Eduardo O C Chaves, Fala de Abertura do Educador 2000
Fala de Abertura de EDUARDO O C CHAVES, Coordenador Técnico do Educador 2000 Congresso Internacional de Educação, 24 de Maio de 2000
Em 1994, seis anos atrás, tive a oportunidade de coordenar e, portanto, de abrir e fechar, o Primeiro Congresso Educador. No último dia fiz uma palestra sobre o tema "Está a Escola com os Dias Contados?" (cujos slides estão disponíveis no meu site na Internet).
Seis anos se passaram e ainda considero o tema relevante suficientemente relevante para dedicar a ele estas breves reflexões iniciais. Vou abordá-lo, porém, de um outro ângulo.
Peter Drucker e Philip Kotler nos ensinaram que o conceito de marketing se aplica não só a empresas privadas, que buscam o lucro, mas a toda e qualquer instituição, até mesmo governamental e até mesmo a indivíduos. Aplica-se, portanto, às escolas (mesmo públicas) e aos professores. Nossa audiência aqui é composta, predominantemente, de gestores (administrativos e acadêmicos) de escolas e de professores.
Gostaria de iniciar nossas reflexões neste Educador 2000 perguntando: quem vocês, gestores de escolas e professores, consideram seus principais concorrentes neste final de século XX / início de século XXI?
A pergunta pode parecer despropositada pois em geral pensamos que nossos concorrentes são instituições e pessoas que atuam no mesmo segmento de mercado que nós. O concorrente da escola x seria, portanto, a escola y, talvez no mesmo bairro. O concorrente do professor x seria o professor y, que atua na mesma área.
A história dos últimos anos tem mostrado, porém, que essa é uma visão muito estreita da questão da concorrência.
Quando eu era menino, os líqüidos que a gente comprava para consumo doméstico (leite, refrigerantes) vinha em vasilhames de vidro (litros e garrafas). Imagino que se um dos fabricantes de vasilhames de vidro daquela época tivesse sido indagado sobre quais seriam os seus principais concorrentes teria indicado outros fabricantes de vasilhames de vidro.
Poucos desses fabricantes de vasilhames de vidro se deram conta de que a concorrência mais devastadora que iriam sofrer e que acabará por acabar com o negócio de vasilhames de vidro para líqüidos viria de fabricantes de plástico, de papelão, e de alumínio. No entanto, hoje, compramos refrigerantes em garrafas de plástico, leite e sucos em embalagens de papelão, refrigerantes em latas de alumínio. Os líqüidos vendidos em vasilhames de vidro estão desaparecendo. A concorrência, para os seus fabricantes, veio de lados totalmente inesperados.
Acredito que algo semelhante está acontecendo hoje com as escolas e os professores, bem na frente de nossos olhos, mas nós estamos nos recusando a ver o óbvio.
Permitam-me traçar mais uma analogia com o mundo empresarial.
Tradicionalmente as indústrias fabricavam seus produtos de forma padronizada e os enfiavam "goela abaixo" no mercado. A indústria era administrada do ponto de vista da oferta, não da demanda. Foi isso que permitiu que Henry Ford um dia dissesse que os seus clientes poderiam comprar um carro Ford na cor que desejassem desde que fosse preto. Ele fazia carros pretos a demanda, portanto, que se ajustasse à oferta.
Hoje em dia as indústrias perceberam que só sobreviverão se forem orientadas para a demanda. As indústrias que ainda teimam em ser conduzidas pela oferta o que temos para oferecer é isso: os clientes que se adaptem têm seus dias contados.
Nossas escolas e nossos professores ainda estão operando como as indústrias de antigamente: conduzidos pela oferta, não orientados pela demanda. Explico.
Tomemos, primeiro, as escolas.
Escolas devem ser agentes da educação. Educação tem que ver com aprendizagem. O ensino é apenas uma das formas de promover a aprendizagem. Como ressaltei em minha palestra no encerramento do Educador de 1994, a aprendizagem, e, portanto, a educação, também ocorrem através da interação no âmbito familiar, da observação desassistida, da leitura solitária, dos meios de comunicação de massa (rádio e televisão), de conversas e discussões entre amigos e entre pares, de projetos de estudo e investigação individual, de atividades de lazer (como viagens), da nossa participação, como cidadãos, na sociedade, e, fator extremamente importante, do exercício das atividades profissionais que cada um é chamado a exercer. Poderíamos ainda acrescentar as atividades de igrejas, partidos políticos, sindicatos, clubes de serviço, centros comunitários e assemelhados. Em nenhum desses casos o ensino formal e deliberado, como ministrado na escola, está envolvido. A aprendizagem, aqui, e, conseqüentemente, a educação, são tipicamente não-formais.
Pensemos, em primeiro lugar, na concorrência que as empresas fazem às escolas.
Vivemos hoje sob a égide da sociedade da informação e do conhecimento. A nova economia que aparece entre nós, privilegiando, como o faz, o trabalho com o conhecimento e o trabalho criativo, produz uma convergência entre trabalho e aprendizado. Quando você trabalha com conhecimento, trabalhar e aprender se tornam indistinguíveis. O trabalhador na nova economia pensa, se comunica, interage e colabora.
Na sociedade industrial na velha economia havia uma época para aprender e uma época para trabalhar. As pessoas iam à escola para aprender e depois de sair de lá, iam aplicar o que haviam aprendido. Hoje em dia as pessoas sabem que precisam aprender a vida inteira. O local de trabalho não pode mais ser simplesmente o local em que aplicam o que aprenderam em outro lugar: tem que ser um ambiente que contribui para a aprendizagem (e, portanto, para a educação) continuada das pessoas.
