Há (dois) ano(s) uma utopia se tornava realidade…

Escrevi esse relato em forma de post no Facebook há exatamente um ano, em 2018, quando fazia um ano que eu havia passado na seleção do Doutorado em Educacão da USP. Hoje o Facebook me trouxe essa memória, e achei que o relato merecia vir para meu Blog.

Primeiro por se tratar de uma passagem autobiográfica significativa para mim. Segundo porque pode servir de inspiração para outros jovens e adolescentes que, assim como eu, não nasceram com a vida ganha, e por sua desvantagem na largada, terão de correr mais se quiserem cruzar a linha de chegada…

Na corrida do conhecimento, como diz o querido Nilson José Machado, diferentemente da corrida do mercado, não existem restrições quanto ao número de vencedores. Todos aqueles que enfrentarem e superarem suas próprias limitações, sejam elas internas (biológicas, psicológicas, espirituais), sejam elas externas (sociais, ambientais), cruzarão a linha de chegada e receberão o seu merecido prêmio. Isso porque o prêmio dessa corrida não é limitado ou finito, como o dinheiro, ou as riquezas de um modo geral, mas é ilimitado e infinito. O conhecimento não precisa ser dividido entre os vencedores. Mas, ao ser partilhado, ele ainda se multiplica…

É verdade que, no caminho, precisaremos da ajuda de muita gente. Dificilmente venceremos sozinhos essa corrida. Mas se não corrermos, ninguém correrá por nós. Então, faça a sua parte, e agarre cada oportunidade que surgir em sua vida com as quatro mãos!


Quando publiquei esse post, no ano passado (2017), queria ter escrito um textão autobiográfico, mas estava tão, mas tão extasiada, que não tive condições emocionais de escrever mais nada além de “Doutoranda na USP!”.

Hoje, celebrando o primeiro aniversário desse dia histórico em minha vida, vou gastar alguns minutos para tentar escrever o que eu não consegui antes.

Fui a primeira pessoa da minha família a concluir o Ensino Superior. E não foi em uma universidade pública, pois seria esperar demais de uma pessoa que estudou a vida inteira em escolas públicas, estaduais, e que sequer cursou o Ensino Médio regular (antigo Propedêutico), uma vez que optou por fazer um curso técnico.

Indecisa entre Técnico em Enfermagem e Magistério, acabei optando pela segunda alternativa, muito inspirada nas brincadeiras de infância, de professora das minhas amiguinhas lá no Parque CECAP, em Guarulhos, onde vivi até os 12 anos de idade. Essa escolha excluiu de minha formação as disciplinas de Química, Física, Biologia e até mesmo a Matemática de nível Médio, a não ser por uma introdução que era oferecida no primeiro dos quatro anos do Magistério, tentando garantir uma base mínima dessas disciplinas a todos os estudantes. Todos os conteúdos que deixei de conhecer na escola eram exigidos nos vestibulares de todas as faculdades, creio que muito mais até do que hoje em dia… Meu finado amigo Alexandre, carioca esperto, de Madureira, Engenheiro Naval formado pela UFRJ e colega do meu pai no banco onde ele trabalhava, ainda se dispôs a me ajudar com esses conteúdos (com exceção de Biologia), mas, apesar dos estudos com ele, muitas vezes no quiosque da praia, em Ubatuba, onde morei na adolescência, eu sabia que não seria fácil…

Sinceramente, a inscrição no vestibular da USP foi apenas para cumprir tabela. Achei, mesmo, que seria muita areia para o meu caminhãozinho… Qual não foi minha surpresa quando eu percebi que, se eu tivesse me inscrito em Pedagogia nessa que foi a única universidade pública para a qual prestei vestibular, teria passado, pelo menos, para a segunda fase. No entanto, como se não bastassem todos os percalços que passamos durante nossa escolarização, a maioria de nós ainda costuma viver a crise de não ter um projeto de vida aos 17 anos, quando temos que tomar decisões que nos são apresentadas como decisivas para o nosso futuro. A verdade é que eu estava indecisa entre Direito e Pedagogia. O Direito surgiu por incentivo de pessoas próximas que achavam que eu era eloquente e tinha boa capacidade de argumentação, o que me ajudaria a ser uma boa advogada. Além disso, professora (já) era uma profissão tão desvalorizada… Na verdade, a sociedade sempre acaba pressionando a gente a escolher aquilo que ela idealiza como sendo a melhor profissão, em outras palavras, o que vai proporcionar mais estabilidade financeira e que vai possibilitar que a gente seja mais respeitada. Quanta bobagem…

Eu não tinha dinheiro para ficar prestando vestibular em tudo quanto é lugar. Então, além da USP, escolhi outras duas instituições privadas (sem saber como eu poderia pagar as mensalidades, caso viesse a passar). Na USP eu não podia escolher duas opções em áreas diferentes. Então escolhi só Direito. Na FMU e no Mackenzie, pude escolher tanto Direito quanto Pedagogia. Para decepção da minha querida professora de Língua Portuguesa do Magistério, Helô (uma lenda viva em Ubatuba), não entrei na USP, onde ela tinha certeza de que eu conseguiria. Mas, como prêmio de consolação, passei em Pedagogia nas outras duas. No Mackenzie o curso era vespertino, o que limitaria minhas possibilidades de arrumar um trabalho para sobreviver. Além disso, a chance de eu conseguir uma bolsa era muito remota, pois só havia bolsas próprias da Universidade, e eu fui informada de que, normalmente, apenas pessoas ligadas à Igreja Presbiteriana (especialmente filhos de pastores) ou outros casos muito excepcionais, conseguiam essas bolsas. Na FMU, além de o curso ser noturno (o que me abriria mais possibilidades de arrumar um trabalho), eles ofereciam o chamado Crédito Educativo (do governo FHC). Felizmente, em pouco tempo consegui tanto o trabalho, quanto o financiamento, além da ajuda preciosa de muitos amigos que ora me cediam uns vale-transportes, ora uns vale-alimentação, além de ajuda para outras despesas. A moradia, que seria o mais difícil, eu consegui pela generosidade da minha tia Josira, que abriu as portas da casa dela, onde sempre cabe mais um. Sou grata não só a ela, mas aos meus primos Moises, Helder e Tati por terem me aturado por seis meses na casa deles. Assim, deixei a casa dos meus pais em Ubatuba com um cheque do meu pai para pagar a primeira mensalidade, e passei a cuidar de minha vida a partir dali.

No final do primeiro ano da faculdade acabei me casando e, quando cursava o terceiro ano, tive minha primeira filha. Em seguida, tão logo concluí a faculdade, tive a segunda filha, e assim uma possível carreira acadêmica foi interrompida por tempo indeterminado.

