Há (dois) ano(s) uma utopia se tornava realidade…

Escrevi esse relato em forma de post no Facebook há exatamente um ano, em 2018, quando fazia um ano que eu havia passado na seleção do Doutorado em Educacão da USP. Hoje o Facebook me trouxe essa memória, e achei que o relato merecia vir para meu Blog.

Primeiro por se tratar de uma passagem autobiográfica significativa para mim. Segundo porque pode servir de inspiração para outros jovens e adolescentes que, assim como eu, não nasceram com a vida ganha, e por sua desvantagem na largada, terão de correr mais se quiserem cruzar a linha de chegada…

Na corrida do conhecimento, como diz o querido Nilson José Machado, diferentemente da corrida do mercado, não existem restrições quanto ao número de vencedores. Todos aqueles que enfrentarem e superarem suas próprias limitações, sejam elas internas (biológicas, psicológicas, espirituais), sejam elas externas (sociais, ambientais), cruzarão a linha de chegada e receberão o seu merecido prêmio. Isso porque o prêmio dessa corrida não é limitado ou finito, como o dinheiro, ou as riquezas de um modo geral, mas é ilimitado e infinito. O conhecimento não precisa ser dividido entre os vencedores. Mas, ao ser partilhado, ele ainda se multiplica…

É verdade que, no caminho, precisaremos da ajuda de muita gente. Dificilmente venceremos sozinhos essa corrida. Mas se não corrermos, ninguém correrá por nós. Então, faça a sua parte, e agarre cada oportunidade que surgir em sua vida com as quatro mãos!


Quando publiquei esse post, no ano passado (2017), queria ter escrito um textão autobiográfico, mas estava tão, mas tão extasiada, que não tive condições emocionais de escrever mais nada além de “Doutoranda na USP!”.

Hoje, celebrando o primeiro aniversário desse dia histórico em minha vida, vou gastar alguns minutos para tentar escrever o que eu não consegui antes.

Fui a primeira pessoa da minha família a concluir o Ensino Superior. E não foi em uma universidade pública, pois seria esperar demais de uma pessoa que estudou a vida inteira em escolas públicas, estaduais, e que sequer cursou o Ensino Médio regular (antigo Propedêutico), uma vez que optou por fazer um curso técnico.

Indecisa entre Técnico em Enfermagem e Magistério, acabei optando pela segunda alternativa, muito inspirada nas brincadeiras de infância, de professora das minhas amiguinhas lá no Parque CECAP, em Guarulhos, onde vivi até os 12 anos de idade. Essa escolha excluiu de minha formação as disciplinas de Química, Física, Biologia e até mesmo a Matemática de nível Médio, a não ser por uma introdução que era oferecida no primeiro dos quatro anos do Magistério, tentando garantir uma base mínima dessas disciplinas a todos os estudantes. Todos os conteúdos que deixei de conhecer na escola eram exigidos nos vestibulares de todas as faculdades, creio que muito mais até do que hoje em dia… Meu finado amigo Alexandre, carioca esperto, de Madureira, Engenheiro Naval formado pela UFRJ e colega do meu pai no banco onde ele trabalhava, ainda se dispôs a me ajudar com esses conteúdos (com exceção de Biologia), mas, apesar dos estudos com ele, muitas vezes no quiosque da praia, em Ubatuba, onde morei na adolescência, eu sabia que não seria fácil…

Sinceramente, a inscrição no vestibular da USP foi apenas para cumprir tabela. Achei, mesmo, que seria muita areia para o meu caminhãozinho… Qual não foi minha surpresa quando eu percebi que, se eu tivesse me inscrito em Pedagogia nessa que foi a única universidade pública para a qual prestei vestibular, teria passado, pelo menos, para a segunda fase. No entanto, como se não bastassem todos os percalços que passamos durante nossa escolarização, a maioria de nós ainda costuma viver a crise de não ter um projeto de vida aos 17 anos, quando temos que tomar decisões que nos são apresentadas como decisivas para o nosso futuro. A verdade é que eu estava indecisa entre Direito e Pedagogia. O Direito surgiu por incentivo de pessoas próximas que achavam que eu era eloquente e tinha boa capacidade de argumentação, o que me ajudaria a ser uma boa advogada. Além disso, professora (já) era uma profissão tão desvalorizada… Na verdade, a sociedade sempre acaba pressionando a gente a escolher aquilo que ela idealiza como sendo a melhor profissão, em outras palavras, o que vai proporcionar mais estabilidade financeira e que vai possibilitar que a gente seja mais respeitada. Quanta bobagem…

