É preciso mudar, e agora?

A pandemia do coronavírus e o “novo normal” da educação, que vem se desenhando e será apresentado para nós em algum momento nos próximos meses, está exigindo de nós, educadores, muitas mudanças. Não se trata, apenas de fazer o que sempre fizemos presencialmente, agora a distância, o que já seria um desafio. Os mais experientes no uso de tecnologias, que são as primeiras pessoas a quem recorremos nesse cenário de caos, insistem em dizer que, além de lidar com o problema da distância física, temos de mudar a nossa concepção pedagógica e olhar para o processo de aprendizagem dos nossos alunos de uma maneira completamente nova!

Toda mudança já traz consigo um desafio. Grandes mudanças trazem grandes desafios. Quando essas mudanças precisam acontecer rapidamente, então estamos, realmente, diante de uma situação totalmente desafiadora. Este é exatamente o cenário que estamos vivendo hoje.

A boa notícia é que esta situação é transitória. A partir do momento em que fomos obrigados a sair do lugar ao qual estávamos acostumados e começamos a caminhar em direção a outro lugar, iniciamos um processo que teve um começo e terá um fim. O fim será um novo lugar onde, aos poucos, nos sentiremos confortáveis novamente. E isso vai acontecer mais adiante, acredite em mim.

Há cerca de quatro anos iniciei, junto de meus alunos e colegas do curso de Licenciatura em Química do IFSP Campus Capivari, um processo de mudança semelhante. É verdade que nós não fomos obrigados a mudar, naquela ocasião. Mudamos porque escolhemos mudar. Tomamos a decisão de iniciar um projeto de inovação, e ele era bastante disruptivo. Vínhamos todos, estudantes e professores, refletindo sobre a necessidade de mudar a partir da constatação de que o modelo de educação que reproduzíamos não se traduzia em aprendizagem de qualidade e, consequentemente, em transformação da vida das pessoas e da sociedade, como acreditávamos que deveria ser. Essa inquietação coletiva foi suscitada de diversas formas. Desde um grupo de estudos de pedagogias alternativas, que estava levando os professores a refletir seriamente sobre suas práticas havia alguns anos, até alguns processos de Design Thinking e alguns cursos voltados à reflexão sobre educação, que estavam mexendo com a cabeça de estudantes e professores no campus.

Constatar que o que fazemos não é bom, adequado ou suficiente, não é tão difícil. A maior parte dos professores e estudantes reconhece, com facilidade, que sua vivência na educação está muito aquém daquilo que poderia ou deveria ser. O problema é o que fazemos após essa constatação.

Em primeiro lugar, saber que algo não está bom não implica, necessariamente, em saber o que deve ser feito em lugar do que sempre foi feito. No nosso caso, conhecer experiências exitosas e teorias que as fundamentam foi essencial para entendermos que precisávamos mudar. Mas não sabíamos exatamente o que fazer, pois havia muitas possibilidades diferentes, e não dá para importar modelos prontos quando se fala de inovação em educação. Saber o que fazer, sem dúvida, era o primeiro desafio.

Mas o segundo e maior desafio era colocar um plano de mudança (qualquer que fosse) em prática. Parar de apenas querer fazer e fazer de fato. Agir. Sair do plano teórico e mergulhar na prática.

Esse passo é, de longe, o mais complicado. Primeiro porque nós temos medo (muito medo) de não dar certo, de não sabermos exatamente o que fazer quando os problemas começarem a surgir (e eles certamente aparecem). Temos medo até mesmo de não saber o que fazer antes de os problemas aparecerem! “Será que sabemos exatamente o que estamos fazendo?”, “Será que temos conhecimentos, habilidades e competências suficientes?”, são alguns dos questionamentos que insistem em surgir, sempre em tom desencorajador.