Na verdade eu nem almejava uma carreira acadêmica. Na verdade, mesmo, eu nem sabia se seguiria carreira na área da educação. Decepcionada com a área, e acreditando que eu não tinha a menor vocação para trabalhar ali, passei alguns anos sendo exclusivamente mãe, e depois fui trabalhar em uma pequena empresa de tecnologia que tive com me ex-marido, onde, apesar de trabalhar na área administrativa, acabei aprendendo bastante sobre informática, tendo me tornado uma usuária mais avançada do que a maioria das pessoas que eu conhecia no uso de tecnologias. Poucos anos depois passei em um concurso na Prefeitura de São Bernardo do Campo, e aos 25 anos tomei aquela decisão que as pessoas achavam que eu tinha que ter tomado aos 17 anos. Finalmente eu tinha um projeto de vida! Escolhi a educação. Descobri que eu poderia contribuir para o mundo ser um lugar melhor se eu ajudasse as pessoas a se transformar por meio da educação.

Comecei trabalhando nas séries iniciais da educação básica, e, em seguida, passei a trabalhar com o uso de tecnologias na educação, inclusive com formação continuada de professores para o uso pedagógico das tecnologias. Essa experiência acendeu em mim o desejo de, futuramente, trabalhar na formação inicial de professores. Mas, infelizmente, esse era um futuro muito distante, pois, como já não havia mais o curso de Magistério, para trabalhar nessa área eu precisaria cursar uma pós-graduação, e se uma especialização parecia difícil, um Mestrado e um Doutorado pareciam impossíveis. Uma utopia…

Mais de doze anos se passaram desde que eu terminara minha graduação. Minha vida passou por transformações profundas e radicais (algumas até traumáticas), mas, finalmente, o Mestrado estava acontecendo, graças ao incentivo e apoio do meu parceiro de vida, Eduardo Chaves. E não era em uma instituição qualquer. Era na PUC-SP, uma universidade tão bem conceituada, mas que eu nem cogitei estudar na graduação (apesar da insistência de outras duas professoras importantes em minha vida, a Malu Borim e a Sonia Bomfim, também do Magistério), porque sabia que não teria recursos para pagar as altas mensalidades… E como se não bastasse estar na PUC, ainda tive o privilegio de ser orientada pelo Prof. Fernando Almeida, que eu tanto admirava.

Descobri que é verdade que o Mestrado dói. A gente tem de aprender tanto, em tão pouco tempo, que me parece impossível sobreviver a ele sem muito sofrimento. Mas, enfim, eu sobrevivi. E a dor foi tão forte, que eu não quis nem pensar em fazer Doutorado. Como eu trabalhava em escola de educação básica, onde esse tipo de título acadêmico nem é tão valorizado, estava satisfeita com o Mestrado.

Entretanto, a vida, que não para, deu mais algumas voltas, e aquele sonho de trabalhar com formação inicial de professores se tornou realidade no IFSP. Nesse contexto, o Doutorado passou a ser algo importante dentro da minha nova carreira. E assim, três anos após concluir o Mestrado, passei a sonhar com o Doutorado. Mais uma vez com o incentivo e apoio do meu marido e melhor amigo, escrevi e submeti um projeto. No entanto, em minha primeira tentativa, não passei no exame de proficiência em inglês… Imaginei que minha dificuldade seria a aprovação do projeto, mas, enfim, foi no inglês que meu sonho ruiu…

Foi bem difícil lidar com a frustração. Eu estava em uma fase da vida em que parecia que tudo que eu fazia, prosperava. Eu havia acabado de passar em um concurso concorrido no IFSP, em que havia uma única vaga! Um trabalho escrito com duas amigas acabara de ser aceito em um congresso em Portugal. Uma proposta para ministrar uma oficina de Design Thinking para Educadores, pela Pró- Reitoria de Ensino do IFSP, havia sido selecionada. Mas quando a autoestima da gente fica abalada, não importa tudo o que fizemos até ali. A única coisa que conseguimos pensar é que somos um fracasso, mesmo. Que era muita pretensão minha querer entrar justamente naquela universidade pública na qual eu não havia conseguido cursar nem a graduação. Quem era eu para querer aquilo? Fora isso, tinha o peso da expectativa das pessoas que me cercam… O marido tinha certeza de que eu conseguiria. As filhas. Os amigos. A família… Que difícil carregar tanta expectativa nos ombros!

Ao longo daquele ano, no entanto, tive a felicidade de experimentar muitas coisas boas junto aos meus alunos e colegas do IFSP. Nesse processo nasceu o projeto de inovação da Licenciatura em Química, do IFSP Capivari. E esse projeto me fez voltar a sonhar… No ano seguinte mexi um pouco no projeto que eu havia submetido no processo anterior da USP (e que nem chegou a ser apreciado), incluindo coisas que eu havia aprendido de forma tão significativa ao longo daquele ano. Criei coragem, e tentei outra vez. Com muito mais humildade. Com muito menos expectativas…

E, então, aconteceu…

Meu projeto foi aceito pelo Prof. Ulisses Araujo, alguém que eu não apenas admirava, mas com quem havia aprendido tanto em suas aulas de Psicologia de Educação, ao lado da Profa. Valeria Arantes, no Canal da UNIVESP, em minha preparação para ministrar aulas de Psicologia da Educação no IFSP.

Enfim, foi um sonho, dos grandes, que virou realidade diante dos meus olhos, a essa altura, quase incrédulos… Quase, porque no fundo eu sou uma otimista inveterada e sempre acabo acreditando que coisas boas podem acontecer. Se eu fosse totalmente incrédula, talvez nem tivesse tentado outra vez, né? Mas tentei. E deu certo.

Apesar de eu ser grata a Deus e a todas essas pessoas que mencionei nesse textão, e a outras pessoas que fizeram parte da minha história, me fazendo ser quem eu sou, hoje eu dedico essa conquista à minha professora Helô. Ela foi a primeira a ter tanta certeza de que eu estudaria na USP (e sua decepção lá em 1993 deixou isso bem evidente), que plantou em mim a semente que, a seu tempo, deu o seu fruto. Obrigada, Helô. Não sei se essa mensagem vai chegar até você, mas a minha gratidão é imensa.

Paloma Chaves

Em Salto, 10 de Julho de 2019.

Sobre ser Bela, Recatada e do Lar…

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.

 (Clarissa Pinkola Estés – Mulheres que Correm com os Lobos)

Passada a indignação inicial, acho que já consigo pensar um pouco melhor sobre o assunto.

