora de sermos mais conscientes e de parar para uma reflexão" (Marizélda).
-"Os alunos da sala estão muito bagunceiros, não prestam atenção, não tem respeito um com o outro, muitos apelidos, tiram saro, conversa paralela, enfim, a sala tem muitos problemas, principalmente aluno com aluno, e nós temos que melhorar, porque senão a coisa tá feia e o professor tem que tomar atitudes mais severas, porque eles tão se aproveitando do professor" (Cleverson).
-"O professor quer mudar, quer ajudar, só que ninguém está entendendo. Eu acho que o professor é uma pessoa que luta e consegue o que quer; por isso eu acho que o professor até o final do ano vai conseguir o que quer" (Daiane).
Estas falas nos trouxeram um pouco de esperança e nos chamaram a atenção em três sentidos: 1º ) o reconhecimento dos alunos sobre a oportunidade que estavam tendo de expressarem seus pensamentos: 2º) o reconhecimento dos alunos sobre suas dificuldades de se expressarem num coletivo e da necessidade de aprenderem a dialogar; 3º ) de exigirem do professor uma postura de maior autoridade, de maior rigidez diante das indiferenças e bagunças. Concluímos que o caminho era este e que tínhamos que avançar na prática do diálogo reflexivo enfrentando os obstáculos.
Optamos por parar com os estudos sobre a sexualidade para refletirmos com mais cuidado sobre os comportamentos da turma. Para iniciarmos este trabalho, realizamos um diagnóstico com a finalidade de conhecermos melhor quais eram de fato os problemas, suas causas, se havia vontade de mudança e o que fazer para mudar. Apesar de que estas questões já tivessem de certa forma sido respondidas pelas falas anteriores, queríamos que os alunos refletissem melhor e de certo modo se tocassem no sentido de se assumirem enquanto sujeitos responsáveis. Este diagnóstico continha quatro questões para serem respondidas em grupos. A seguir apresentamos as questões e suas respectivas respostas.
Diagnóstico realizado em maio/99.
1. Quais são os principais problemas em sala de aula com relação:
a) Aos alunos,
b) Ao professor
| Alunos | Professor |
| -Muita conversa, pouca
concentração nas aulas, não captam bem que o professor fala, pois conversam, pouco
respeito com o professor (com exceções) -Pelo menos 45% dos alunos não pensam em estudar para as provas, na hora colam. -Usam a inteligência e capacidade para conversar. -Existem alunos que vem p/ aula p/ incomodar os que desejam aprender. -Há muita falta de respeito entre alunos e professores. -Em todas as classes de aula de todas as escolas existem alunos de diferentes personalidades. Mas sempre existe um que se diferencia dos outros e é o que os professores mais detestam. É aquele aluno que tira notas ruins nas provas, nos trabalhos e não tem a humildade de dizer: "quero melhorar". É o próprio orgulho do aluno que o leva para o mau caminho na escola. Alunos quando não se interessam nas aulas, provocam um grande tomulto. -Diferentes personalidades, diferentes finalidades (aprender x tumultuar), falta interesse, só estudam pela nota. Os mesmos de sempre iniciam a bagunça e a turma vai junto. -É a bagunça paralela, porque não acha a matéria interessante ou já sabe a matéria. |
-É muito calmo, isso é bom mas
também nos prejudica, pois ele não consegue controlar a bagunça, deixando os alunos
tomarem conta de suas aulas. -Explica bem, as aulas são ótimas, mas tem alunos que não sabem respeitar e o professor não consegue controlar a conversa. -As aulas são interessantes, porém, às vezes um pouco chatas e monótonas. -Tenta ensinar o melhor possível, mas alguns alunos não colaboram com ele e não prestam atenção. A solução é que o professor seja um pouco mais rígido com os desinteressados. -Devia ter mais autoridade, tomar suas decisões sejam elas quais forem e não importa quem seja. -O aluno que é esperto e tem interesse nos estudos percebe quando o professor não está a fim de dar aula. Nesses casos o professor pode causar o desinteresse dos alunos. Os professores deveriam ser mais rígidos com certos tipos de alunos. E as aulas poderiam ser mais dinâmicas. -Muito calmo, tem de ser mais rígido. Não domina a turma, tem de falar mais alto, as aulas são chatas, não se entende, não adianta discursos. -Não estamos acostumados com o seu jeito de dar aulas. O professor teria que adotar um livro ou uma apostila para nós alunos entendermos melhor e poder estudar. |