Mas, para além dos nossos medos, ainda precisamos enfrentar uma série de outras barreiras e limites externos, que dizem respeito a outras pessoas, à sociedade, às leis, à cultura de um modo geral. Sofremos pressões de todos os lados. Somos pressionados pelos estudantes, pelas famílias dos estudantes, pelos nossos gestores dentro da escola, pelos gestores de instâncias superiores, para além da escola, e até mesmo pelos nossos pares, que se incomodam quando algum colega começa a fazer o que eles chamam de “inventar moda”, ou “querer aparecer”…

Dar o primeiro passo no caminho desconhecido é muito desconfortável. Na verdade, em experiências de inovação, por mais que planejemos com antecedência, que calculemos riscos, que tentemos antecipar os problemas, o fato é que sempre teremos de lidar com situações completamente novas, inesperadas, e com a sensação de que, em diversos momentos, sequer haverá caminho sob os nossos pés. Teremos de dar o passo e torcer para que o caminho surja debaixo deles.

Mas enfim, juntos, de forma coletiva, demos o primeiro passo ainda no final de 2016, quando planejamos, junto com os estudantes do quarto semestre do curso de Licenciatura em Química, como deveria a ser a escola ideal, coerente com uma concepção que entende que cada estudante é singular, que tem seus interesses, talentos, estilos e ritmos de aprendizagem, mas ao mesmo tempo é um ser social, que se constrói na relação com o outro.

Inspirados em experiências como as da Escola da Ponte, de Portugal, e do Projeto Âncora, da cidade de Cotia, em São Paulo, criamos o que seria um projeto piloto, para acontecer em uma disciplina no início do ano seguinte, mas que acabou se transformando em um projeto de inovação do curso inteiro.

O foco central do projeto era o tão falado deslocamento do estudante, da periferia para o centro de seu processo de aprendizagem. Naturalmente isso implicou em uma mudança no papel do professor, que não poderia mais ocupar aquele espaço agora ocupado pelo estudante. Ao reinventar o papel do estudante, tivemos de reinventar o nosso próprio papel.

Em vez de aulas e provas, o trabalho pedagógico passou a se organizar em torno de aprendizagem por investigação ou aprendizagem baseada em projetos. Isso significa que, ao chegar ao campus, todos os dias, os estudantes não iam mais para as salas de aula assistir aulas, mas iam para diversos espaços diferentes, incluindo laboratórios de química, laboratórios de informática, biblioteca, espaço maker, auditório, pátio, refeitório e até mesmo… salas de aula. Enfim, o espaço que fosse mais adequado para o desenvolvimento das atividades planejadas.

Outra mudança importante, foi que, em vez de nós professores planejarmos o que os estudantes aprenderiam ou fariam a cada dia, eram os estudantes que faziam esse planejamento.  Mas cada estudante tinha um plano diferente, de acordo com aquilo que ele queria aprender em um intervalo de tempo que ele mesmo definia. Até mesmo a forma como ele iria aprender era escolhida por ele.

Para viabilizar essa descentralização do planejamento, nós criamos juntos, estudantes e professores, um instrumento que chamamos de “nuvem de objetivos”. A partir da leitura crítica do Projeto Pedagógico do Curso, em especial dos Planos de Ensino de cada disciplina, com suas ementas, objetivos e conteúdos, nós definíamos juntos quais seriam os objetivos básicos, que todos os estudantes deveriam atingir ao longo do semestre, e quais seriam opcionais, isto é, em que os estudantes que quisessem poderiam se aprofundar.

Nós incluímos, ainda, nessa nuvem, alguns objetivos chamados não cognitivos, relacionados à área socioemocional, e também ligados ao desenvolvimento da autonomia dos estudantes. Estes últimos objetivos seriam desenvolvidos com o apoio dos professores, não como especialistas em uma área do conhecimento, como de fato éramos, mas como orientadores. Para isso, dividimos pequenos grupos de estudantes para cada professor, e esse professor acompanhava os estudantes mais de perto, apoiando em seu planejamento e no desenvolvimento de sua rotina.