Historicamente a mulher foi oprimida pela sociedade machista, que impôs um rígido padrão de comportamento onde ela foi, com sua “fragilidade tipicamente feminina”, subestimada, subjugada e relegada a tarefas “menos complexas”, que não exigiam dela grande capacidade intelectual.

Se de um lado nunca se exigiu grande coisa de sua capacidade intelectual, de outro se exigiu muito de sua capacidade moral! Mulher precisa ter um comportamento moral irrepreensível! Não pode ter desejo sexual, por exemplo. Sua sexualidade precisa estar sob controle, contida, represada.

Já o homem pode tudo. Pode até “pular a cerca”, afinal, ele é homem, e homens são “fracos” nessa área. Eles só são fortes intelectual e fisicamente. Além disso, a sexualidade masculina é muito importante para ele, por isso precisa ser levada em consideração. Já a feminina “não existe”, por isso não precisa ser considerada.

Muitas mulheres, ainda hoje, se empenham para ser exatamente essa moça bela, recatada e do lar. Elas até podem trabalhar fora de casa, principalmente se não forem ricas, se não tiverem a sorte que a Marcela Temer tem de ter alguém que a sustente. E ela até pode ter algum destaque em sua carreira profissional. Mas não muito. Não pode brilhar mais que o marido. E, principalmente, não pode permitir que a profissional cresça em detrimento da esposa e da mãe… Jamais!

Caso algum filho fique doente, a profissional deve jogar para o alto todos os seus compromissos para se dedicar à sua função de mãe perfeita. Se o marido precisa de alguma ajuda, sem titubear a profissional larga imediatamente suas responsabilidades e corre para ser a esposa perfeita. A profissional não precisa ser perfeita. Já a mãe e a esposa precisam. E ser perfeita não passa de sua obrigação. Não é mérito algum.

O homem, por sua vez, não precisa se preocupar com essas coisas. Se em algum momento faz algum sacrifício dessa natureza por sua família, ele demonstra extrema generosidade, e é merecedor de todos os elogios possíveis, além da gratidão eterna de sua esposa.

Durante muitos anos eu fui essa mulher que me empenhava para ser bela, recatada e do lar. Até escova definitiva eu fiz em meu cabelo, durante anos, para contê-lo, para ficar mais adequada ao padrão de beleza vigente. Durante muitos anos fui a “esposa perfeita”, recatada, a mãe perfeita, que se dedicava, quando não exclusiva, prioritariamente às filhas.

Do lar eu não podia ser, por força de circunstância, embora, tenha até tentado. Fiquei alguns anos sem trabalhar para me dedicar exclusivamente ao papel de mãe. Mas a pressão foi tão forte, em função dos recursos financeiros limitados, que eu acabei cedendo e, aos 25 anos, voltei a trabalhar, mas jamais com intenção de me destacar em minha carreira. Eu precisava contribuir financeiramente com minha família. Era “por eles, não por mim”.

E assim eu vivi muitos anos de minha vida. E a igreja sempre teve papel importante nesse processo. Até que um dia as coisas mudaram (mas não cabe agora eu entrar em detalhes sobre como foi esse processo)…

Porém, vale destacar algo muito importante que eu descobri nesse momento: Mais importante do que ser bela, recatada e do lar, é parecer ser. Parecer é mais importante do que ser. E aí está o maior problema.

Muitas mulheres se esforçam para parecer ser o que não são. E fazem isso de forma tão sistemática, que acabam enganando não somente aos outros, mas a si próprias! E isso é muito triste.

Não há nenhum problema em ser bela. E embora possamos até fazer algumas coisas que contribuam para nossa beleza, muitas vezes a beleza acontece sem que seja necessário qualquer esforço. Existem mulheres naturalmente lindas. O problema é quando a beleza se torna obrigatória, sob pena de quem não a possuir, não ser aceita na sociedade. E especialmente quando essa beleza, para ser considerada beleza, precisa seguir um padrão específico: loira, de cabelo liso, preferencialmente de olhos claros, com uma relação peso x altura dentro de um padrão de proporcionalidade específico (Marcela?).

Também não há nenhum problema em ser recatada (reservada, modesta, singela, despretensiosa, austera, comedida). As mulheres não precisam querer ser o centro das atenções. Não precisam se destacar por serem comunicativas, extrovertidas, ativas, líderes, autoridades, etc. O problema é quando elas não podem ser nada disso, sob pena de serem mal vistas, “mal faladas”, inadequadas.

Do mesmo modo, não há nenhum problema em ser “do lar”. As mulheres não precisam exercer nenhuma profissão para ter seu valor reconhecido. Além disso, considero um privilégio poder cuidar da casa e dos filhos. Não é tarefa fácil, diga-se de passagem. Isso sem contar a importância dessa função para a formação dos filhos. Quantas crianças estão abandonadas à própria sorte, por não terem pai ou mãe, e vivem na rua, ou, na melhor das hipóteses, depositadas em uma escola. O problema é a mulher ser criticada por trabalhar fora, e ser responsabilizada por sua eventual ausência no lar em função do trabalho que exerce, enquanto o pai, ou marido, é valorizado justamente por ser trabalhador, independentemente de sua omissão em seu papel de pai.

O problema é a valorização de um padrão de beleza e comportamento específicos em detrimento de outras tantas possibilidades diferentes. E alguém pode até dizer que a reportagem, em nenhum momento, quis dizer que esse é o padrão que deve ser valorizado, senão que estava apenas falando do padrão de Marcela.

Mas, por “coincidência”, esse padrão de Marcela foi o que imperou durante muito tempo, oprimindo mulheres que não se enquadravam nele. Depois de tanta batalha, começando, talvez, com as sufragistas inglesas, e em seguida as americanas, que lutaram para que as mulheres tivessem o direito de ser ativas na sociedade, escolhendo seus representantes políticos. E depois delas vieram tantas outras, e foram tantas as conquistas. Por que, agora, uma matéria de revista começar a valorizar justamente um estigma do qual foi tão difícil que a mulher se livrasse? É, no mínimo, uma escolha muito infeliz sobre como abordar a vida de Marcela.

Eu me lembro do dia em que ganhei de minha amiga Ariadne Carozzi o livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, de Clarissa Pinkola Estés. Foi libertador…

Lendo as histórias do arquétipo da mulher selvagem, adquiri consciência a respeito do lobo selvagem que estava dentro de mim. De repente tudo fez sentido. De repente, os cachos voltaram aos meus cabelos. De repente eu não precisava mais corresponder às expectativas da sociedade machista que ainda insiste em ditar como a mulher deve se comportar. De repente eu podia ser eu mesma, com minhas virtudes e meus defeitos. E ser aceita. E respeitada. E amada.