2. Quais são as causas destes problemas apontados?
| Alunos -Alguns tem problemas em casa, pouco interesse em seu futuro. -A bagunça é grande, pois estamos entre amigos e sempre temos novas coisas para contar. -Desinteresse dos alunos em aprender e também um pouco porque a aula não interessa muito. -As vezes é o desinteresse. Aqui na nossa sala de aula existem alunos que vem para conversar e atrapalhar os outros. Os alunos interessados deveriam ignorar essas conversas, deveriam também escolher suas conversas. -Falta de educação, respeito e modos. -Alguns são bagunceiros por falta de diálogo na família. Alguns conversam excessivamente porque a escola é o único lugar onde pode encontrar os amigos |
Professor -Não sabemos o porque que o professor é tão calmo. Isso deve ser próprio da matéria de Psicologia. -O professor deve ter mais autoridade em sala de aula, assim poderá controlar a bagunça. -Aulas mais um pouco interessantes, precisaria de mais rigor nas aulas. -Acho que o professor não precisa ser autoritário, é só dar uma boa aula. E concientizar os alunos de que deve saber estudar. Se o professor for mais rígido e autoritário, só irá obrigar os alunos a ficarem quietos, causando-lhes medo. -O tom de voz gera desrespeito e desinteresse. -O professor deve ser calmo assim porque ele quer exigir respeito dos alunos sem precisar usar a rigidez. |
3. Enquanto alunos, queremos mudar esta realidade? Por que?
- Sim. Pois a gente vem para a escola pensando no futuro, queremos estudar, muitas vezes não conseguimos porque há bagunça.
4. O que propomos para uma mudança da turma e do professor?
A seguir apresentamos algumas "falas" que ocorreram nos momentos de apresentação dos trabalhos na plenária:
"Todo ano se fala nisso (bagunça, estudar) e nunca muda".
"Todo mundo sabe que é errado, mas continua fazendo errado. O errado é o gostoso".
"Em casa (TV) e no trabalho (computador) não se fala e a sala de aula é a oportunidade de se falar".
"Nós nos acostumamos desde a primeira vez que entramos na escola, a ficar em silêncio através dos gritos de muitos professores. Hoje existe a necessidade de que o professor seja mais rigoroso devido ao costume dos alunos desde o começo".
"Não somos agitados só por causa da televisão, mas pela nossa idade. Somos adolescentes aborrecentes".
"É melhor ter uma família severa do que não tê-la".
"Os professores não podem generalizar os alunos".
"O que fazer com os alunos desinteressados"?
"Aula existe para aprender e não para se divertir".
"Não sabemos dialogar no coletivo".
"Para a maioria o objetivo maior é tirar a nota e passar de ano".
"O que fazer com os professores que não dão conta do recado".
"Por que não temos vontade de estudar. Tentamos mas não conseguimos. Dá vontade quando a gente aprende na prática".
"É o professor que faz o aluno".
"A gente pode aprender conversando com o colega".
"A bagunça dos alunos está relacionada a insegurança e fraqueza do professor".
"Por que um adolescente de 16 anos tem o direito de votar e não pode ser responsável pelos seus atos, como por exemplo Ter carteira de motorista"?
"A visão de mundo dos jovens, às vezes, é mais ampla que a do adulto, cabeça aberta".
Com este diagnóstico tivemos alunos e professor maior clareza sobre nossas limitações e da necessidade de mudanças. Os alunos compreenderam, em parte, os seus problemas ao relatarem sobre as conversas paralelas, do não interesse de alguns ao estudo, das diferenças e da falta de respeito. Quanto ao professor o problema maior e que incomodava os alunos era: ser "calmo", falta de "rigidez" (autoridade) e o consequente não "domínio de turma".
Sobre as causas destes problemas constatamos que os alunos tiveram dificuldades em responder e as respostas expressam, na maioria dos casos, novamente a citação do problema. Segundo os alunos, as causas de seus problemas estaria na família (falta de diálogo), na super-valorização da amizade restrita a grupos, do desinteresse em aprender e da falta de respeito. Com relação ao professor, as causas destes problemas estaria no fato de ser muito calmo, tom de voz inadequado, aula não interessante, e de não ter autoridade. Alguns defenderam que o professor não devia ser autoritário, mas que apenas desse uma "boa" aula.
Todos foram unânimes em dizer que queriam mudar, da necessidade de se ter um ambiente favorável ao estudo. Esta opção de mudança, para nós, selava um compromisso a ser assumido.
Porém, as sugestões de mudanças sugeridas pelos alunos não atendiam às nossas expectativas enquanto filosofia de ensino. As sugestões dos alunos eram um tanto quanto conservadora e autoritárias. Os alunos queriam que o professor fosse "mais rígido, com mais "autoridade" e "maior domínio" sobre a turma, para que assim os alunos ficassem "mais quietos" e "se preocupassem com o futuro". No entanto, o nosso objetivo era o contrário e dele não abríamos mão: queríamos que os alunos assumissem os estudos e a disciplina em sala de aula como uma responsabilidade deles e não do professor.
Chamou-nos muito a atenção as diversas "falas" dos alunos. Em muitas dessas falas eles criticam o "discurso" escolar "todo ano se fala nisso e nunca muda". Quer dizer, todo ano se fala que o estudo é importante, da necessidade do respeito, que temos que ser colegas... mas, que na prática parece que nada muda. Daí os alunos estarem descrentes da possibilidade de mudanças. Certamente, depois de muitos anos de escolarização, verificaram que a instituição escola não mantém uma coerência entre o dito e o feito. Para a maioria dos alunos, a fala do professor se assemelha a um discurso demagógico a exemplo de certos políticos. Nesse mesmo sentido, os alunos contestam com veemência todas as formas de generalizações, exigem que o professor veja as especificidades.