Porque a nova economia requer aprendizagem permanente, ao longo de toda a vida, o setor empresarial investe mais e mais na educação dos que ali trabalham. É por isso que hoje em dia há uma ênfase muito grande no fato de que as empresas devem ser organizações de aprendizagem organizações em que se aprende e que aprendem no processo. É por isso que as grandes corporações possuem unidades educacionais que elas mesmas denominaram de verdadeiras Universidades Corporativas. É por isso que, nos Estados Unidos, os recursos que as empresas investem na formação geral e profissional de seus funcionários já são maiores do que o investimento total do setor estatal na educação. Dados atuais mostram que o investimento das empresas na formação de seus funcionários não está crescendo 100% mais rápido do que os investimentos nas escolas tradicionais: está crescendo 10000% mais rápido [Tapscott, DE, 200].
Pensemos, em segundo lugar, nas ONGs Organizações Não-Governamentais. Muitas delas fazem hoje um trabalho extremamente importante na área da educação não-formal. O Instituto Ayrton Senna, a Fundação ABRINQ pelos Direitos da Criança, o Projeto Aprendiz, todas essas instituições são dedicadas a ajudar as crianças carentes a se tornarem protagonistas de seu próprio destino, aprendentes autônomos que, por terem aprendido a aprender, podem, dali para a frente, ter um papel muito maior na sua própria educação do que seria o caso se não tivesse havido a intervenção dessas instituições.
Pensemos, em terceiro lugar, nos Meios de Comunicação. Embora seja impossível negar que os meios de comunicação de massa e a Internet contenham e disseminem uma quantidade enorme de lixo e de material educacionalmente irrelevante (especialmente a televisão e a Internet), também não há como negar o seu potencial educacional e não só para a educação formal, a distância, mas especialmente para a aprendizagem colaborativa, de natureza não-formal, e para a auto-aprendizagem.
Poderia enfocar as outras instituições que concorrem com as escolas, mas não é necessário. O que já foi dito é suficiente. A concorrência que oferecem as empresas, as ONGs e os meios de comunicação de massa oferecem às escolas já é mais do que significativa para que os gestores de escolas se preocupem com o fato e não se deixem tomar de surpresa como aconteceu com os fabricantes de vasilhames de vidro para o armazenamento e a distribuição de líqüidos.
E no caso dos professores? Quem concorre com eles?
Antes de mais nada é forçoso assinalar que, se o espaço das escolas se reduz, na arena educacional, diminui também, relativamente, a área de atuação do professor que só sabe atuar dentro da escola e de forma convencional e não se sente à vontade para atuar, como educador, no contexto das empresas, das ONGs e dos meios de comunicação.
Mesmo dentro das escolas, a natureza do trabalho educacional que é realizado provavelmente exigirá do professor competências e habilidades que ele hoje não adquire durante a sua formação. Ilustro.
Observei atrás que na sociedade industrial as empresas desenvolviam o seu trabalho muito mais ao redor dos produtos que tinham para oferecer no mercado do que em torno das necessidades e dos desejos do mercado eram voltadas mais para a oferta do que para a demanda.
O professor convencional é, também, muito mais orientado para a oferta do que para a demanda. Ele tem um produto a oferecer o conhecimento de sua especialidade. O seu trabalho educacional dentro da escola convencional é transmitir esse conhecimento aos seus alunos, independentemente do fato se esse conhecimento satisfaz às necessidades, aos interesses e aos desejos de sua clientela. É por isso que a escola convencional é, muitas vezes, uma tortura para os alunos.
Mesmo os professores que permanecerem dentro da escola terão que ir ajustando sua filosofia e metodologia de trabalho para levar em conta a demanda as necessidades, aos interesses e aos desejos e de seus alunos. O que está mudando é o fato de que os alunos têm, hoje, como satisfazer suas necessidades, seus interesses e seus desejos na área educacional fora da escola.
E este fato nos traz ao que, do ponto de vista do professor, é o fato mais importante: ao mesmo tempo que o espaço educacional da escola se reduz e o espaço para um trabalho convencional dentro da escola se reduz mais ainda, escancaram-se portas para sua atuação em outros contextos.
Professores que possuem uma visão adequada do que está acontecendo e que souberam desenvolver em tempo as competências e habilidades que o mercado está a exigir deles nas áreas de design instrucional, de desenvolvimento de materiais para educação a distância e para a auto-aprendizagem, de animação de comunidades (presenciais ou virtuais) de aprendizagem colaborativa esses profissionais, tenham a certeza, nunca foram tão requisitados pelo mercado como hoje: para atuar na área de treinamento nas empresas (nas chamadas Universidades Corporativas), para coordenar projetos de educação não-formal nas ONGs, para atuar na área educacional dentro dos meios de comunicação (desde os jornais e revistas até a Internet, passando pelo rádio e pela televisão sabendo que tudo isto está convergindo para um só mega-meio de comunicação digital).
Portanto, nós, os que estamos envolvidos com escolas, seja como gestores, seja como professores, temos grandes desafios e excelentes oportunidades diante de nós no século em que estamos entrando. Resta saber se teremos a visão necessária para realmente compreendê-los e a coragem necessária para enfrentá-los.
É por isso que este Congresso se propõe a discutir NOVAS VISÕES DA EDUCAÇÃO não como algo dado e acabado, mas como algo a ser buscado ou, quem sabe, até mesmo inventado.
Espero que todos tenham uma experiência educacional realmente significativa nestes quatro dias.
Obrigado.