Em Salto, 22 de Abril de 2016.

Ano Novo, Vida Nova – trabalho novo, carreira nova

Nunca essa frase feita fez tanto sentido em minha vida, afinal, o ano de 2015 encerra uma série de ciclos importantes. Neste post me aterei à minha vida profissional, embora as grandes mudanças que estão acontecendo envolvam outras esferas importantes de minha vida.

No último dia 10 (10/12/2015), não apenas terminei minha relativamente curta carreira no Colégio Visconde de Porto Seguro (digo relativamente, primeiro porque já passei mais tempo em outros trabalhos, como na Secretaria de Educação de São Bernardo do Campo, por exemplo, onde fiquei por mais de oito anos, e segundo porque, perto de alguns colegas que passaram mais de quarenta anos no Porto, minha passagem por lá, de quatro anos e meio, até que foi rápida), mas também encerro minha carreira nas séries iniciais da Educação Básica, com ênfase no trabalho como especialista em uso da tecnologia na educação. Não que eu vá deixar de lado a tecnologia, até porque nem seria mais possível, mas o meu foco não mais estará na reflexão sobre teorias sobre o uso pedagógico das tecnologias digitais na Educação Básica, uma vez que irei expandir essas reflexões acerca da educação como um todo, em suas diversas dimensões.

A partir do próximo ano iniciarei uma nova carreira no ensino superior. Desde o último dia 11 (11/12/2015) sou funcionária pública federal, docente no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, no Campus Capivari. Lecionarei, inicialmente, no curso de Licenciatura em Química. No próximo semestre serei responsável pelas disciplinas de Psicologia da Educação, para a turma que iniciará o terceiro semestre do curso, e História da Educação, para a turma do primeiro semestre. No caso desta última turma, iniciaremos juntos no ensino superior. Eles como alunos, e eu como professora.

Trabalho com formação de professores há muitos anos, mas sempre na formação continuada, não na inicial. Desde quando me formei no curso de Pedagogia sonhava em trabalhar com formação inicial de professores no então curso de Magistério. O problema foi que o Magistério foi extinto justamente quando eu cursava Pedagogia, e, embora eu tenha até chegado a fazer estágio de regência lá, nunca pude trabalhar efetivamente nessa área. Quando concluí meu Mestrado, em 2012, quinze anos depois, o desejo de ir para essa área ganhou força novamente, e eu esperei até que chegasse o momento certo de mudar.

Eu sempre soube que o trabalho que eu desenvolvia na formação de professores para o uso de tecnologias digitais se tornaria, um dia, obsoleto. Quando iniciei, considero que os professores não eram nem imigrantes digitais. Eu diria que eles eram estrangeiros digitais, pois a maioria não tinha sequer contato com a tecnologia digital em sua vida pessoal. Quando era necessário utilizar computadores, eles recorriam a seus filhos ou outras pessoas que pudessem ajuda-los no manuseio daqueles equipamentos. Não raras vezes tive de ensinar professores até mesmo a ligar o computador, pois eles nunca tinham feito isso. Mas eu sabia que esse fenômeno não duraria muito tempo. Era um período de transição, pois os nativos digitais já estavam no mundo, e em breve eles cresceriam e ocupariam um lugar à frente das salas de aula.

Quando eles começaram a chegar à docência, meu trabalho deixou de ser ajuda-los a se apropriar das tecnologias como um todo, e se concentrou na apropriação do uso pedagógico das tecnologias, pois, embora eles já utilizassem tecnologias digitais em sua vida pessoal, em sua experiência como alunos nunca tinham usado computadores na escola, e eles não conseguiam enxergar as possíveis contribuições do uso das tecnologias para a aprendizagem na escola. Entretanto, o tempo passou, e muitos desses alunos que estavam na escola ao longo dos últimos 15 anos, experimentando o uso das tecnologias já como alunos, chegaram à posição de professores. Portanto eles já possuem um repertório digital pedagógico, que dispensa o trabalho de um profissional da minha área no dia-a-dia.

Não quero dizer com isso que essa fase já esteja superada. Ainda há muitos professores imigrantes digitais que precisam de parceiros mais experientes nessa área, mas aos poucos os próprios professores nativos digitais poderão ser esses parceiros, e dentro de alguns anos, acredito, o profissional de tecnologia educacional como hoje o conhecemos, se tornará absolutamente dispensável.

Muitos desses profissionais têm se reinventado, e têm se dedicado a uma formação mais técnica, para atuar em uma frente que, conforme eu discuti no artigo Novos Rumos na Área de Tecnologia na Educação, está ganhando força. Trata-se do trabalho com robótica educacional, linguagem de programação, produção de games, além de outras experiências relacionadas à chamada “Cultura Maker”. Esses profissionais que usam a tecnologia não apenas como ferramenta de aprendizagem, a serviço do currículo, mas como um componente curricular, ou como conteúdo propriamente dito, estão se tornando cada vez mais necessários, e é muito louvável o trabalho que eles vêm desenvolvendo. Acontece que eu nunca me vi como uma profissional da área de tecnologia. Sempre me vi como profissional da área de educação, que usa a tecnologia para favorecer o processo de aprendizagem. Por isso sempre me vi como uma pessoa que foi cooptada pela área de tecnologia, e quem me conhece de perto certamente já me ouviu falar sobre isso.

Agora, finalmente, estou voltando para a área da qual nunca saí. Com um grande desafio: formar professores para um sistema de ensino que caminha a passos largos para a falência. Pretendo, junto com meus alunos, descobrir maneiras de reverter esse processo, ou criar maneiras de transformá-lo radicalmente. Certamente trata-se de um grande desafio, que me dará muito trabalho, que exigirá muito tempo de pesquisa, mas sinto que não poderia ser em momento melhor, e em uma instituição mais apropriada.

Que venha 2016!

Em Salto, 31 de Dezembro de 2015.

O Dia em que Desenvolvi Minha Consciência Negra

No inverno de 1991, aos dezesseis anos, vivi doze horas que mudaram completamente minha visão de mundo em relação ao racismo, discriminação e preconceito.

Eu morava em Ubatuba, naquela época, e vim passar uma semana em São Paulo, na casa de algumas tias. Minha primeira parada foi na casa da querida tia Josira, mãe dos meus primos Helder Celso e Moises da Rocha Filho. Naquele tempo eles faziam parte de um grupo de samba, chamado Pé de Moleque. Recentemente o Pé de Moleque voltou a se apresentar, depois de anos separados.