Por outro lado, possuem uma certa clareza sobre a fase da adolescência e de suas ambigüidades. Na difícil tarefa de construírem suas identidades se deparam com dilemas como o da necessidade de estudarem e ao mesmo tempo dos apelos à amizade e a sexualidade. De certa forma gostariam de estudar conversando, conciliando os sentimentos da amizade com o estudo. Outro dilema e que foi objeto de longas discussões, é a de que os adolescentes são responsáveis para votar podendo até escolher o Presidente da República, mas que a sociedade não permite que possam dirigir uma automóvel aos dezesseis anos. Reclamam: a sociedade (Estado, família, escola) exige que sejamos responsáveis, mas eles não cumprem com suas responsabilidades. E o que dizer da indiferença de muitos alunos na busca dos conhecimentos (alunos desinteressados)? De se estudar só pela nota? Muitas vezes, na primeira aula, chegamos a contar dez alunos debruçados em cima da carteira dormindo. Indagados respondiam com certa revolta dizendo que necessitavam dormir. Alguns tinham sono devido ao trabalho, outros porque ficavam vendo televisão até altas horas da madrugada.
Os sentimentos dos adolescentes são muito fortes e às vezes vão além dos argumentos racionais. Numa aula um grupo de meninas se negava em participar da aula. Então sugerimos a elas que fossem a biblioteca e fizessem o que lhes agradasse e que ao final da aula nos trouxessem por escrito o que tinham feito. Apresento o relato de uma destas alunas.
"Eu li o "meu" livro, porque eu precisava acabar de ler até o último horário. Eu li o Diário de Um Mago, mas já li, as Valquírias, O Alquimista, Brida, Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei, O Monte Cinco, e comecei o Maktub. São todos do Paulo Coelho.
Gosto muito dos livros dele, porque tem vários conselhos para ser feliz e aproveitar a vida, tenho o objetivo de ler todos os livros dele, mas não seis se vou conseguir, pois os que haviam na biblioteca do colégio eu já li todos, vou tentar na biblioteca pública.
Eu também gosto da maneira que ele relata os fatos.
No último que eu acabei de ler, O Diário de Um Mago, tem vários "rituais", muito simples, que ajudam a afastar maus pensamentos e etc. Os resultados dão certo sem que você perceba.
O senhor já leu algum livro do Paulo Coelho? Qual? Qual é a sua opinião sobre o autor e seus livros? Tem algum para me emprestar"? (Caroline).
Infelizmente enquanto iniciante de professor reflexivo não soube explorar esse interesse das alunas. Limitei-me em responder às questões que me foram propostas dizendo que toda a leitura é importante, mas que devemos selecionar e variar estas leituras. Disse que não havia lido nenhum livro de Paulo Coelho e que este tipo de leitura não era aconselhável, pois ficava restrito ao misticismo. Comparei Paulo Coelho a música "brega" e indiquei outros autores de nossa literatura. As alunas ficaram em silêncio e um tanto espantadas.
Os adolescentes também revelam uma boa capacidade de compreensão sobre a atuação dos professores quando dizem que "a bagunça dos alunos está relacionada com a insegurança e fraqueza do professor". Em nossas aulas, foi de certo modo, isto mesmo que aconteceu. Enquanto professor que buscávamos um ensino reflexivo havia insegurança e confusão. Porém, com a diferença que esta "confusão" era objeto de reflexão e estudo do professor e dos alunos.
Na tentativa de garantir mudanças significativas na perspectiva de nossos anseios, tivemos a idéia de que teríamos que "materializar" nossas intenções de mudanças elaborando uma "breve constituição para a sala de aula". A metodologia e a proposta da constituição foram de iniciativa do professor. Os alunos concordaram. O trabalho foi planejado do seguinte modo:
1º) Solicitamos aos alunos que escrevessem suas histórias de vida. Para isso criamos um ambiente favorável em sala de aula em que o professor relatou sua história de vida, dando destaque às suas fraquezas e de como às havia superado desde a infância. A atenção e o interesse dos alunos foi total. Em seguida, após os alunos escreverem suas histórias de vida, era para discutirmos estas histórias em sala de aula e elencarmos alguns pontos em comum. Os alunos resistiram e não aceitaram tal encaminhamento, porque segundo eles, as histórias de vida traziam questões muito pessoais. Respeitamos os alunos e realizamos em casa esta síntese a qual em seguida foi devolvida à turma;
2º) Fizemos uma espécie de investigação refletindo sobre os valores que fundamentavam as ações dos alunos. Queríamos que os alunos refletissem sobre o valor do ser pessoa e de como se respeitar. Os alunos leram a Declaração Universal dos Direitos Humanos e algumas passagens da Bíblia por eles mesmo escolhidas em aulas ao ar livre;
3º) Realizamos uma reflexão sobre quais eram seus objetivos enquanto estudantes;
4º) Por fim, elaboramos algumas normas e punições para regulamentar a nossa convivência.