Eu não tinha dinheiro para ficar prestando vestibular em tudo quanto é lugar. Então, além da USP, escolhi outras duas instituições privadas (sem saber como eu poderia pagar as mensalidades, caso viesse a passar). Na USP eu não podia escolher duas opções em áreas diferentes. Então escolhi só Direito. Na FMU e no Mackenzie, pude escolher tanto Direito quanto Pedagogia. Para decepção da minha querida professora de Língua Portuguesa do Magistério, Helô (uma lenda viva em Ubatuba), não entrei na USP, onde ela tinha certeza de que eu conseguiria. Mas, como prêmio de consolação, passei em Pedagogia nas outras duas. No Mackenzie o curso era vespertino, o que limitaria minhas possibilidades de arrumar um trabalho para sobreviver. Além disso, a chance de eu conseguir uma bolsa era muito remota, pois só havia bolsas próprias da Universidade, e eu fui informada de que, normalmente, apenas pessoas ligadas à Igreja Presbiteriana (especialmente filhos de pastores) ou outros casos muito excepcionais, conseguiam essas bolsas. Na FMU, além de o curso ser noturno (o que me abriria mais possibilidades de arrumar um trabalho), eles ofereciam o chamado Crédito Educativo (do governo FHC). Felizmente, em pouco tempo consegui tanto o trabalho, quanto o financiamento, além da ajuda preciosa de muitos amigos que ora me cediam uns vale-transportes, ora uns vale-alimentação, além de ajuda para outras despesas. A moradia, que seria o mais difícil, eu consegui pela generosidade da minha tia Josira, que abriu as portas da casa dela, onde sempre cabe mais um. Sou grata não só a ela, mas aos meus primos Moises, Helder e Tati por terem me aturado por seis meses na casa deles. Assim, deixei a casa dos meus pais em Ubatuba com um cheque do meu pai para pagar a primeira mensalidade, e passei a cuidar de minha vida a partir dali.

No final do primeiro ano da faculdade acabei me casando e, quando cursava o terceiro ano, tive minha primeira filha. Em seguida, tão logo concluí a faculdade, tive a segunda filha, e assim uma possível carreira acadêmica foi interrompida por tempo indeterminado.

Na verdade eu nem almejava uma carreira acadêmica. Na verdade, mesmo, eu nem sabia se seguiria carreira na área da educação. Decepcionada com a área, e acreditando que eu não tinha a menor vocação para trabalhar ali, passei alguns anos sendo exclusivamente mãe, e depois fui trabalhar em uma pequena empresa de tecnologia que tive com me ex-marido, onde, apesar de trabalhar na área administrativa, acabei aprendendo bastante sobre informática, tendo me tornado uma usuária mais avançada do que a maioria das pessoas que eu conhecia no uso de tecnologias. Poucos anos depois passei em um concurso na Prefeitura de São Bernardo do Campo, e aos 25 anos tomei aquela decisão que as pessoas achavam que eu tinha que ter tomado aos 17 anos. Finalmente eu tinha um projeto de vida! Escolhi a educação. Descobri que eu poderia contribuir para o mundo ser um lugar melhor se eu ajudasse as pessoas a se transformar por meio da educação.

Comecei trabalhando nas séries iniciais da educação básica, e, em seguida, passei a trabalhar com o uso de tecnologias na educação, inclusive com formação continuada de professores para o uso pedagógico das tecnologias. Essa experiência acendeu em mim o desejo de, futuramente, trabalhar na formação inicial de professores. Mas, infelizmente, esse era um futuro muito distante, pois, como já não havia mais o curso de Magistério, para trabalhar nessa área eu precisaria cursar uma pós-graduação, e se uma especialização parecia difícil, um Mestrado e um Doutorado pareciam impossíveis. Uma utopia…

Mais de doze anos se passaram desde que eu terminara minha graduação. Minha vida passou por transformações profundas e radicais (algumas até traumáticas), mas, finalmente, o Mestrado estava acontecendo, graças ao incentivo e apoio do meu parceiro de vida, Eduardo Chaves. E não era em uma instituição qualquer. Era na PUC-SP, uma universidade tão bem conceituada, mas que eu nem cogitei estudar na graduação (apesar da insistência de outras duas professoras importantes em minha vida, a Malu Borim e a Sonia Bomfim, também do Magistério), porque sabia que não teria recursos para pagar as altas mensalidades… E como se não bastasse estar na PUC, ainda tive o privilegio de ser orientada pelo Prof. Fernando Almeida, que eu tanto admirava.

Descobri que é verdade que o Mestrado dói. A gente tem de aprender tanto, em tão pouco tempo, que me parece impossível sobreviver a ele sem muito sofrimento. Mas, enfim, eu sobrevivi. E a dor foi tão forte, que eu não quis nem pensar em fazer Doutorado. Como eu trabalhava em escola de educação básica, onde esse tipo de título acadêmico nem é tão valorizado, estava satisfeita com o Mestrado.

Entretanto, a vida, que não para, deu mais algumas voltas, e aquele sonho de trabalhar com formação inicial de professores se tornou realidade no IFSP. Nesse contexto, o Doutorado passou a ser algo importante dentro da minha nova carreira. E assim, três anos após concluir o Mestrado, passei a sonhar com o Doutorado. Mais uma vez com o incentivo e apoio do meu marido e melhor amigo, escrevi e submeti um projeto. No entanto, em minha primeira tentativa, não passei no exame de proficiência em inglês… Imaginei que minha dificuldade seria a aprovação do projeto, mas, enfim, foi no inglês que meu sonho ruiu…

Foi bem difícil lidar com a frustração. Eu estava em uma fase da vida em que parecia que tudo que eu fazia, prosperava. Eu havia acabado de passar em um concurso concorrido no IFSP, em que havia uma única vaga! Um trabalho escrito com duas amigas acabara de ser aceito em um congresso em Portugal. Uma proposta para ministrar uma oficina de Design Thinking para Educadores, pela Pró- Reitoria de Ensino do IFSP, havia sido selecionada. Mas quando a autoestima da gente fica abalada, não importa tudo o que fizemos até ali. A única coisa que conseguimos pensar é que somos um fracasso, mesmo. Que era muita pretensão minha querer entrar justamente naquela universidade pública na qual eu não havia conseguido cursar nem a graduação. Quem era eu para querer aquilo? Fora isso, tinha o peso da expectativa das pessoas que me cercam… O marido tinha certeza de que eu conseguiria. As filhas. Os amigos. A família… Que difícil carregar tanta expectativa nos ombros!