Para dar uma ideia de como as inovações mudaram radicalmente os papéis dos professores e estudantes nesse novo formato, não fazia mais sentido o professor ter um plano de ensino e nem mesmo um diário de classe com uma lista de chamada. Em lugar disso, cada estudante construiu seu próprio roteiro de aprendizagem, seu planejamento diário e fazia o seu próprio controle de presença. Sim, o controle de presença era feito pelos estudantes, que registravam em uma planilha o horário de chegada e de saída. Afinal, falamos tanto em autonomia, mas normalmente controlamos os estudantes de tal forma que não deixamos, sequer, que eles controlem sua própria frequência!

Também não fazia mais sentido uma prova ou outro formato de avaliação definido pelo professor para verificar se os estudantes aprenderam ou não. A avaliação estava a serviço deles, logo eram eles que solicitavam ser avaliados, quando considerassem que já tinham atingido determinado objetivo. E a forma como seria feita essa avaliação também era definida em conjunto, de acordo com o estilo de cada estudante.

Ao perceberem que a aprendizagem era um processo deles, que poderia acontecer em qualquer espaço, e não somente dentro da sala de aula, fomos questionados pelos estudantes sobre a necessidade de manter um modelo de educação presencial diário. Ora, se eles poderiam aprender sozinhos, ou em pares, ou em pequenos grupos, porque precisariam se deslocar diariamente de suas casas, muitas vezes em cidades mais distantes, para ir ao campus? Confesso que, ao refletir sobre aquela pergunta, não consegui encontrar uma justificativa, que não a limitação burocrática imposta por um modelo de curso classificado como “presencial”. É lógico que, em vários momentos, eles teriam de estar no campus para o desenvolvimento de atividades coletivas ou até mesmo para utilizarem os recursos que eles tinham disponíveis lá, como os laboratórios de química, por exemplo. Mas eu sabia que, na prática, isso não aconteceria todos os dias, e que nos dias em que eles precisassem apenas de livros, ou de acesso à Internet, eles poderiam, muito bem, permanecer em casa, desde que tivessem acesso a esses recursos lá. E a grande maioria dos estudantes tinha.

Veja que surpresa o destino reservou para nós… Três anos depois, a pandemia não apenas permitiu, mas os obrigou a ficar em casa. E, de repente, esse modelo de educação, que era tão disruptivo, pode passar a se tornar o padrão, o “novo normal” da educação daqui a algum tempo…

O projeto sofreu muitas mudanças desde o seu início efetivo, em fevereiro de 2017. Mudanças que podem ser vistas como avanços ou retrocessos, a depender da lente que se usa. Era parte da proposta, afinal, que o projeto passasse por um constante processo de ajuste e aperfeiçoamento, feito de forma coletiva, construído a várias mãos, com toda a complexidade envolvida em processos democráticos.

Entretanto, de tudo o que vivemos, podemos dizer, primeiro, que com muito estudo, esforço coletivo e vontade de fazer, nós conseguimos construir um projeto de inovação de verdade, que, neste momento, tem sido objeto de estudo de pelo menos quatro pesquisas de Doutorado. É um projeto cheio de falhas e de necessidades de ajustes, que vêm acontecendo até hoje, mas conseguimos.

Em segundo lugar, e aqui está a nossa principal conquista, podemos dizer que tiramos esse sonho do papel e partimos para ação. Não apenas vencemos pressões e limites externos, inclusive normas e leis, mas especialmente vencemos nossos próprios limites, medos, inseguranças. Enfrentando todo tipo de oposição, saímos da nossa zona de conforto, rumo ao desconhecido e chegamos até aqui.

Se valeu a pena? Sem dúvida! Especialmente agora, nesse momento de pandemia, podemos olhar para trás, constatar o quanto avançamos e dizer que estamos mais bem preparados para lidar com o “novo normal”.

Em Salto, 22 de junho de 2020.

Paloma Chaves

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