Não tínhamos claro a forma do texto. O objetivo não era apenas escrever uma "lei", mas escrever sobre nossas falas e do propósito de se assumir um compromisso de mudança com responsabilidade. O trabalho seguiu esta ordem: reflexões individuais, em grupos e por fim apresentação, discussão em plenária e votação.
Todo o material foi recolhido pelo professor que, em casa, redigiu o texto. Não daria para os alunos fazerem este trabalho em sala de aula? Penso que sim. Mais uma vez concentramos o trabalho em nossas mãos com receio de que com os alunos seria muito complicado fazer a sistematização. Apenas entregamos o manuscrito a duas alunas voluntárias que o digitaram. A seguir, apresento a "constituição da sala de aula".
NOSSA CONSTITUIÇÃO PARA A SALA DE AULA
Somos adolescentes e queremos vivenciar intensamente esta fase de nossas vidas. Temos um jeito diferente de ser. Somos ativos, contestadores, exigentes e sentimentais. "Somos honestos, sinceros e não temos medo e nem vergonha de falar ou protestar, somos educados, todos somos sentimentais e muitas vezes pensamos e agimos com o coração" (Marizélda e Geciéli). Estamos acostumados com a televisão, a música, a dança, a imagem e, por isso, sempre queremos coisas novas e diferentes (aulas interessantes). Talvez isto explique um pouco a nossa agitação. Somos gente que sonha e por esta razão, lutamos pelas transformações, embora nem sempre somos compreendidos.
Nossas histórias de vida trazem a marca de uma sociedade injusta. Temos problemas como: separação dos pais, briga entre os pais, desemprego, constantes mudanças de moradia, acidentes na infância, mortes na família e de amigos, pais em dificuldades financeiras, sentimentos de culpa pelo sofrimento dos pais, alcoolismo, problemas de saúde, dificuldade de relacionamento com os pais, punições injustas dos pais...
No entanto, temos também vivenciados momentos inesquecíveis em nossas famílias: incentivo ao estudo e ao esporte/lazer, solidariedade, valorização das amizades, reconhecimento ao trabalho dos pais, conciliação entre trabalho e estudo, recordações bonitas das brincadeiras da infância...
Concordamos que a escola é importante em nossas vidas, porém esta escola que aí está não é a escola que queremos. Muitos de nós tem rejeição ao estudo e a escola. Temos motivo para isso. Pouco somos ouvidos em nossas falas. Somos considerados mais como objetos que como sujeitos. Daí a nossa revolta. Na sala de aula o ambiente quase sempre é desfavorável aos estudo: conversas paralela, não concentração, desrespeito, orgulho, estuda-se pela nota, desinteresse, bagunça, piadas de mau gosto, atividades paralelas, apelidos, preconceitos, preguiça, agitação, gritaria, palavrões, contestação aos professores, jogam-se objetos, sala suja e desorganizada, barulho com as carteiras, mãos e pés, etc. Talvez, este seja um jeito próprio de contestarmos a escolarização que aí está e suas metodologias de ensino.
Apesar desse ambiente em sala de aula, o qual nem sempre é assim, temos um projeto em nossas vidas, embora nem sempre esteja claro. Queremos a aquisição de conhecimentos significativos, ligados ao nosso cotidiano, capazes de nos ajudar na compreensão de nossas vidas e do mundo que nos cerca. Queremos a nossa realização pessoal no sentido de construção de uma sociedade mais justa e humana.
Para superarmos os nossos problemas, em sala de aula, realizamos muitos debates reflexivos sobre nossas ações. Chegamos a conclusão que além de falar, de conhecer os problemas e suas causas, é necessário agir para superá-los. Para que a nossa ação seja organizada, coerente e séria, sistematizamos esta breve "constituição para a sala de aula".
A Nossos Princípios:
B Nossos Objetivos:
C Nossas Leis
D Nossas punições para os alunos infratores
E Nossas reivindicações
A elaboração da "constituição" foi uma forma de educar para a cidadania ativa. Os alunos vivenciaram o choque de interesses entre eles e da dificuldade de encontrarem consensos possíveis. Refletiram sobre a importância da lei na garantia de nossos direitos e da necessidade de participação para que isto de fato aconteça. Apesar de alguns alunos ficarem indiferentes e de levarem na brincadeira, a grande maioria se interessou e participou ativamente. As discussões na plenária, duração de três semanas, foram exaltadas e de muitas revoltas. Os alunos, em cada ponto, se referiam a determinados professores, fazendo desabafos contestadores, a revolta era muito grande. A coordenação da plenária a cada aula ficava a cargo de três alunos (mesa coordenadora), escolhida democraticamente entre a turma, que em muitos momentos perderam o controle da turma. A dificuldade de coordenar era tanta que em uma aula os alunos escolhidos se recusaram em assumir os trabalhos. Tínhamos de fazer intervenções constantes, pois os alunos, quando um iniciava a fala e esta era de interesse da maioria quase todos começavam falar ao mesmo tempo e até contornarmos a situação levava algum tempo. Acertávamos que não era assim, que devíamos seguir as normas do ítem 1 e 2 da constituição. Todos concordavam, porém, assim que surgia um novo ponto conflitivo todos voltavam a falar ao mesmo tempo de forma emotiva.