Ao longo daquele ano, no entanto, tive a felicidade de experimentar muitas coisas boas junto aos meus alunos e colegas do IFSP. Nesse processo nasceu o projeto de inovação da Licenciatura em Química, do IFSP Capivari. E esse projeto me fez voltar a sonhar… No ano seguinte mexi um pouco no projeto que eu havia submetido no processo anterior da USP (e que nem chegou a ser apreciado), incluindo coisas que eu havia aprendido de forma tão significativa ao longo daquele ano. Criei coragem, e tentei outra vez. Com muito mais humildade. Com muito menos expectativas…

E, então, aconteceu…

Meu projeto foi aceito pelo Prof. Ulisses Araujo, alguém que eu não apenas admirava, mas com quem havia aprendido tanto em suas aulas de Psicologia de Educação, ao lado da Profa. Valeria Arantes, no Canal da UNIVESP, em minha preparação para ministrar aulas de Psicologia da Educação no IFSP.

Enfim, foi um sonho, dos grandes, que virou realidade diante dos meus olhos, a essa altura, quase incrédulos… Quase, porque no fundo eu sou uma otimista inveterada e sempre acabo acreditando que coisas boas podem acontecer. Se eu fosse totalmente incrédula, talvez nem tivesse tentado outra vez, né? Mas tentei. E deu certo.

Apesar de eu ser grata a Deus e a todas essas pessoas que mencionei nesse textão, e a outras pessoas que fizeram parte da minha história, me fazendo ser quem eu sou, hoje eu dedico essa conquista à minha professora Helô. Ela foi a primeira a ter tanta certeza de que eu estudaria na USP (e sua decepção lá em 1993 deixou isso bem evidente), que plantou em mim a semente que, a seu tempo, deu o seu fruto. Obrigada, Helô. Não sei se essa mensagem vai chegar até você, mas a minha gratidão é imensa.

Paloma Chaves

Em Salto, 10 de Julho de 2019.

A Geração On Demand

Recentemente foi divulgado na imprensa que a Rede Globo tem tomado algumas medidas meio radicais de contenção de gastos. Após rever e até rescindir diversos contratos com alguns de seus astros e estrelas, as novas medidas afetaram até mesmo alguns pequenos mimos como manicures e motoristas para os artistas.

Algumas razões têm sido aventadas para explicar a situação de aperto em que se encontra a emissora que sempre foi “campeã de audiência”. Além dos problemas com a concorrência, que têm afetado justamente sua posição de liderança, a emissora também tem sofrido os impactos do cisma social desencadeado pelas disputas políticas das alas à direita e à esquerda do espectro político. Ambos os lados da polarização acusam a emissora de colocar sua grade de programação a serviço do inimigo, e isso tem afastado os antigos telespectadores que, por essa razão, acabam procurando a Rede Record ou o SBT, como alternativas. Até mesmo o corte de verbas de publicidade do governo federal tem sido apontado como hipótese para a redução do orçamento da emissora.

Há, entretanto, uma razão que tem sido pouco apontada como possível causa do declínio da emissora. E, na minha opinião, a razão ignorada é justamente a principal: a cultura do vídeo on demand.

Não faz nem uma década quando vivi, pela primeira vez, a experiência de poder escolher o que eu queria assistir, e a hora que eu queria assistir, durante um vôo entre São Paulo e Lisboa. Até então havia uma programação de entretenimento igual para todos os passageiros e eu vivia bastante bem com isso. Fiquei muito empolgada com a novidade, apesar da dificuldade inicial que enfrentei para escolher o que eu queria assistir. Eu simplesmente não estava acostumada a fazer escolhas, a tomar decisões em relação ao que iria assistir. Eu estava perfeitamente adaptada à minha condição de consumidora passiva da seleção feita por algum especialista em entretenimento.

Mas não demorou muito até que essa tecnologia chegasse às nossas casas. A Netflix talvez seja a empresa que mais tenha popularizado o vídeo on demand via streaming no Brasil e no mundo. Apesar de ter iniciado o serviço em 2007, em maio de 2018 ela passou a ser a maior empresa de entretenimento do planeta, superando a Disney, e hoje já conta com, pelo menos, 139 milhões de assinantes. Apesar de seus números serem impressionantes, hoje ela é apenas mais uma nesse imenso mercado, que já conta com outras gigantes, como a Amazon Prime e a HBO Go, dentre outras. Isso para não mencionar concorrentes gratuitos, como o YouTube.

