O princípio da transparência: segredo de sucesso ou razão de fracasso dos relacionamentos?

Durante um bom tempo tive meu comportamento norteado pelo impacto de uma idéia que revolucionou meu modo de entender relacionamentos. O chamado princípio da transparência entrou em minha vida como uma solução definitiva para a grande maioria dos problemas de relacionamentos, especialmente entre marido e mulher.

O princípio se baseia na interpretação da passagem bíblica de Gênesis 2:25 que diz: “Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam.”

A interpretação da passagem enfatiza a necessidade de os parceiros de um relacionamento manterem-se nus um diante do outro, não só na dimensão física (corpo), mas também nas dimensões espiritual (espírito) e psíquica (alma).

A dimensão física é a mais fácil de se compreender (e viver), embora haja, ainda hoje, pessoas que se envergonham de ficar nuas na frente de seu parceiro.

A dimensão espiritual diz respeito à transparência de uma pessoa frente ao relacionamento que seu parceiro mantém com Deus. Essa dimensão é bastante profunda, uma vez que a crença na oniciência de Deus normalmente faz com que as pessoas nem tentem esconder nada de Dele. E quando uma pessoa tem o privilégio de compartilhar de um momento, por exemplo, de oração de seu parceiro com Deus, ele, na realidade, está tendo acesso à maior intimidade que alguém poderia ter com alguém.

Para as pessoas que compartilham da mesma fé, essa dimensão também se torna relativamente fácil de ser vivida.

Dentre as três dimensões, entretanto, a que provavelmente representa o maior desafio para quem quer praticar o princípio da transparência, é a dimensão psíquica, da alma.

Tudo o que sabemos e temos memória (consciência) habita nossa alma. Tudo o que vivemos, desejamos, pensamos, sentimos está guardado em nossa mente e coração. A verdade é que nem nós mesmos conseguimos saber tudo aquilo que guardamos em nossa alma, mas certamente sabemos que escondemos nela algumas coisas das quais até nós mesmos nos envergonhamos. Coisas que já fizemos, ou que ainda fazemos, e que nunca teríamos coragem de contar para alguém.

A despeito dessa dificuldade, o princípio da transparência pretende mostrar que um relacionamento só será próspero se não houver absolutamente qualquer segredo, seja do presente, do passado ou futuro, entre os parceiros.

É fato que a transparência é a chave para a confiança e para a cumplicidade, elementos essenciais para o sucesso de um relacionamento.

Nada gera mais insegurança do que a percepção de que o parceiro esconde algo. O desconforto inevitavelmente leva o outro (de quem está sendo escondido algo) a desconfiar de que seu parceiro quer enganá-lo, prejudicá-lo. Essa desconfiança pode minar o relacionamento de forma irreversível.

Por outro lado saber de algum segredo de seu parceiro, que ninguém nunca soube, gera uma sensação de cumplicidade maravilhosa, alimentando a relação de confiança e criando um vínculo bastante forte entre os parceiros. Apesar disso, a verdade é que poucos relacionamento conseguem experimentar esse princípio na prática.

Em dez dos últimos onze anos, ministrei cursos para casais, e tive a oportunidade de lidar com muitos tipos de relacionamentos, mas nunca encontrei um casal que conseguisse aplicar esse princípio em 100% do cotidiano de seu relacionamento. Creio que somente eu conseguia, porque acreditava nele, e sempre fui um tanto quanto corajosa em relação a essas coisas.

Observando os casais, constatei que vários deles até conseguiam manter um relacionamento aberto, com bastante diálogo, mas normalmente ambos os parceiros preferiam eleger um amigo ou uma amiga como confidente fiel, para quem tinham coragem de contar seus maiores segredos.

No fundo eu não me conformava com a idéia de que alguém pudesse ter um amigo mais amigo do que seu próprio parceiro. Como alguém poderia confiar um segredo a uma pessoa que não fosse também o seu amor?

Devo admitir, entretanto, que experiências recentes me fizeram rever esse conceito.

Hoje eu me pergunto: Será que estamos prontos para ter conhecimento de todos os segredos de nosso parceiro? Será que ele suportaria saber de algumas coisas que fizemos ou fazemos, que sentimos, ou ainda estamos sentindo? Será que nós resistiríamos ao saber de coisas do nosso parceiro que nos atingem diretamente? Será que é sensato deixar nosso parceiro saber de coisas que o afetam?

Definitivamente, não. Estou convencida de que há coisas que o parceiro é a última pessoa que deve saber, pelo menos enquanto a coisa está imatura. Essa convicção, entretanto, está muito longe de representar um boicote gratuito ao princípio da transparência. Na realidade ela está relacionada ao princípio do bom senso, que deve, a meu ver, prevalecer ao da transparência.

Às vezes, se a intenção é justamente a preservação do relacionamento, acredito que o melhor a fazer é poupar o parceiro de algumas informações que apenas prejudicariam o relacionamento, talvez de forma irremediavel.

Isso não significa agir de má fé, ou com indiferença, mas sim agir de forma consciente em prol do amor e do relacionamento.

Creio que um amigo ou amiga são, de fato, as pessaos mais indicadas para saber de algumas coisas, quando não for recomendável que esse alguém seja o parceiro. No entanto, estou certa de que há coisas que só deveriam ser compartilhadas com Deus, mesmo. Só Ele tem condições de ouvir qualquer coisa, e saber qualquer coisa a seu respeito, sem ficar desconfiado ou inseguro, e sem se deixar abalar em relação ao amor que sente por você.

Em Salto, 14 de Agosto de 2009.

 

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Um comentário sobre “O princípio da transparência: segredo de sucesso ou razão de fracasso dos relacionamentos?

  1. Oi, Paloma. Na verdade, entrei no seu blog por conta do relatório reflexivo, mas acabei vendo os outros temas e me interessei por este. Sabe por quê? Quando estava na 1a. faculdade, há muitos anos atrás, vi um outdoor com uma frase muito impactante: “Ser transparente é quase que um suicídio”. O outdoor ficava em frente à ECA e me aguçou a curiosidade descobrir quem era o autor de tal frase. E era a professora e poeta Lupe Cotrim, um dos nomes de destaque da poesia brasileira da década de 60, integrou a
    equipe de professores-fundadores da Escola de Comunicações, lecionando
    Estética e Pensamento Filosófico. Sua atuação notável diante da conjuntura política
    adversa por que passava o país levou os estudantes a darem o seu nome ao
    Centro Acadêmico da escola após sua morte prematura, aos 36 anos, em
    1970. Depois de ler o seu texto, Paloma, mais uma vez reencontro esta questão da transparência … É necessário e digno ser honesto, mas transparente entra em outra esfera, não é mesmo? E, nesta esfera, segundo o seu próprio texto, o bom senso é quem deve imperar …
    Um grande abraço,
    Adriana

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