Quando concluímos estas reflexões sobre a "constituição" já estávamos no início do quarto bimestre. Tínhamos que fazer a redação final e a solenidade de assinatura da "constituição". Infelizmente, enquanto professor não dei conta de fazer a minha parte, isto é, incorporar as alterações sugeridas pela plenária. Fiz este trabalho nas férias. As alunas que haviam digitado a primeira versão do texto não o encontraram mais. Mesmo assim, ficou entre a turma um certo entendimento de como devíamos agir num diálogo reflexivo, pois ficaram com a primeira versão do texto.
Seguimos em frente em nossos estudos de Psicologia, agora com outros temas. Os alunos se cansaram da sexualidade. Então, seguindo as necessidades dos alunos, estudamos sobre as transformações no mundo do trabalho e as conseqüências para os jovens quanto a escolha profissional. Em seguida ainda estudamos sobre a influência da televisão em nossas vidas.
Embora estas duas temáticas fossem de interesse dos alunos, observamos que a maioria ficou indiferente às aulas. Negavam-se em fazer qualquer atividade ou até mesmo de falar sobre o assunto. Segundo estes alunos, suas preocupações, naquele momento concentravam-se nas outras disciplinas que faltavam notas para passar de ano e, como em Psicologia já estavam aprovados, então a matéria já não interessava mais. Mesmo aqueles alunos que participavam o faziam de um modo que em nada lembrava os compromissos assumidos da constituição e do diálogo reflexivo.
Enquanto professor fiquei indignado diante deste descaso e das falas desordenadas dos alunos. Nas duas últimas semanas de aula propomos aos alunos uma reflexão sobre o diálogo no sentido de uma avaliação das aulas do ano. A seguir apresento as minhas anotações sobre estas últimas aulas.
Últimas aulas de Psicologias:
O Professor iniciou a primeira aula fazendo uma reflexão sobre o diálogo. Disse que o diálogo é algo complexo que exige dedicação, coragem e esforço para praticá-lo. Em seguida, solicitou aos alunos se este era um tema que deveria ser novamente abordado. A resposta foi positiva. O professor fez uma avaliação das aulas de Psicologia realizadas durante o ano em que um dos objetivos era a prática do diálogo reflexivo, mas que na prática verificou-se a dificuldade de dialogar num coletivo de sala de aula. Embora os alunos saibam que para falar faz-se necessidade inscrever-se e ouvir o colega, não conseguem cumprir com esta regra. Argumentavam que não conseguiam guardar as idéias, por serem emotivos, instintivos e imediatos .O professor explicou que as nossas falas são importantes e devem ser registradas para, em seguida, serem interpretadas e sistematizadas. Que para dialogar num grupo é preciso planejar, marcar data, horário, avisar com antecedência sobre o assunto a ser tratado, para que todos possam se preparar.
Enquanto apresentávamos a turma a forma de dialogar num coletivo a necessidade e a problemática eles já haviam apontado em aulas anteriores a maioria dos alunos estavam conversando e fazendo outras atividades. Interrompermos a exposição, ouvimos os alunos e registramos no quadro as seguintes explicações:
Na aula seguinte propomos a prática do diálogo a partir de um tema escolhido pela turma. Dentre mais de seis temas indicados, o mais votado foi "sexo na adolescência". Fiquei impressionado, por que escolheram essa temática se haviam estudado exaustivamente durante o ano ao ponto de não quererem mais falar sobre o assunto? Em seguida discutiu-se a metodologia que ficou assim estabelecida: três alunos a favor e três alunos contra. Cada grupo teve 7 minutos para expor seus argumentos e em seguida fizeram duas ou três perguntas entre os grupos. Num segundo momento a turma perguntava a um dos grupos. Ficou estabelecido que as falas deveriam ser registradas por cada aluno.
* Argumentos contra:
- Os adolescentes não tem responsabilidade nem para pequenas ações do cotidiano, sendo assim não teriam condições de assumir a responsabilidade de uma relação sexual;
* Argumentos a favor:
Platéia:
Observações:
O debate durou cerca de 40 minutos. Apesar do acordo inicial sobre as regras e do encaminhamento democrático, tivemos muita dificuldade em coordenar os trabalhos. Muitos alunos se exaltaram e não respeitaram as regras anteriormente estabelecidas. Outros alunos não registraram nada, apenas ouviram. Cito como exemplo a atitude do Jamil do grupo a favor, quando o grupo contra estava expondo sobre a responsabilidade da relação sexual, ele tirou do bolso alguns preservativos e bateu no chão chamando a atenção que ele era responsável. Este gesto gerou confusão e atrapalhou a exposição do grupo. Tivemos dificuldade de registrar as falas por ter que estar a cada pouco contornando intromissões indevidas no debate. Apesar destes problemas, a turma como um todo, mostrou um certo grau de maturidade e foi possível o debate de forma dialogada. Muitas questões foram esclarecidas e outras novas surgiram. Penso que é preciso seguir com formas inovadoras de diálogo em sala de aula. Os alunos necessitam ter a oportunidade e a liberdade de dizerem a sua palavra. Porém, a forma de fazê-lo precisa ser construída, porque, segundo eles, quase nunca foi-lhes permitido dialogar abertamente em sala de aula. E isso é, para eles, em parte, uma aula interessante.