Não faz muito tempo, passei uma tarde sozinha na casa da minha filha, e fiquei aflita quando percebi que não teria a companhia da televisão, simplesmente porque ela não tem antena para os canais abertos, e nem mesmo uma assinatura de TV a cabo. Minha filha de 20 anos é uma autêntica representante da geração que aboliu completamente a ideia de ter acesso a uma programação controlada por uma emissora de televisão, e investiu apenas em um Google Chromecast, um pequeno aparelho que possibilita que ela assista, na tela da TV, o conteúdo que é exibido na tela de seu celular ou notebook. Dessa forma ela pode assistir aos seus filmes e, principalmente, às suas séries, que são as únicas coisas que lhe interessam, de fato.

Enquanto eu acho muito estranho alguém não ter TV em casa (porque o que eu entendo por TV é a programação da TV aberta), ela acha ainda mais estranho que alguém perca tempo assistindo uma programação aleatória, que ela não escolheu, extremamente limitada em termos de oferta de conteúdo, e rígida em termos do horário em que se pode assistir àquilo que, eventualmente, se queira. Racionalmente eu não posso discordar dela. É realmente uma estupidez ficar dependendo da grade de programação tamanho único, determinada unilateralmente por uma emissora, ou por um conjunto de emissoras, quando se tem tantas opções. No entanto eu estou tão condicionada a esse modelo, que simplesmente não sinto vontade de escolher o que vou assistir na maior parte do tempo. Eu me acomodei nessa posição de receptora passiva. O problema é que a minha, talvez seja a última geração de telespectadores de TV aberta. É uma tendência. É um caminho sem volta.

Voltando à Rede Globo, apesar de seu esforço com a Globoplay, talvez ela tenha perdido o timing para entrar nesse mercado. Vamos acompanhar. Mas, de qualquer forma, a TV aberta, como conhecemos, está com os dias contados. A queda na audiência tende apenas a se agravar. Mesmo suas concorrentes, que podem até estar comemorando um pequeníssimo crescimento em sua audiência, não deveriam se empolgar. Embora eu não me sinta confiante para fazer uma previsão em termos de prazo, eu não hesito em afirmar que a TV não sobreviverá no formato tradicional.

Mas esse fenômeno, que está abalando de forma definitiva as estruturas da maior fonte de entretenimento da população, se reflete também em outras áreas. E a Educação é uma delas.

A geração on demand, que tem total controle sobre o conteúdo que deseja acessar e sobre o ritmo, a frequência e a direção da exibição (hands on), na porção adequada aos seus anseios (just enough), no exato momento em que deseja (just in time), provavelmente não suportará por muito mais tempo um modelo de escola que trabalha sob a lógica de uma grade curricular com conteúdos genéricos, entregues de uma única vez e de forma ininterrupta, em porções padronizadas, em horários arbitrariamente estabelecidos, para todos os estudantes.

Talvez a obrigatoriedade legal da frequência escolar garanta uma sobrevida a esse modelo por um tempo um pouco maior do que a expectativa de vida da TV tradicional, mas o poder de coerção da lei também é limitado. Os índices de evasão do Ensino Superior e dos anos finais da Educação Básica têm se mostrado um forte indício dessa tendência.

Não acredito que, necessariamente, a escola precise acabar. Mas, se quiser sobreviver, ela precisará se reinventar. E um modelo de educação on demand é um caminho possível…

Em Salto, 01 de junho de 2019.

Sobre Intolerância Política e Visão Dicotômica de Mundo

Sou a prova viva de que a intolerância política não predomina nem à esquerda e nem à direita do espectro político, e de que é possível superarmos uma visão dicotômica de mundo.
 
Tenho muitos amigos que se vêem e se classificam como de esquerda, que discordam veementemente de algumas ideias minhas. Embora existam alguns poucos intolerantes, a maioria desses amigos sente liberdade para me falar dessa discordância explicitamente, mas nem por isso me trata com desrespeito ou me exclui de seu círculo de amizades. Mais do que isso, eles são capazes de trabalhar em parceria comigo especialmente em projetos que não envolvem diretamente esses pontos de divergência.
 
Da mesma forma tenho muito amigos que se vêem e se classificam como conservadores de direita, que discordam veementemente de algumas ideias minhas. Embora também haja os radicais, a maioria desses amigos também não tem problema em dizer explicitamente que discorda de mim, mas também não me trata com desrespeito ou me exclui de seu círculo de amizades. Mais do que isso, eles também são capazes de trabalhar em parceria comigo em projetos que não envolvem diretamente esses pontos de divergência.
 
É verdade que eu não me vejo e nem me classifico como alguém de esquerda ou de direita. Sendo assim, não me sinto do lado oposto de nenhum desses meus amigos, havendo muitos aspectos em que estou de pleno acordo com ambos os lados. Isso facilita o processo. Talvez se eu me visse como alguém que está do lado oposto, eu dificultasse essa aproximação.
 
Porém, embora eu não me veja do lado oposto (por não me sentir plenamente representada por nenhum lado), a verdade é que a maioria dos meus amigos de esquerda me vê e me classifica como sendo de direita, e muitos dos meus amigos de direita, me vêem como alguém muito influenciada pelas ideias da esquerda. Portanto, se eles fossem intolerantes, não me aceitariam e ponto.
 
A questão fundamental da intolerância para mim está na representação linear que temos do espectro político. Afinal, a política é uma área muito abrangente e complexa para ser representada apenas em uma imagem linear.
 