Na época havia oito integrantes no grupo, todos jovens, amigos, pessoas realmente muito bacanas e queridas! Todos negros… Meus primos, filhos do famoso Moises da Rocha (d’O Samba Pede Passagem, da rádio USP), também são negros, embora filhos de mãe branca. Naquele tempo o Pé de Moleque se deslocava de ônibus para fazer seus shows…

Eles se apresentariam em duas casas naquela noite fria de Julho. Uma em Moema, e outra no Ipiranga. Não me lembro os nomes das casas… Acho que a do Ipiranga se chamava “Tulipão”, ou algo do gênero. Saímos em um grupo grande: os oitos integrantes, a namorada de um deles (também negra), a mulher do meu primo, Sandra (branca) e eu, além da minha tia e, acredito, minha “priminha” Tatiane, que na época devia ter uns sete aninhos (hoje já é uma mulher, e cada vez mais linda).

Procuramos algum lugar para comer antes da apresentação. Passamos na porta de alguns restaurantes em Moema, e foi aí que minha experiência surreal teve início.

Os restaurantes mais bacanas ainda estavam meio vazios, pois era relativamente cedo. Mas quando chegávamos com um grupo de aproximadamente doze pessoas, sendo a grande maioria de negros, ouvíamos dos maîtres que os restaurantes estavam lotados… (Lotados?!?!?!). Ao serem questionados sobre as mesas vazias eles diziam simplesmente que estavam todas reservadas… Demorei a acreditar que era porque “éramos” negros… Mas chegou uma hora, depois de algumas tentativas, que ficou evidente… Acabamos comendo um lanche no próprio barzinho onde eles iam se apresentar…

Saímos de lá e fomos para o Ipiranga. Acho que minha tia e minha prima não foram para essa segunda casa. Estava ficando tarde… Seguimos apenas os integrantes da banda, e as três mulheres… Eles tocaram até umas 3h ou 4h da manhã. Em seguida saímos, de madrugada, para pegar o ônibus perto do Museu do Ipiranga. Após esperar um pouco o ônibus passou, relativamente vazio. Fizemos o sinal. Mas ele passou reto… Mais uma vez fiquei surpresa e sem entender o que havia acontecido. Por que o ônibus não teria parado? Estava vazio! Era madrugada! Estávamos no ponto esperando por ele!

Após a cena se repetir por umas duas vezes, entendi, mais uma vez, a razão de não haver espaço para nós no ônibus… Resolvemos, então, “enganar” os motoristas… Os oito rapazes se afastaram da calçada, ficando meio escondidos em baixo da cobertura do ponto de ônibus, e as três meninas, sendo duas brancas, fizeram sinal. O ônibus parou. Quando começamos a subir as escadas, os rapazes foram saindo da cobertura do ponto e caminhando em direção ao ônibus. Surpreendentemente, o motorista, simplesmente, tentou arrancar, mesmo com a gente pendurada na porta, subindo os degraus. Havia um policial dentro do ônibus. Ele já colocou a mão em sua arma e caminhou em direção à porta para “proteger” os poucos passageiros que estavam no ônibus, de nós! Começamos a dizer que só queríamos entrar no ônibus, que outros já haviam passado e não haviam parado, que não podíamos ser impedidos de entrar no ônibus só por causa da… “nossa”… cor…

O policial, ainda desconfiado, mandou o motorista manter a porta aberta para que todos nós entrássemos. Ficamos sentados no fundo, sob a mira daquele policial. Como se fôssemos uma ameaça à sociedade…

Chegamos no ponto que queríamos, em alguma estação de metrô. Uma parte do grupo foi embora, sentido metrô Conceição, onde morava a maioria. Meu primo Helder Celso, seu amigo Marcelo Nikimba e eu pegamos o metrô no sentido do centro. Íamos dar uma esticada na noite…

Esperamos o metrô começar a funcionar. Descemos na estação Anhangabaú e fomos até uma casa de shows, cujo nome, eu também não me lembro… Ao chegarmos lá meu primo bateu na porta e foi logo recebido com um largo sorriso por um senhora negra, cuja simpatia desapareceu tão logo ela notou minha presença. Notei, então, que lá só havia negros. Nenhuma pessoa branca, a não ser eu. Meu primo justificou minha presença, dizendo que eu era prima dele, mas nem o prestígio dele foi suficiente para convencê-la. Ela me mediu da cabeça aos pés e logo encontrou uma razão para barrar minha entrada. Estávamos todos muito próximos, em pé, ao lado dela, e ela olhou bem para o rosto do meu primo e disse: “ela não pode ficar aqui, pois esta noite está acontecendo o baile dos anos 30 (ou 20), e só podem entrar pessoas… calçando sapatos”. Eu estava de tênis. Tentei olhar se havia mais alguém de tênis, mas não consegui. Fiquei constrangida. Ela se referiu a mim como se eu nem estivesse presente, ouvindo cada palavra que saia da boca dela. Depois de haver sofrido a discriminação por estar em um grupo de negros, naquele momento estava sendo discriminada por ser branca. Tive que aceitar.

Saímos de lá e fomos para uma outra casa. Na entrada meu primo explicou para o recepcionista que eu era prima dele. O sujeito me mediu, deu uma risada e disse: Ahã… Sua prima… Ok, pode entrar.

Nossa noite acabou animada e tranquila. Animada ao som da cantora Lecy Brandão. Tranquila porque havíamos sobrevivido a todo tipo de agressão, e ainda estávamos felizes, curtindo nossa juventude, a música e os laços de família, cujo sangue é sempre vermelho, e não preto ou branco…

Depois dessa noite, nunca mais consegui achar graça em piadas racistas.

Obrigada queridos primos, Helder e Moiseizinho… Talvez vocês não saibam disso, pois eu nunca contei essa história antes, a não ser em privado, para algumas poucas pessoas. Mas vocês mudaram minha vida…

Carta de honra e gratidão – Aos meus pais Ana Maria e José Machado

Queridos pai e mãe…

Há mais de dez anos fiz um curso na Igreja onde aprendi sobre uma tradição do povo judeu de escrever uma carta de honra a pessoas importantes em sua vida.

Desde então decidi que escreveria uma carta de honra a vocês. Procurei imaginar uma data especial em que eu entregaria essa carta, como uma celebração de Bodas, ou outra ocasião em que pudéssemos reunir o maior número possível de parentes e amigos, para que eu pudesse honrá-los diante dessas pessoas que são importantes a vocês.

Sinceramente eu não sei que tantas coisas me mantiveram ocupada nos últimos dez anos, mas o fato é que eu nunca cumpri o que havia decidido.

O tempo nem sempre é generoso, e, às vezes, o adiamento de planos significa a impossibilidade de concretiza-los. Mas, felizmente, o tempo está sendo generoso comigo, e está me dando uma oportunidade de escrever esta carta a vocês hoje.