No final do ano letivo, a direção e equipe pedagógica solicitaram por escrito aos alunos uma avaliação de todos os professores. Apresentamos abaixo as colocações dos alunos sobre o meu trabalho. Esclarecemos que o espaço que os alunos tinham para escrever sobre cada disciplina era de duas linhas.
1º A:
1º B:
Chegamos ao final do ano com a impressão de que pouco tínhamos avançado. O sentimento era de que tínhamos de certo modo fracassado na tarefa de educar os alunos para o diálogo reflexivo. Os objetivos de nossa filosofia da educação pareciam ter se diluído nos comportamentos heterônomos dos alunos. Estes, na minha impressão, só agiriam com responsabilidade se fossem monitorados permanentemente. E, que talvez isto fosse próprio da adolescência.
Durante as férias, ao retomar os apontamentos das aulas, verifiquei que necessitava ouvir novamente os alunos. A avaliação feita pela direção era restrita e tinha um outro objetivo. Precisávamos confirmar nossas convicções com as falas finais dos alunos. Elaboramos então cinco questões e retornamos ao colégio.
Fomos recebidos pelos alunos com muita alegria e curiosidade. Muitos lamentaram a nossa não continuidade com eles neste ano. Informei que estava necessitando concluir as aulas de Psicologia do ano anterior e que para isto eles teriam que responder as questões propostas. Em grupos, em trinta minutos, prontamente responderam. A seguir apresento às questões e suas respectivas respostas.
Conclusão das aulas de Psicologia fala dos alunos 25.02.00.
1. Uma aula é interessante quando ...
2. Por que, em linhas gerais, não conseguimos enquanto turma, chegar aos final do ano capazes de dialogar disciplinadamente e democraticamente no coletivo conforme prescrições da nossa constituição por nós mesmos elaborada em sala de aula?
(Refletir sobre a dificuldade que a grande maioria tem de manter a coerência entre o pensar, falar e fazer).
3. Aponte em que sentido o trabalho do professor se diferenciou (se é que houve diferença) do trabalho dos outros professores?
4. Que sugestões vocês dariam ao professor que está tentando construir uma metodologia de ensino reflexivo?
5. O que levamos para nossas vidas das aulas de Psicologia?
VI. Considerações finais
Após estas falas dos alunos, desfez-se nossa angústia e desânimo. Verificamos que estes alunos conseguiram aprender muito do que tínhamos proposto. Que certamente estas aulas de Psicologia ficaram marcadas em suas vidas, pois tiveram a oportunidade de vivenciarem algo diferente na escola e que muito contribuiu e contribuirá em suas formações. Isto nos anima e confirma de certo modo que este é um dos caminhos possíveis de mudar o ensino escolar.
Penso que errei na avaliação precipitada sobre os alunos, ao considerá-los incapazes de dialogar reflexivamente, sem responsabilidade. Tive uma concepção muito "idealista", querendo que os alunos se enquadrassem num modelo perfeito no qual tinha idealizado. O processo das aulas, mostraram que a prática social da sala de aula é contraditória e confusa, tendo momentos de avanços e de retrocessos, nos quais o professor tem que ter a competência e habilidade de enfrentá-los e não perder de vista sua filosofia de trabalho, tendo paciência e persistência. O nosso trabalho revelou que as aprendizagens, principalmente quando se trata da formação da pessoa (ser) e da convivência, necessitam de um tempo razoável para se consolidarem. Neste sentindo o educar é um processo dialético de permanente construção.
Nosso trabalho certamente teria sido diferente se não fosse feito individualmente. Precisaríamos da participação de todos os professores da turma e da direção do colégio. Não o fizemos por duas razões: primeiro, por sermos iniciantes e de certo modo inseguros sobre a prática de um ensino reflexivo. Segundo, pelas próprias condições de nosso trabalho, extensa jornada e, também, pela própria estrutura de funcionamento do colégio que é a expressão da política educacional da Secretaria de Estado e Educação, a qual não possibilita espaço em horário de trabalho, para que os professores possam se reunir em grupos para refletirem sobre seus trabalhos.