Minha visão de mundo, minhas crenças, meus valores, minha história de vida e tudo o mais, compõem minha posição política. Como dizia Paulo Freire, todo ato é um ato político! A forma como eu educo as minhas filhas, como eu me relaciono com meu marido, minha família e meus amigos, como eu encaro o meu trabalho (no meu caso, como eu lido com o processo de educação dos, assim chamados, meus alunos), como eu administro minhas finanças, meus funcionários (atualmente, só os domésticos), como eu lido com a minha espiritualidade, e até a forma como eu crio os meus animais de estimação, revelam minhas convicções políticas! Meus hábitos de consumo (vestimentas, alimentação, lazer, patrimônio), meu estilo de vida, são atos políticos.
 
Ora, se tudo é político, e se tudo é tanta coisa, como uma escala linear será capaz de representar a dimensão política da minha vida?
 
Uma das coisas que eu gostava na Escola Lumiar, onde tive o privilégio de trabalhar, era do currículo em forma de Mosaico. Um mosaico é composto por diversos pontos que possibilitam uma infinidade de combinações diferentes. Cada combinação forma uma imagem única, embora com vários pontos em comum com outras imagens ou realidades.
 
A ideia do mosaico permite tanto uma abordagem por afinidades, de identificação de pontos em comum, quanto uma abordagem pela pluralidade, de identificação pela diversidade.
 
Além do problema da linearidade, outro aspecto que me incomoda no espectro político é sua aparente ausência de movimento. As coisas parecem ser estáticas. Parecem favorecer um rótulo perpétuo.
 
Para mim faz muito mais sentido um mosaico, do que uma escala linear, quando eu penso em política. E não um mosaico pobre, de duas cores. Mas um mosaico multicolorido, com todas as cores tão embaralhadas, que parece até que elas se movimentam, se misturam, ora puxando mais para um tom, ora puxando para outro. Eu posso até destacar duas, dentre as diversas cores, para observá-las e contrapo-las, eventualmente. Mas quando eu olho para o todo, as cores se misturam novamente, e deixam a visão muito mais rica e agradável.
Por mais pluralidade e convergência na política!
Em Salto, 19 de Novembro de 2016.

Sobre ser Bela, Recatada e do Lar…

Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.

 (Clarissa Pinkola Estés – Mulheres que Correm com os Lobos)

Passada a indignação inicial, acho que já consigo pensar um pouco melhor sobre o assunto.

Historicamente a mulher foi oprimida pela sociedade machista, que impôs um rígido padrão de comportamento onde ela foi, com sua “fragilidade tipicamente feminina”, subestimada, subjugada e relegada a tarefas “menos complexas”, que não exigiam dela grande capacidade intelectual.

Se de um lado nunca se exigiu grande coisa de sua capacidade intelectual, de outro se exigiu muito de sua capacidade moral! Mulher precisa ter um comportamento moral irrepreensível! Não pode ter desejo sexual, por exemplo. Sua sexualidade precisa estar sob controle, contida, represada.

Já o homem pode tudo. Pode até “pular a cerca”, afinal, ele é homem, e homens são “fracos” nessa área. Eles só são fortes intelectual e fisicamente. Além disso, a sexualidade masculina é muito importante para ele, por isso precisa ser levada em consideração. Já a feminina “não existe”, por isso não precisa ser considerada.

Muitas mulheres, ainda hoje, se empenham para ser exatamente essa moça bela, recatada e do lar. Elas até podem trabalhar fora de casa, principalmente se não forem ricas, se não tiverem a sorte que a Marcela Temer tem de ter alguém que a sustente. E ela até pode ter algum destaque em sua carreira profissional. Mas não muito. Não pode brilhar mais que o marido. E, principalmente, não pode permitir que a profissional cresça em detrimento da esposa e da mãe… Jamais!

Caso algum filho fique doente, a profissional deve jogar para o alto todos os seus compromissos para se dedicar à sua função de mãe perfeita. Se o marido precisa de alguma ajuda, sem titubear a profissional larga imediatamente suas responsabilidades e corre para ser a esposa perfeita. A profissional não precisa ser perfeita. Já a mãe e a esposa precisam. E ser perfeita não passa de sua obrigação. Não é mérito algum.

O homem, por sua vez, não precisa se preocupar com essas coisas. Se em algum momento faz algum sacrifício dessa natureza por sua família, ele demonstra extrema generosidade, e é merecedor de todos os elogios possíveis, além da gratidão eterna de sua esposa.

Durante muitos anos eu fui essa mulher que me empenhava para ser bela, recatada e do lar. Até escova definitiva eu fiz em meu cabelo, durante anos, para contê-lo, para ficar mais adequada ao padrão de beleza vigente. Durante muitos anos fui a “esposa perfeita”, recatada, a mãe perfeita, que se dedicava, quando não exclusiva, prioritariamente às filhas.

Do lar eu não podia ser, por força de circunstância, embora, tenha até tentado. Fiquei alguns anos sem trabalhar para me dedicar exclusivamente ao papel de mãe. Mas a pressão foi tão forte, em função dos recursos financeiros limitados, que eu acabei cedendo e, aos 25 anos, voltei a trabalhar, mas jamais com intenção de me destacar em minha carreira. Eu precisava contribuir financeiramente com minha família. Era “por eles, não por mim”.