Com o advento das redes sociais, eu não preciso mais de um evento para ter a oportunidade de reunir uma grande quantidade de familiares e amigos. Hoje estamos todos conectados. Por isso esta carta é pública.

Sou muito grata a Deus por Ele ter me escolhido para ser filha de vocês dois. Tenho lembranças sempre muito felizes ao lado de vocês.

Lembro-me da Dora, nossa vizinha, certa vez me dizer que eu era privilegiada, pois eu nunca ouvia meus pais brigarem um com o outro. Realmente… É até difícil imaginar como deve ser difícil ser criança em um lar onde os pais vivem em pé de guerra… Imagino que vocês tivessem os desentendimentos de vocês, mas acho que a hora do banho era a hora de acertar as contas, de forma discreta, sem expor os filhos a conflitos que pertenciam só a vocês. Obrigada por esse cuidado.

Sei que a vida não foi fácil para vocês, mas sei o quanto vocês se dedicaram para nos proporcionar uma vida confortável, com direito a realização de sonhos…

Lembro-me dos presentes do “Papai Noel”, em que escolhíamos na vitrine de Natal do Mappin aquele que era o desejo do nosso coração, e vocês não mediam esforços para atende-lo, parcelando, muitas vezes, durante um ano inteiro o pagamento daquele sonho…

Adorava ser surpreendida durante a madrugada, quando dormia na minha cama, e acordava dentro do carro, indo viajar para alguma praia ou camping, vendo o sol nascer na estrada. Vocês nos carregavam com carinho, mesmo quando já éramos bem pesadas (hoje eu sei que filhos não são leves como plumas… ). E ainda hoje eu posso ver o brilho nos olhos de vocês ao ver nossa alegria naqueles momentos… Isso é amor.

E as cantorias? Foram tantos momentos felizes, cantando um repertório delicioso de músicas, no carro ou na banheira: “Aqui vive alegre pessoal, família bem original, um pai, uma mãe, uma irmã, outra irmã, e o bebê tão miudinho e gentil…”, “O mundo gira depressa, e nessas ondas eu vou…”, e por aí vai…

Lembro-me de alguns momentos difíceis, quando você, mãe, arrumava formas de ganhar dinheiro, vendendo roupas usadas, vendendo produtos de catálogo “Stanley”, e tantas outras situações de sacrifício. Você também, pai, sempre se esforçou em seu trabalho, e às vezes, em seu próprio negócio, como o Lava-Rápido onde eu passava as minhas tardes, tentando adivinhar qual era o carro que ia passar, só pelo som do motor dele se aproximando… Tudo se tornava divertido quando estávamos juntos.

Hoje, mais do que nunca, eu sei o que representou para você, mãe, parar de trabalhar durante dez anos, só para cuidar de mim e da Patricia. Quero que saiba que sou muito grata a você por isso. Tive o privilégio de estar com você em minha primeira infância. Um momento tão importante para a formação de valores… Tenho tanta consciência da importância disso, que procurei fazer o mesmo pelas minhas filhas…

Lembro-me quando, no final do dia, resolvíamos fazer uma surpresa para o pai quando ele estava chegando do trabalho. Colocávamos três bonecas na cama, no lugar em que costumávamos ficar sentadas, e nos escondíamos… Ele, então, entrava em casa e dava de cara com as bonecas, e nós três aparecíamos e dávamos muita risada…

Mesmo depois que você voltou a trabalhar, estava sempre por perto, cuidando da gente… Sempre admirei sua capacidade profissional. Além de pontual, você sempre foi muito responsável com as atribuições inerentes ao seu trabalho. Aprendi sobre isso com você.

Com você, pai, aprendi que a vida precisa ser leve… Não faz sentido passar a vida longe da família, sob o pretexto de que temos de prover as necessidades da própria família. Nossa presença é mais importante. E você sempre foi muito presente.

Sempre me orgulhei de você, por ser uma pessoa divertida, bem humorada, e muito inteligente. Quando você passou duas vezes em primeiro lugar no concurso do Banco do Brasil em Ubatuba, você só mostrou para as outras pessoas isso que eu já sabia. Você é uma pessoa com a qual se pode conversar sobre qualquer assunto, e eu admiro muito isso em você…

Quando eu vejo o quanto meus primos gostam de você, eu penso como sou privilegiada por ser sua filha, e por poder conviver com você muito mais do que eles.

Você é, também, um exemplo de generosidade, pai… Quantas vezes você via uma família num ponto de ônibus, quando um temporal estava se armando, e parava, convidava as pessoas para entrar no carro (às vezes um fusquinha que mal comportava nós quatro), eu e a Patricia nos espremíamos no “bauzinho” de traz, e você levava a família até a porta de sua casa, que muitas vezes era totalmente fora da nossa rota. O que movia você a fazer isso, senão o amor e a generosidade?

Pai e mãe, vocês me ensinaram valores muito importantes, que fazem parte de mim, sem os quais eu não me reconheço. Justiça e honestidade, bondade e responsabilidade, amor e respeito, humildade e esforço são alguns deles. Obrigada por me ensinar, não com palavras, mas por meio do exemplo de vida de vocês, essas coisas.

Mas o melhor presente que vocês me deram, que eu considero a herança que vocês já me deixaram em vida, é a fé e o temor a Deus. “Ensina a criança o caminho que deve andar e ainda quando for velho, não se desviará dele.” Provérbios 22:6.

Vocês levaram esse versículo a sério… Quantas vezes pegamos o ônibus na Dutra e depois o metrô, para ir até a igreja, ou na Metodista da Água Fria, ou na Metodista Central… O convívio com a palavra de Deus fez toda a diferença em nossa formação… Apesar das falhas e limitações, se hoje estou de pé, acolhida pelo amor de Deus, é graças às sementes que vocês possibilitaram que fossem plantadas no fundo do meu coração. Obrigada!

Quero que saibam que eu amo vocês, e tenho o maior orgulho de carregar os sobrenomes Epprecht e Machado. Quero que saibam que eu me preocupo com vocês e sinto-me impotente, muitas vezes, pois gostaria de estar mais perto para ajuda-los quando vocês precisam de ajuda.

Que Deus os abençoe cada vez mais…

Beijos…

Paloma

Em São Paulo, 31 de Agosto de 2014.

[Publicado originalmente, no Facebook]

Um novo tempo… Em minha carreira também.