Aprendi com os alunos como é importante as amizades e com elas as falas. Os alunos querem falar e chegam ao ponto de dizer como foi escrito na "constituição da sala de aula", no objetivo: "Conseguir tirar proveito pedagógico da bagunça, vez que para muitos de nós ela é permanente na sala de aula e não pode ser eliminada". Nas leis: Item 24; "As conversas paralelas são inevitáveis, fazendo parte do cotidiano da sala de aula e, como tal, devem ser consideradas pelos professores em suas metodologias de ensino" e no ítem 42; "O professor deve planejar a aula para que estudemos concentrado em determinado tempo e que seja reservado um tempo em cada aula para conversas livres". E em outros momentos: "[alunos] usam a inteligência e capacidade para conversar", "sempre temos coisas novas para contar", "alguns conversam excessivamente porque a escola é o único lugar onde se pode encontrar amigos". Ainda fica para o nós o desafio de como dar conta do ensino levando-se em consideração toda esta vontade de fala dos alunos. A impressão que tivemos é a de que estes alunos estavam proibidos de falar em casa, no trabalho, na rua e inclusive na escola, restando somente às aulas de Psicologia para dizer tudo. Talvez por tudo isso é que não conseguimos de fato que os alunos falassem disciplinadamente e democráticamente.
Outro ponto que me chamou a atenção foi o comportamento de muitos alunos. Um comportamento agressivo, de revolta, desordenado, enfim de indiferença. Enquanto professor senti este desrespeito . Apesar de nossa filosofia de educação ser democrática, livre e de acolhimento aos alunos, além de eles mesmos escolherem os temas a serem estudados, mesmo assim, não éramos respeitados. Por exemplo, ao entrarmos em sala de aula, a turma permanecia indiferente a nossa presença, continuando com as conversas e andando pela sala. Ao refletirmos do porque disto acontecer, o argumento era quase sempre o mesmo: necessidade de conversar sobre os relacionamentos, amizades, novelas, futebol, lazer, música, etc. Ao trazer estes assuntos para reflexão e estudo gerava uma espécie de desconforto e resistência nos alunos. A conversa, para eles, tinha de ser informal, e não ser transformada em objeto de reflexão. Enfim, até criarmos um ambiente favorável ao estudo em sala de aula, passava-se um bom tempo, e às vezes, toda a aula (duração de uma aula: 45 minutos). Em muitos casos, depois de tudo acertado para iniciarmos uma atividade, alguns alunos retornavam a conversar. Então chamávamos a atenção pelo desrespeito ao encaminhamento coletivo e democrático e estes alunos ridicularizavam nossa fala dando de ombros e debruçando-se sobre a carteira e ironizando com palavras de deboche. A impressão que tive é de que estes alunos, com este comportamento, queriam de certa forma, talvez, dizer: estudar para que? Refletir para que? Pareceu-me um vazio em que nada valia a pena. O comportamento tinha características, em termos de valores, de certos programas humorísticos de auditório da televisão brasileira no sentido de se permanecer na superficialidade. Mesmo entre eles, os alunos, as relações pareciam ser entre "coisas" e não entre pessoas que pensam e tem uma dignidade. As relações eram harmônicas no interior de cada grupo, mas extremamente conflitantes e excludentes entre os grupos. O outro era visto como alguém que eu tenho que diminuir e às vezes até destruir, para me afirmar. Surpreendia-me que numa das turmas, na primeira aula do dia, uma aluna e sempre ela, fazia uma oração inicial. Esta oração era uma reflexão dirigida a Deus e concluída muitas vezes com a oração do "Pai Nosso". A turma toda se concentrava e rezava com seriedade. Estavam no "céu". Concluída a oração, começava o desrespeito e a negação do outro. Estavam na "terra". E aqui na "terra" era como se estivessem num outro mundo em que a oração praticamente nada valia. Enfim, busquei mediante reflexões mostrar a eles que o "Deus" em que acreditavam era "metafísico" e que assim não havia sentido rezar. Que era preciso ver "Deus" no colega e na vida dos homens. Fui pouco compreendido ou talvez não consegui me fazer compreender, pois a forma de pensar dos alunos era extremamente dogmática e por conseqüência fechada.
O desgaste que tivemos nestas aulas foi enorme. O desgaste é físico, emocional, de voz e também intelectual. Na própria aula, nos momentos de maior conflito, tivemos dificuldade de organizar nossos pensamentos, pois a "pressão psicológica" dos alunos era intensa. Há na sala um descontrole de bate-boca, gritos, enfim pareceu-me ser uma fala guiada pelo instinto emotivo e não pela razão. Daí o desgaste do professor em fazer às mediações e retomar estas falas instintivas como objeto de reflexão. Às vezes, esta retomada irritava os alunos, pois não concordavam em refletir sobre o que consideravam de certa forma normal. Como trabalhava também no ensino superior, cheguei a dizer que preferia trabalhar dez aulas na Universidade em proporção a uma aula no Colégio. Concluímos que não é possível ser professor reflexivo com carga horária superior a vinte horas semanais em sala de aula. O registro das falas, as situações imprevistas, as contradições, enfim, o conhecimento sobre a vida dos alunos e de como trabalhar com as diferenças, requerem do professor muito tempo de análise, reflexões, busca de materiais e sobretudo de diálogo com seus colegas, para a busca de soluções conjuntas a cada semana. No meu caso, não dei conta, por exemplo de trabalhar com mais profundidade as "histórias de vida" dos alunos, explorar melhor aquelas falas. Também não dei conta de planejar para que os alunos sistematizassem suas falas, como foi no caso da sistematização da constituição da sala de aula. Por tudo isso, para o professor desenvolver um "ensino reflexivo" ou ser um "professor pesquisador", rompendo assim com a alienação da profissão, faz-se necessário condições dignas de trabalho, com redução significativa da carga horária semanal em sala de aula e de melhorias salariais.