E assim eu vivi muitos anos de minha vida. E a igreja sempre teve papel importante nesse processo. Até que um dia as coisas mudaram (mas não cabe agora eu entrar em detalhes sobre como foi esse processo)…

Porém, vale destacar algo muito importante que eu descobri nesse momento: Mais importante do que ser bela, recatada e do lar, é parecer ser. Parecer é mais importante do que ser. E aí está o maior problema.

Muitas mulheres se esforçam para parecer ser o que não são. E fazem isso de forma tão sistemática, que acabam enganando não somente aos outros, mas a si próprias! E isso é muito triste.

Não há nenhum problema em ser bela. E embora possamos até fazer algumas coisas que contribuam para nossa beleza, muitas vezes a beleza acontece sem que seja necessário qualquer esforço. Existem mulheres naturalmente lindas. O problema é quando a beleza se torna obrigatória, sob pena de quem não a possuir, não ser aceita na sociedade. E especialmente quando essa beleza, para ser considerada beleza, precisa seguir um padrão específico: loira, de cabelo liso, preferencialmente de olhos claros, com uma relação peso x altura dentro de um padrão de proporcionalidade específico (Marcela?).

Também não há nenhum problema em ser recatada (reservada, modesta, singela, despretensiosa, austera, comedida). As mulheres não precisam querer ser o centro das atenções. Não precisam se destacar por serem comunicativas, extrovertidas, ativas, líderes, autoridades, etc. O problema é quando elas não podem ser nada disso, sob pena de serem mal vistas, “mal faladas”, inadequadas.

Do mesmo modo, não há nenhum problema em ser “do lar”. As mulheres não precisam exercer nenhuma profissão para ter seu valor reconhecido. Além disso, considero um privilégio poder cuidar da casa e dos filhos. Não é tarefa fácil, diga-se de passagem. Isso sem contar a importância dessa função para a formação dos filhos. Quantas crianças estão abandonadas à própria sorte, por não terem pai ou mãe, e vivem na rua, ou, na melhor das hipóteses, depositadas em uma escola. O problema é a mulher ser criticada por trabalhar fora, e ser responsabilizada por sua eventual ausência no lar em função do trabalho que exerce, enquanto o pai, ou marido, é valorizado justamente por ser trabalhador, independentemente de sua omissão em seu papel de pai.

O problema é a valorização de um padrão de beleza e comportamento específicos em detrimento de outras tantas possibilidades diferentes. E alguém pode até dizer que a reportagem, em nenhum momento, quis dizer que esse é o padrão que deve ser valorizado, senão que estava apenas falando do padrão de Marcela.

Mas, por “coincidência”, esse padrão de Marcela foi o que imperou durante muito tempo, oprimindo mulheres que não se enquadravam nele. Depois de tanta batalha, começando, talvez, com as sufragistas inglesas, e em seguida as americanas, que lutaram para que as mulheres tivessem o direito de ser ativas na sociedade, escolhendo seus representantes políticos. E depois delas vieram tantas outras, e foram tantas as conquistas. Por que, agora, uma matéria de revista começar a valorizar justamente um estigma do qual foi tão difícil que a mulher se livrasse? É, no mínimo, uma escolha muito infeliz sobre como abordar a vida de Marcela.

Eu me lembro do dia em que ganhei de minha amiga Ariadne Carozzi o livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, de Clarissa Pinkola Estés. Foi libertador…

Lendo as histórias do arquétipo da mulher selvagem, adquiri consciência a respeito do lobo selvagem que estava dentro de mim. De repente tudo fez sentido. De repente, os cachos voltaram aos meus cabelos. De repente eu não precisava mais corresponder às expectativas da sociedade machista que ainda insiste em ditar como a mulher deve se comportar. De repente eu podia ser eu mesma, com minhas virtudes e meus defeitos. E ser aceita. E respeitada. E amada.

Em Salto, 22 de Abril de 2016.

A Festa da Morte

Não, não vou escrever sobre o triste fim dos refugiados que temos visto diariamente na Internet e na TV.

Vou escrever sobre um sonho perturbador que tive esta noite, responsável por me tirar da cama antes das seis da manhã em pleno final de semana gordo da Independência.

Talvez esse sonho tenha que ver, sim, com os refugiados, que tornaram a morte algo extremamente corriqueiro. Talvez tenha que ver com a cena de ontem em frente à Catedral da Sé, em que aquele morador de rua, herói, simplesmente não deu a mínima para o risco eminente de morrer, e saltou em cima de seu assassino.

Talvez tenha que ver com a morte de minha querida tia Gledys, há uma semana, em que eu fui avisada de que ela estava mal, nas últimas mesmo, mas tive de adiar minha visita em um dia. Quando cheguei ao hospital, já era tarde. O episódio da tia Gledys ficou marcado também por evidenciar a banalidade que a morte representa para quem lida com ela diariamente. O hospital avisou à família, de seu óbito, quase 24 horas depois do ocorrido! E só avisou porque chegamos ao hospital para visita-la e ela não estava mais no quarto, e pasmem, ninguém do hospital parecia saber onde ela estava… Somente hora depois é que tiveram a decência de pedir ao médico que nos desse a notícia.