Em Janeiro de 2008 iniciei uma experiência mágica em minha carreira. Após cinco anos trabalhando com formação de professores para o uso pedagógico da tecnologia, e também com implantação de laboratórios de tecnologia da informação nas escolas da rede municipal, tirei uma licença da Secretaria de Educação e Cultura de São Bernardo do Campo, e fui para o Instituto Lumiar, realizar o sonho de trabalhar com a proposta inovadora daquelas escolas, ao lado de meu, então, amigo Eduardo Chaves.

Minha tarefa, privilegiada, era assitir ao Eduardo, presidente do Instituto, na difícil tarefa de articular o referencial teórico com a prática pedagógica da escola. Na ocasião havia duas escolas, uma em São Paulo, na Rua Bela Cintra, e outra em Santo Antônio do Pinhal, próxima de Campos do Jordão.

Meu trabalho se restringia à Lumiar de São Paulo, pois minha amiga Daniella Dupont era responsável pela escola de Santo Antônio do Pinhal, que fica no bairro do Lageado, zona rural da cidade. A Lumiar de lá é fruto de uma parceria entre a prefeitura e o Instituto. Portanto, trata-se de uma escola pública, que implementou de forma muito bem sucedida a metodologia da Lumiar.

Após alguns meses, ainda pelo Instituto, assumi a função de coordenadora pedagógica da escola da Bela Cintra. A partir de então, eu não apenas identificava as necessidades e propunha estratégias, mas também cuidava de sua implementação, junto à gestão da escola e à equipe de tutores e mestres.

Algum tempo depois, em função de algumas mudanças na escola, acabei assumindo a direção da escola, “emprestada” pelo Instituto, até que fosse possível a contratação de uma nova pessoa para a direção. Essa fase coincidiu com um período de profundas mudanças em minha vida pessoal. De um instante para outro eu me vi em meio ao período mais turbulento de minha vida, com importantes desafios em meu trabalho, e seríssimos desafios em minha vida pessoal.

Enfim, tudo passa, e aquela fase difícil também passou… Após dois meses, dois tutores assumiram a co-direção da escola e eu voltei ao trabalho no Instituto Lumiar, que vislumbrava novas perspectivas.

Com a proposta pedagógica mais consolidada e a prática pedagógica caminhando para ficar mais afinada com a proposta, o Instituto começou a investir em projetos na Europa, inclusive contratando uma pessoa para atuar em Londres. No Brasil, uma nova escola começou a ser gerada. A Dani iniciou e eu dei prosseguimento ao processo de implantação da Escola Lumiar Internacional, uma escola bilíngüe, também localizada em Santo Antônio do Pinhal (ao lado da outra escola). A escola bilíngüe começou a operar em 2009.

No final do ano, a Dani acabou sainda do Instituto, e eu passei a coordenar pedagogicamente as três escolas. Foi um tempo muito especial, de grande aprendizagem. Durante todo esse tempo, tive oportunidade de participar de alguns eventos nacionais e internacionais, dando palestras sobre a experiência da Escola Lumiar. Os eventos internacionais estavam relacionados à parceria da Lumiar com a Microsoft.

Felizmente poderei viver sentindo que tive o privilégio de contribuir, ainda que um pouquinho, para o processo de construção de uma escola inovadora, que busca, em suas próprias contradições, caminhos novos que a aproximem da utopia de sua proposta.

Como saldo desse período em que trabalhei lá, a matriz de competências, que é o currículo da Lumiar, foi aperfeiçoada, a organização dos projetos de aprendizagem foi reestruturada, e o processo de avaliação de competências começou a ser estruturado.

No entanto, após quatorze meses que revolucionaram a minha vida, por razões essencialmente pessoais, tive de fazer uma escolha. Minha licença de São Bernardo do Campo estava para terminar e eu deveria decidir se me exoneraria, ou se retornaria. Ponderei muito e concluí que deveria voltar – não mais para a Secretaria de Educação, mas sim para a sala de aula. Decidi que queria, após tantos anos longe da sala de aula, experimentar, bem de perto, tudo aquilo que eu aprendi e até ajudei outras pessoas a aprender sobre a metodologia de projetos de aprendizagem, focados no desenvolvimento de competências, sobre a avaliação de competências, e o uso pedagógico e inovador da tecnologia.

Retomei o trabalho em São Bernardo no último dia 6. Foi emocionante! Minha turma, de 25 alunos, é realmente especial. Tenho dois alunos considerados como portadores de necessidades educacionais especiais, mas, sinceramente, questiono esse diagnóstico…

Tenho tido o privilégio de desenvolver competências relacionadas ao trabalho de alfabetização, que, infelizmente, nunca tive oportunidade de desenvolver. Para acrescentar a cereja que faltava no meu pudim, estou tendo a honra de trabalhar na escola que minha querida amiga Roseh dirige. Realmente está sendo um tempo muito bom…

Como se tudo isso não bastasse, fui convidada por minha, também, grande amiga Mary Grace, a trabalhar em um projeto de formação de professores da Fundação Telefônica e do Cenpec, que mistura o uso pedagógico da tecnologia, reflexão sobre a gestão e qualidade da educação e a erradicação do trabalho infantil. O projeto se chama Programa Aula Fundação Telefônica.

Sou muito grata a Deus por TUDO o que Ele tem permitido que eu viva… Até pelas coisas que ainda não estão tão perfeitas…

Agora estou aqui, durante este feriado de Páscoa, trabalhando com bastante entusiasmo. Após três dias de aula tive o privilégio de parar para me organizar, planejar, estruturar materiais e me preparar melhor para começar de fato esse novo tempo em minha carreira…

Em São Paulo, 10 de Abril, de 2009.

Jantar Agradável

Que coisa boa é poder sair com amigos queridos…

Acabamos de retornar de um jantar muito agradável em uma pizzaria de São Bernardo do Campo.

Música ao vivo de ótima qualidade cantada por Dilma Ramalho. À mesa, a companhia gostosa de Mary, Rose, André e João Lucas (ainda na barriguinha da Rose).

No restaurante várias outras colegas de São Bernardo, atraídas pelo talento da Dilma. Eduardo pertinentemente sugeriu que a cantora recebesse pelo menos 50% do faturamento, pois, certamente, a maior parte da clientela escolheu o local por causa dela.

Precisamos repetir isso mais vezes… Não custa caro e é tão bom!

Isso é viver uma vida frugal.

Acho que agora teremos mais oportunidades… 🙂

Em São Paulo, 20 de Março de 2009.

Minha Filha

Para começar a aquecer esse blog, vou publicar a última coisa que publiquei em meu antigo blog “Professora Paloma”.

Trata-se de uma pequena homenagem que fiz à minha filha mais velha, Bianca, em seu aniversário do ano passado, no dia 04 de novembro.

Segue a transcrição abaixo.