Sobre as falas dos alunos, penso que quando "bem" interpretadas, constituem-se num valioso recurso de formação permanente de professores. Esta falas são como um "espelho" que reflete o trabalho do professor. Porém, um espelho que além de refleir uma imagem, oferece várias visões olhares diferentes com indicativos que apontam para mudanças. Faz-se necessário que o professor se veja muitas vezes nestas falas num processo de reflexão feito com calma e tempo. No dizer de Schon (1995), esta seria a "reflexão sobre a ação" e "reflexão sobre a reflexão na ação". Com este trabalho pude constatar o quanto aprendi e tenho que aprender com estas falas dos alunos.
Aprendemos enquanto professor que não basta possuir um razoável conhecimento sobre determinada metodologia, para em seguida desenvolvê-la com certa tranqüilidade em sala de aula. Isto é importante, mas não basta. A vida das pessoas, principalmente dos adolescentes numa instituição escolar, num contexto social como vivemos hoje, colocam problemáticas e desafios em sala de aula jamais previstos e imaginados, desde que estes tenham a liberdade de se expressarem e de serem ouvidos. Tudo isto requer do professor conhecimentos que vão além daqueles de sua área específica e, nesse sentido, o professor é desafiado constantemente a se atualizar com uma formação geral, além de se rever, mudar e auto-avaliar-se. Sendo assim, ser professor reflexivo é um desafio permanente que exige coragem, persistência e paciência.
Porém, este desafio não é constrangedor, desanimador e alienante. Ao contrário, sendo professor reflexivo a gente se encontra de verdade na profissão professor. A gente sente a transformação, pois nos sentimos imprescindíveis na formação das novas gerações, pois deixamos de ser meros repassadores de conteúdos sem "vida", para sermos sujeitos construtores de saberes junto dos alunos. Os alunos sentem e reconhecem a diferença do trabalho do professor em suas vidas. Há um reencontro entre alunos e professor numa nova atmosfera de convivência feita com sinceridade e diálogo crítico e reflexivo.
NOTAS
1. Professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), campus de Francisco Beltrão, Francisco Beltrão, PR; Doutorando em Filosofia da Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP.
2. Na terceira parte deste texto apresentaremos o conceito de pesquisa-ação. Ver Pereira (1998), Serrano (1990) e Elliott (1990).
3. Entendemos por aprender aquela capacidade construída pelo aluno no sentido de ser capaz de uma elaboração própria sobre determinado assunto estudado. Que o aluno seja capaz de expressar um outro conhecimento da ciência, da filosofia a partir de uma reflexão pessoal, enquanto sujeito ativo, que ao se relacionar com seu objeto de estudo, seja capaz de elaborar análises e sínteses a partir do contexto que vive numa perspectiva de visão de mundo cada vez mais elaborada e vinculada a classe social a que pertence.
4. Entendo por este "olhar" uma certa clareza sobre as concepções teórico-metodológicas que fundamentam às práticas educativas do professor e a partir daí que este tenha um instrumental de "pesquisa" que lhe dê conta de explicitar de forma coerente, unitária e contextualizada seu objeto de estudo. Neste trabalho, a nossa concepção tórica-metodológica fundamenta-se na "filosofia da práxis" Marx, Gramsci, Vázquez e Kosik. E o nosso instrumental de pesquisa é a "pesquisa-ação". Porém, esclarecemos que não negamos as valiosas contribuições de autores não marxistas a reflexão no ensino, aliás, elas são o ponto de partida de nossa metodologia de ensino. Buscamos, ao relatar as observações sobre nossas aulas, nesta reflexão, de forma preliminar e incipiente, incorporarar "dialéticamente" a metodologia do "ensino reflexivo" numa perspectiva marxista. Trata-se muito mais de uma incorporação no sentido de visão de mundo de que uma reflexão sistematizada.
5. Aristóteles observa que os jovens agem mais pela paixão do que pela razão. Diz "... um jovem não é bom ouvinte de preleções sobre a ciência política. Com efeito, ele não tem experiência dos fatos da vida, e é em torno destes que giram nossas discussões; além disso, como tende a seguir suas paixões, tal estudo lhe será vão e improfícuo, pois o fim que se tem em vista não é o conhecimento, mas a ação. (...) A tais pessoas, como aos incontinentes, a ciência não traz proveito algum; mas aos que desejam e agem de acordo com um princípio racional o conhecimento desses assuntos fará grande vantagem" (1991: 10).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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