Pois bem. Esta noite eu sonhei que tinha uma doença terminal. Eu estava bem, me sentia ótima! Não tinha dor ou qualquer marca que indicasse minha doença. Apenas sabia que dentro de algumas semanas seria “desligada”.

Minha reação não foi desesperada, de alguém que queria lutar pela vida, ou contra a morte. Simplesmente eu aceitei aquela notícia como um fato sobre o qual eu não poderia ou não deveria fazer nada. E ainda me senti privilegiada por saber que teria tempo de me preparar para o momento final. Comecei a pensar em tudo o que gostaria de fazer antes daquele fatídico dia. Quem eu gostaria de ver. Quem eu precisava ver, para acertar coisas que estavam pendentes. Com quem eu gostaria de passar aqueles últimos e especiais momentos.

Então eu comecei a organizar um evento, que mobilizou tantos esforços quanto uma festa de casamento.

Decidi que queria fazer isso em um Resort bem lindo, com piscinas de água quente. Convidei para passar um tempo comigo várias pessoas que passaram pela minha vida. Mas como eu passaria vários dias naquele hotel, distribuí os convidados ao longo dos dias, para que tivesse tempo de passar tempo de qualidade com cada um deles. Afinal, em festas convencionais a gente vê tanta gente ao mesmo tempo, que não consegue sequer conversar com cada um.

Outras pessoas, que não fossem convidadas, também poderiam ir. Sabiam que eu estava lá para me despedir, pois eu divulguei a todos. Podiam chegar, ficar lá um tempo, e depois ir embora.

Foi engraçado encontrar pessoas que eu não via há anos. Pessoas que eu nem imaginei que se importariam em ir até lá para se despedir. Foi bom. Foi melancólico, também, convidar algumas pessoas importantes em minha vida, com as quais existem pendências, e receber uma desculpa como resposta. A pessoa, da família, tinha uma série de compromissos inadiáveis agendados para os próximos dois meses. Eu sabia que, na verdade, ela simplesmente não queria ir até lá se despedir de mim. Acho que ela já havia se despedido antes, e, para ela, eu já havia partido desta para uma melhor…

Foram dias incríveis! As pessoas mais próximas e queridas, ficaram mais tempo comigo. Às vezes batia uma certa ansiedade, tentando imaginar como seria a hora H. Mas eu era tranquilizada pela equipe médica que dizia que, para mim, seria apenas como um sono profundo, bem pesado… Eu adoro dormir profunda e pesadamente e faço isso diariamente. Então eu me tranquilizava e pensava apenas que seria o sono mais longo de minha vida. E que no dia seguinte eu não precisaria acordar para enfrentar as lutas diárias. Eu apenas descansaria.

Para os protestantes, como eu, em tese, a morte é um momento especial de passagem para ir para “os braços do Pai”, como dizemos. O apóstolo Paulo, em Filipenses 1:21, menciona “Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro”. Então, em tese, como eu disse, a morte deveria ser bem tranquila. Mas nem sempre é o que acontece na prática. Acho que porque, além de protestantes, somos fruto da cultura ocidental, que nos ensina outras coisas a respeito da morte.

Quando foi chegando o momento, apenas aqueles mais chegados estavam junto de mim. E todos pareciam felizes, gratos por terem passado aqueles últimos momentos incrivelmente agradáveis ao meu lado. Por terem me dito tantas palavras de amor e carinho nos últimos dias. Por terem se divertido e dado tantas risadas comigo naquele lugar maravilhoso. Então fomos para uma sala, fizemos um culto final, todos juntos, em comunhão, com muito amor. Eu me despedi de cada um com um beijo e um abraço bem apertado, com lágrimas nos olhos, como aquelas cenas que vemos nos aeroportos e nas rodoviárias. E entrei em um quarto. E acordei.

Não estava aflita quando acordei. Não estava triste, mas também não estava alegre. Mas sentia uma paz meio estranha. E não consegui voltar a dormir.

Acho que essa ideia de que saber a hora da morte pode ser um privilégio que poucas pessoas têm, já está rondando o meu imaginário há algum tempo. E acho que ela está começando a se consolidar em minha mente. A ponto de não apenas eu ter tido esse sonho que parecia tão real, quanto a ponto de eu começar a desejar que Deus me conceda o privilégio de saber quando a minha hora estiver chegando.

Em São Paulo, 05 de Setembro de 2015.

Natal ou Páscoa?

Há quem considere o Natal a data máxima do cristianismo, quando se celebra o nascimento de Jesus…

Há outros que preferem a Páscoa, quando se celebra Sua ressurreição…

Nascer, de fato, é menos surpreendente do que ressucitar, apesar das circusntâncias que marcaram o nascimento de Jesus…

Quer seja Natal, quer seja Páscoa, o importante mesmo é lembrar-se de Jesus e o propósito de sua vida.

Feliz Natal!

O princípio da transparência: segredo de sucesso ou razão de fracasso dos relacionamentos?

Durante um bom tempo tive meu comportamento norteado pelo impacto de uma idéia que revolucionou meu modo de entender relacionamentos. O chamado princípio da transparência entrou em minha vida como uma solução definitiva para a grande maioria dos problemas de relacionamentos, especialmente entre marido e mulher.