Em São Paulo, 18 de Março de 2009.

o-O-o

O Nascimento

Há exatos doze anos minha vida estava prestes a se transformar definitivamente.

No dia anterior eu havia recebido em casa alguns amigos e parentes para um evento muito especial: O “Chá da Bianca”.

Minha gestação havia atingido o oitavo mês havia uma semana.

Minha barriga estava grande e pesada, mas muito bonita. Não tão bonita quanto a pessoinha que dentro dela estava… Minha primogênita Bianca.

Aguardávamos ansiosamente por sua chegada. Um presente de Deus, a despeito das previsões pessimistas de minha médica, que, em função de uma dupla incidência de trombose ocorrida sete meses antes da gravidez, achava que aquela gestação poderia complicar minha saúde.

Lá estava eu, naquela manhã do dia 03 de novembro de 1996. Amanheci sentindo algumas dores… Tão leves, tão delicadas, como a Bianca.

Aparentava uma leve cólica, porém, como eu poderia sentir cólica, se estava grávida?

Minha inexperiência não me permitiu perceber que aquele era o início do trabalho de parto…

Após algumas horas sentindo aquelas leves dorzinhas, notei que o intervalo entre uma dor e outra diminuía a cada novo evento, então percebi que o nome daquela cólica, na verdade, era contração. Meus Deus! Estava chegando a hora!!!

Corremos para o hospital e ao ser examinada: – A Sra. está em trabalho de parto! Afirmou a auxiliar de enfermagem…

Senti muito medo. O que me aconteceria nas próximas horas?

Minha médica estava retornando de uma viagem e por telefone discutiu com a enfermeira a possibilidade de segurarmos por mais algumas semanas aquela gestação, afinal havia apenas 36 semanas que eu estava grávida.

A decisão: eu deveria retornar para casa, permanecer em repouso absoluto e tentar prolongar ao máximo aquele processo de parto que se iniciara.

Contrariando, no entanto, as orientações médicas, continuei passeando por todo o dia, sentada no carro, na companhia de dois primos que moravam em Santos e estavam em casa em função do Chá da Bianca.

Ao final do dia, por volta de dez horas da noite, enquanto os primos eram levados à rodoviária, eu, em casa, sozinha, percebi que aquela dorzinha que me acompanhou o dia inteiro havia se tornado mais compassada.

Notei que algo diferente havia acontecido, e, ao conseguir contato telefônico com minha médica, que estava na estrada, a caminho de São Paulo, retornando de uma viagem ao interior, soube que aquilo que havia acontecido era conhecido como a saída do “tampão”. Em outras palavras eu deveria me dirigir imediatamente ao hospital, e a médica se encontraria comigo lá em seguida.

Fiquei bem assustada!

Ao chegar ao hospital, por volta de onze da noite, novo exame e o diagnóstico da auxiliar de enfermagem havia ganho um elemento novo: “franco”. Eu agora estava em “franco” trabalho de parto!

Não havia outra possibilidade, senão a de trazer a Bianca ao mundo, naquela mesma noite.

Fiquei apreensiva… O que aconteceria nas próximas horas, minutos?

Fui levada de cadeira de rodas para uma sala e iniciaram-se os preparativos…

Em seguida fui levada ao centro cirúrgico, onde parte da equipe da minha médica, Dra. Zenaide Sueli Alves, me aguardava.

Não demorou muito até que a própria médica chegasse. Após um exame rápido disse que a evolução estava perfeita, e que, pela dilatação constatada, em poucos minutos eu poderia ter um lindo parto natural.

Tive medo. Nunca gostei de sentir dor, embora a dor que eu sentisse naquele momento fosse leve e gostosa…

Disse a ela que não queria parto natural. Queria mesmo a cesárea, conforme havíamos planejado desde o início.

O anestesista, então, passou a me explicar o que aconteceria nos próximos minutos… Mais uma vez tive medo. A agulha era imensa e seria introduzida na base da minha coluna vertebral.

Nunca tive medo de injeção, mas daquele tamanho e naquele lugar!!!

Houve uma pequena complicação na hora da aplicação e eu fiquei apavorada.

A complicação foi rapidamente contornada, e em poucos minutos eu já não sentia minhas pernas, meu abdômen, meu peito.

A equipe passou a se preparar e eu, acordada, não parava de fazer perguntas. Curiosa, como sempre, queria saber tudo o que estava acontecendo. Não queria perder um procedimento sequer.

Minha médica, então pediu para aplicarem morfina em minha veia, para induzir-me ao sono.

Fui ficando sonolenta, com os sentidos bem afetados, mas resisti bravamente até o momento mais esperado da noite, exatamente quando o relógio marcava 00h57…

Minha filha, minha primeira filha, naquele momento, minha única filha. Pesando apenas dois quilos e novecentos e vinte gramas, medindo tão somente quarenta e seis centímetros.

Lá estava ela, respirando, nos braços da médica. Linda!

A médica a trouxe para perto de mim. Colocou-a em meu peito. Não pude abraçá-la, pois meus braços estavam presos por causa da medicação em minha veia.

Não sabia o que fazer! Não sabia como agir…

Lá estava eu diante do maior acontecimento da vida de uma mulher… Eu era mãe! E mãe da criatura mais meiga, delicada, sensível, tranqüila e doce que jamais existiu.

Bianca, minha filha, eu quero que você saiba que você mudou a minha vida. Eu nunca mais fui a mesma depois de sua chegada.

Com você aprendi muita coisa, e continuo aprendendo até hoje.

Você sempre foi a filha que toda mãe sonha, e continua sendo até hoje.

Desejo que você realize cada um dos seus sonhos, e que você seja muito, mas muito feliz.

Nunca se esqueça de que o amor que eu sinto por você é incondicional, e que, não importam as circunstâncias, ou quanto tempo passe, eu sempre te amarei, e sempre estarei pronta para acolher você em minha vida.

Eu te amo demais…

Um beijo especial e único de sua Mãe.

Em Campos do Jordão, 04 de Novembro de 2008.

Ano novo, Blog novo

Caros Amigos

Como muitos de vocês sabem, de fato o ano começou novo para mim. Por isso estou iniciando, a partir de hoje, um novo Space (embora o início do ano já tenha ficado para trás).

Esse é o terceiro Space que começo. O primeiro durou algum tempo, mas foi abandonado. O segundo teve apenas um post… 😦 Espero que este seja constantemente atualizado.

É sempre boa a sensação de começar uma coisa nova. Há um entusiasmo que nos faz crer que tudo o que não conseguimos antes, conseguiremos agora. Esse é o milagre do recomeço…

É isso… Estou recomeçando…

Em breve compartilharei outros recomeços com vocês…

Um abraço.

Paloma