O princípio se baseia na interpretação da passagem bíblica de Gênesis 2:25 que diz: “Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam.”

A interpretação da passagem enfatiza a necessidade de os parceiros de um relacionamento manterem-se nus um diante do outro, não só na dimensão física (corpo), mas também nas dimensões espiritual (espírito) e psíquica (alma).

A dimensão física é a mais fácil de se compreender (e viver), embora haja, ainda hoje, pessoas que se envergonham de ficar nuas na frente de seu parceiro.

A dimensão espiritual diz respeito à transparência de uma pessoa frente ao relacionamento que seu parceiro mantém com Deus. Essa dimensão é bastante profunda, uma vez que a crença na oniciência de Deus normalmente faz com que as pessoas nem tentem esconder nada de Dele. E quando uma pessoa tem o privilégio de compartilhar de um momento, por exemplo, de oração de seu parceiro com Deus, ele, na realidade, está tendo acesso à maior intimidade que alguém poderia ter com alguém.

Para as pessoas que compartilham da mesma fé, essa dimensão também se torna relativamente fácil de ser vivida.

Dentre as três dimensões, entretanto, a que provavelmente representa o maior desafio para quem quer praticar o princípio da transparência, é a dimensão psíquica, da alma.

Tudo o que sabemos e temos memória (consciência) habita nossa alma. Tudo o que vivemos, desejamos, pensamos, sentimos está guardado em nossa mente e coração. A verdade é que nem nós mesmos conseguimos saber tudo aquilo que guardamos em nossa alma, mas certamente sabemos que escondemos nela algumas coisas das quais até nós mesmos nos envergonhamos. Coisas que já fizemos, ou que ainda fazemos, e que nunca teríamos coragem de contar para alguém.

A despeito dessa dificuldade, o princípio da transparência pretende mostrar que um relacionamento só será próspero se não houver absolutamente qualquer segredo, seja do presente, do passado ou futuro, entre os parceiros.

É fato que a transparência é a chave para a confiança e para a cumplicidade, elementos essenciais para o sucesso de um relacionamento.

Nada gera mais insegurança do que a percepção de que o parceiro esconde algo. O desconforto inevitavelmente leva o outro (de quem está sendo escondido algo) a desconfiar de que seu parceiro quer enganá-lo, prejudicá-lo. Essa desconfiança pode minar o relacionamento de forma irreversível.

Por outro lado saber de algum segredo de seu parceiro, que ninguém nunca soube, gera uma sensação de cumplicidade maravilhosa, alimentando a relação de confiança e criando um vínculo bastante forte entre os parceiros. Apesar disso, a verdade é que poucos relacionamento conseguem experimentar esse princípio na prática.

Em dez dos últimos onze anos, ministrei cursos para casais, e tive a oportunidade de lidar com muitos tipos de relacionamentos, mas nunca encontrei um casal que conseguisse aplicar esse princípio em 100% do cotidiano de seu relacionamento. Creio que somente eu conseguia, porque acreditava nele, e sempre fui um tanto quanto corajosa em relação a essas coisas.

Observando os casais, constatei que vários deles até conseguiam manter um relacionamento aberto, com bastante diálogo, mas normalmente ambos os parceiros preferiam eleger um amigo ou uma amiga como confidente fiel, para quem tinham coragem de contar seus maiores segredos.

No fundo eu não me conformava com a idéia de que alguém pudesse ter um amigo mais amigo do que seu próprio parceiro. Como alguém poderia confiar um segredo a uma pessoa que não fosse também o seu amor?

Devo admitir, entretanto, que experiências recentes me fizeram rever esse conceito.

Hoje eu me pergunto: Será que estamos prontos para ter conhecimento de todos os segredos de nosso parceiro? Será que ele suportaria saber de algumas coisas que fizemos ou fazemos, que sentimos, ou ainda estamos sentindo? Será que nós resistiríamos ao saber de coisas do nosso parceiro que nos atingem diretamente? Será que é sensato deixar nosso parceiro saber de coisas que o afetam?

Definitivamente, não. Estou convencida de que há coisas que o parceiro é a última pessoa que deve saber, pelo menos enquanto a coisa está imatura. Essa convicção, entretanto, está muito longe de representar um boicote gratuito ao princípio da transparência. Na realidade ela está relacionada ao princípio do bom senso, que deve, a meu ver, prevalecer ao da transparência.

Às vezes, se a intenção é justamente a preservação do relacionamento, acredito que o melhor a fazer é poupar o parceiro de algumas informações que apenas prejudicariam o relacionamento, talvez de forma irremediavel.

Isso não significa agir de má fé, ou com indiferença, mas sim agir de forma consciente em prol do amor e do relacionamento.

Creio que um amigo ou amiga são, de fato, as pessaos mais indicadas para saber de algumas coisas, quando não for recomendável que esse alguém seja o parceiro. No entanto, estou certa de que há coisas que só deveriam ser compartilhadas com Deus, mesmo. Só Ele tem condições de ouvir qualquer coisa, e saber qualquer coisa a seu respeito, sem ficar desconfiado ou inseguro, e sem se deixar abalar em relação ao amor que sente por você.

Em Salto, 14 de Agosto de 2009.